Alimentação Saudável

Madalena descobriu aos 21 anos que é celíaca — e agora quer ajudar os outros

Em março deste ano, lançou uma página de Instagram com receitas deliciosas e sem glúten para inspirar aqueles que sofrem da doença.
A sua alimentação mudou completamente.

Madalena Faria lançou um projeto no Instagram em março deste ano onde partilha receitas deliciosas como bolos, brownies, bolachas com pepitas de chocolate e panquecas. No entanto, aquilo que a distingue de todas as outras páginas de receitas que podemos encontrar pelas redes sociais é que o glúten aqui não entra: todos os pratos são feitos a pensar em pessoas com a doença celíaca.

Em dezembro de 2019, a estudante de Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade Nova de Lisboa descobriu aos 21 anos que tinha a doença celíaca — uma idade insólita para se detetar esta condição, já que os sintomas se começam a revelar, geralmente, nos primeiros anos de vida. À conversa com a NiT, revela que nunca tinha desconfiado que pudesse ter uma intolerância ao glúten.

“Sempre fui muito saudável, mas andava a reparar há cerca de um ou dois anos que às vezes comia umas coisas e ficava mal disposta”, explica. Sanduíches de atum ou lasanhas começaram a provocar vómitos, enjoos e enxaquecas, mas os motivos eram sempre atribuídos ao atum ou às natas. “Em agosto de 2019 comecei a vomitar muito quando comia e a sentir-me fraca. Eu sempre fui forte, joguei basquetebol durante 8 anos e era muito saudável, nunca fui magra. A partir desse verão comecei a emagrecer muito: perdi oito quilos até outubro e não sabia por quê“, conta. 

Finalmente, decidiu marcar uma consulta com uma médica gastroenterologia em outubro do ano passado e as análises ao sangue mostraram que os níveis de Ac.Anti.transglutaminase estavam acima de 10, o que quer dizer que há uma alteração da doença celíaca. As análises foram repetidas, mas só depois de uma endoscopia é que a situação foi finalmente confirmada pela médica: “É a única maneira de se detetar a 100 por cento e foram encontradas umas fissuras que eram indicadoras de doença celíaca”, explica.

No final de novembro, recebeu finalmente em casa o exame que confirmou o diagnóstico. “Já conhecia a doença celíaca, mas fiquei em choque. Como é que aos 21 anos vou mudar a minha alimentação completamente e deixar de comer todas as coisas que eu já comia habitualmente? Não aceitei logo, acho que é normal não nos conseguirmos habituar ao início“, explica.

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E quem é que não gosta de brownies quentinhos? Experimentei e adaptei uma receita muito boa! Derreter 120 gr de chocolate de culinária sem glúten juntamente com 170gr de manteiga. Reservar para arrefecer. Entretanto bater os 4 ovos com o 150gr de açúcar amarelo até ficar leve e fofo. Envolver o creme de chocolate arrefecido e depois juntar 60gr de farinha de arroz, 60gr de amêndoas moídas e pepitas de chocolate e 40gr de nozes! Colocar o preparado todo numa assadeira untada quadrada de 20x20cm, pré-aquecer o forno e esperar 30 minutos. Deixar arrefecer um bocadinho, cortar em 9 quadrados e polvilhar com açúcar em pó. Servi os brownies com uma bola de gelado, cobertura de chocolate e morangos! Experimentem esta receita e mandem-me fotografias! 🍫🍦🍓 #emcasasemgluten —————————————————————————- #glutenfreerecipes #glutenfrei #glutenfree #cozinhar #cake #stayhome #schar #schaerglutenfree #glutenfreelifestyle #weloveschaer #glutenfreefood #foodforfoodies #brownie #chocolate

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Por recomendação da médica, tornou-se sócia da Associação Portuguesa de Celíacos (ACP), que ajudou Madalena a marcar uma consulta com uma nutricionista em dezembro, quando começou a mentalizar-se de que todos os seus hábitos teriam de mudar. “Apesar de não ser uma doença perigosa ou horrível , é autoimune e tenho de ter muito cuidado com a minha alimentação para não por a saúde em risco, seja agora ou daqui a alguns anos”, explica à NiT.

“Uma das coisas que mais ficaram marcadas para mim naquela primeira consulta foram: ‘não te enganes, não aches que uma deita sem glúten é uma dieta saudável’. Muitas pessoas pensam isso, mas quase todos os produtos sem glúten compensam a falta desse ingrediente com mais gordura ou mais açúcar”. 

Para evitar cair no erro de comer alimentos pouco saudáveis, Madalena seguiu algumas dicas da nutricionista, que recomendou que passasse a confecionar a sua própria comida, como o pão caseiro. “Foi uma das melhores coisas que esta dieta me deu, ensinar-me a cozinhar. Dá-me um prazer enorme poder fazer o meu pão, já que não adoro os de compra no supermercado, que são muito caros”.

No primeiro impacto, Madalena explica que este alimento foi mesmo aquele de que sentiu mais falta, pois era a opção que mais vezes escolhia para o lanche. Agora, são os iogurtes e a fruta que substituem o pão, que come menos vezes e sempre seguindo receitas caseiras, que faz regularmente.

No entanto, a adaptação mais difícil, explica, é aquela que se faz fora de casa, e as dúvidas da instagrammer prendiam-se todas com as situações em que teria de sair da segurança da sua própria cozinha. “Como é que vou fazer quando for viajar, como é que vou fazer quando for dormir a casa de uma amiga? Porque é que agora não posso ir a uma pastelaria comer um bolo ou ir nos intervalos da faculdade comprar umas batatas fritas, ou lanchar na Padaria Portuguesa?”.

Uma das maiores dicas, revela, é levar sempre consigo os seus próprios snacks. Em janeiro fez uma viagem de 12 dias pela Europa, seguindo-se outra em fevereiro e, em todas as cidades que visitou, sentiu alguma dificuldade com a alimentação, destacando-se Amesterdão, nos Países Baixos, onde a única opção que encontrou ao jantar foi numa cadeia de fast food. “Não sabiam o que era a doença no restaurante onde fui com os meus pais. Tive de ir ao Burger King pedir um hambúrguer sem pão e com uma fatia de queijo em cima e acompanhar com batatas fritas”, recorda.

Uma das principais ferramentas para celíacos, explica, é contactar com antecedência a associação de celíacos de cada cidade para saber onde poderão comprar produtos de supermercado e que cafés ou restaurantes têm comida sem glúten. Além disso, Madalena recomenda levar sempre snacks, como barrinhas, e uma declaração que prova que tem a doença, para que nunca seja proibida nas alfândegas de transportar alimentos.

Depois de mudar de alimentação, a saúde de Madalena levou uma volta completa. “Não tem comparação, sinto-me mais saudável, já não me sinto fraca e já não tenho enxaquecas. Agora que estou a comer de forma mais saudável porque optei que fosse assim, quis escolher alimentos que me fizessem melhor”, explica.

A página de Instagram surgiu depois da entrada do País em estado de emergência. “Uma Madalena Gluten Free” foi criada a pensar “nas pessoas que não podem ter glúten na alimentação. Assim conhecem opções de que gostam e podem comer, como eu gostaria de ter tido quando soube que tinha a doença”. Bolos de chocolate, bolachas com pepitas, esparguete com camarão e folhados de salsicha são algumas das receitas deliciosas e saudáveis que partilha com os já mais de mil seguidores — e que são perfeitas até para quem não sofre da doença.

“Os meus pais sempre me incentivaram muito a criar uma página. A minha mãe dizia-me sempre para tirar uma fotografia às receitas para por no meu blogue, quando eu ainda nem tinha um blogue. À medida que fui cozinhando percebi que gostava muito e que me dava muito prazer. No isolamento comecei a cozinhar muito mais”, começa por contar.

A 24 de março, a ideia foi finalmente lançada e Madalena contou com o apoio dos amigos e da família, com a página a crescer organicamente. Além das receitas, partilha também dicas e conselhos com os seguidores e, em breve, vai partilhar algumas recomendações para os celíacos nas viagens. “A minha vida mudou mesmo completamente, apesar de não ter passado muito tempo sinto que já aprendi imenso e que posso ajudar os outros.

De seguida, carregue na galeria para conhecer 7 receitas sem glúten sugeridas por Madalena Faria, que também pode encontrar na página de Instagram.

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