Alimentação Saudável

“Hoje em dia é um circo o que acontece nas redes sociais com a nutrição”

O nutricionista Pedro Carvalho esteve à conversa com a NiT sobre dietas milagrosas da moda.
Os mitos que comemos.

Em tempos de pandemia, em que as fake news se tornaram presentes cada vez mais na área da saúde, depois de se terem feito sentir no mundo da política, pode dar-se o caso de pensarmos que o problema é recente. Na verdade, Pedro Carvalho já escreve sobre mitos há quase uma década. Começou primeiro no “Público” em 2013, mais dedicado a alimentos em particular. A crónica evoluiu para se dedicar aos mitos e tendências que já proliferavam. E desde então é tema que aborda com frequência, seja em livro seja em público. “Os Novos Mitos que Comemos” é a sua mais recente obra.

A desinformação é coisa já com barbas. Vem desde as coisas mais estapafúrdias que passavam por saúde no tempo dos nossos antepassados e foi continuando a surgir na era das redes sociais. Aqui há algo que Pedro Carvalho nota desde que começou a debruçar-se mais atentamente sobre o tema. O Facebook já era campo onde se notavam mas com o crescimento do Instagram é lá que encontramos muitas das novas tendências, muitas vezes promovidas pelo lado comercial.

“Este livro é também um resumo da minha produção escrita”, explica-nos. “O que me motiva é sempre o que vou vendo, muitas vezes nas redes sociais”. Há coisas que são cíclicas, “como os do emagrecimento, que voltam sempre quando está a chegar o verão”. Há coisas como o jejum intermitente, promovido até por algumas estrelas de Hollywood”, mas muitas vezes com coisas que não são verdade sobre o tema”. E há, claro, a pandemia.

“Temos toda uma série de mitos sobre o sistema imunitário que a pandemia fomentou, com coisas com argumentação bastante enviesada”. Há as coisas mais genéricas que o preocupam, e que não foram objeto do livro, “como aquela pseudociência de grupos anti-vacinas e anti-máscara”. Mas na alimentação “é a crença de que há suplementação, como vitamina C, B, zinco, probióticos, shots de imunidade” e outros temas que surgiram para tentar ocupar um lugar na prevenção da Covid-19, sem base científica para tal.

“Quanto melhor for a nossa alimentação, logicamente que vamos ter um sistema imunitário mais capaz de lidar com qualquer infeção, não só essa”. Já a ideia que algum suplemento mágico trará “um escudo protetor que nos impeça de apanhar [a doença], isso não é verdade”.

“Isto faz parte da condição humana. As pessoas querem o comprimido que emagreça, querem o alimento que emagreça, uma solução rápida e mágica, porque isso faz com que tenham menos trabalho. Se calhar há pessoas que queriam ser sedentárias e ter um corpo milagroso sem treinar, só tomando um suplemento, ou ter uma saúde de ferro ingerindo um alimento”. A realidade, no entanto, não é assim.

Nestas coisas, explica, “não há atalhos, mas isso não vende”. Cedo no livro o nutricionista compara as opiniões na nutrição às dos treinadores de bancada no futebol. “Como toda a gente come várias vezes ao dia, há pessoas que se auto-intitulam especialistas da nutrição”. No mundo dos influencers, acredita, isto acontece especialmente. “Não é o facto de uma pessoa ter muitos seguidores”, muitas vezes resultante da carreira pública da pessoa, que isso se substituirá às opiniões de profissionais. Não é essa notoriedade que dá capacidades “para promover um determinado produto, atribuindo-lhes propriedades que nem sabem muito bem o que significa. Hoje em dia é um bocadinho um circo o que acontece nas redes sociais com a nutrição”, atira.

Não se pense que isto é exclusivo das redes sociais. “Este livro também é um bocadinho uma crítica a alguns colegas meus, que há nutricionistas e médicos que fazem o mesmo”, privilegiando o lado comercial em relação à sua credibilidade. É também isso que o motiva: “se não houver ninguém que se predisponha a fazer quase como que um fact-check, é lógico que há pessoas vão andar a navegar tranquilamente nas redes sociais e a poluir um bocadinho o ambiente”.

A crítica, assume, é também para quem, mesmo com conhecimento científico, tem optado pela posição mais segura. “Muitas pessoas, mesmo ligadas a faculdades, também já deviam ter vindo dar o corpo às balas, como se costuma dizer. Porque se essas pessoas não ocupam esse espaço, alguém o fará”. E prossegue: “estamos na era digital, o mundo mudou, não podemos continuar na nossa zona de conforto, nem a comunicar como se fazia há 10, 15 anos”. O livro é, por isso, também uma espécie de “grito de revolta”, assume.

O prefácio do livro é assinado por João Júlio Cerqueira, médico que, com a página “Scimed – Ciência Baseada na Evidência”, tem-se destacado a alertar contra a desinformação, em especial nestes tempos de pandemia. Pedro Carvalho destaca o médico como uma das vozes mais ativas mas realça que há aqui um serviço público que precisa que mais profissionais se cheguem à frente. “Isto sai-nos um bocadinho do pêlo. Estou sempre a bater na tecla que há instituições que têm essa responsabilidade social, especialmente do ensino, e das Ordens”.

“Estes projetos”, prossegue, “se calhar nascem da revolta interior de algumas pessoas mas que são iniciativas próprias. Ainda bem que existem mas não deveria ser só assim”. O convite que fez ao médico, aliás, foi até de quem, como leitor, encontrou no Scimed mais argumentos técnicos para desmontar certas teorias. Mas lá está: “isto é algo descomunal, agradeço-lhe e nem sei como ele consegue fazer tanto. Isto dá trabalho, custa tempo, quem está a fazer aquilo é porque não está a fazer outras coisas. E isto faz-se sem ter nada em troca”. E às vezes acabam a ser criticados por colegas, “mais pela forma do que pelo conteúdo”.

Há áreas onde reconhece que, mesmo com muita disponibilidade, estamos já no domínio da crença. Na nutrição vê isso com veganos fundamentalistas ou nos anti-laticínios. “Já não dou para esse peditório. O que me preocupa é alguns profissionais, que estão do lado certo e não promovem a pseudociência, mas que nunca vieram a público e depois aparecem para criticar é a forma”. Como se o conteúdo não fosse o mais importante.

“Não sabem o que é a pressão de falar num direto ou de ter uma página com milhares de seguidores e estarem a chover mensagens desagradáveis, algumas ameaças. Como nunca sentiram isso na pele acham que é fácil”. Às vezes, conta, tem colegas que ficaram alerta para um tema mais polémico. “Mas quem é que está habituado a dar o corpo às balas? É o Pedro Carvalho”. E lá lhe mandam a próxima guerra para travar nas redes sociais.

O que fazer?

Quando Pedro Carvalho começou, se calhar o que havia eram coisas como “comer laranja à noite mata”. Com o tempo, os mitos também mudaram. É normal que como leitor já tenha sentido que as coisas podem até ficar um pouco cacofónicas. O mesmo alimento que um dia faz bem a uma coisa, noutro dia pode fazer mal a outra. A informação multiplica-se e, não raras vezes, surgem estudos em série que demonstram uma coisa e o seu contrário. E aqui a comunicação social também não está isenta de culpas.

A informação em catadupa pode ser desafiante mesmo para os maiores especialistas de uma determinada área. Como leigos, é natural que haja muitas dúvidas em tentar descortinar porque é que há estudos que merecem mais credibilidade do que outros.

Há, por isso, alguns pressupostos que podemos ter sempre. Não é bizarro, por exemplo, que uma dieta nova seja sinónimo de perda de quilos. No livro, Pedro Carvalho explica que não há propriamente dietas iô-iô, o que há é pessoas iô-iô. A boa forma depende mesmo do quão ativos somos e das escolhas que fazemos à refeição. Eis uma dúvida que pode estar sempre presente: será que ingiro muito mais calorias do que aquilo que gasto? A consistência numa rotina diária saudável será sempre melhor do que o tal milagre que já colecionou muitos likes.

Mais importante, e isto é um certo mantra que todos podemos ter de futuro: “tudo o que prova resultados muito rápidos e muito visíveis é logo para desconfiar. Porque se isso acontecesse já há muito tempo que seria uma prática clínica e comercial”.

“Os Novos Mitos que Comemos” foi lançado em abril pela Ideias de Ler. O livro de quase 300 páginas debruça-se sobre os mais diversos mitos, procurando trabalhar informação científica mas sempre numa linguagem acessível. No final de cada tema, encontramos sempre um resumo de ideias a reter que ajuda a rematar cada mito. Isto faz com que seja o tipo de livro que se pode ler de enfiada e voltar lá depois na próxima vez que vier à conversa a tal vitamina que cura a Covid-19. Spoiler alert: infelizmente, não cura. Mas é importante continuarmos a aprender.

Livro já está à venda.

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