Alimentação Saudável

Quando “come que nem um abade” nunca consegue recusar a sobremesa? A ciência explica

A vontade de terminar a refeição com um doce parece fazer pouco sentido, mas afinal tem uma justificação.
Há sempre espaço.

“Comer que nem um abade.” A expressão é usada na cultura popular quando queremos dizer que comemos muito. No entanto, o significado real foi distorcido. A tradução mais correta, seria “comer com boas maneiras”. A frase original remete para o reinado de Dona Urraca da Saxónia, que mandou fundar uma escola de etiqueta na abadia de Westminster, em que os professores eram abades. Na época, a formação foi ridicularizada e de “comer como um abade”, rapidamente se transformou, em “estou cheio que nem um abade”.

História à parte. Quantas vezes já repetiu esta frase para justificar o quão cheio estava no final do jantar, mas ainda assim não consegue resistir a uma sobremesa? O desejo, que parece fazer pouco sentido, tem explicação.

“Quando terminámos uma refeição mais calórica, rica em hidratos de absorção rápida como a farinha e o açúcar, podemos ter uma hipoglicemia, consequência de uma liberação excessiva de insulina. Quando isso acontece, o cérebro aciona a necessidade de glicose e vem o desejo do famoso doce”, explica a nutricionista Sónia Marcelo à NiT.

Se o almoço ou o jantar for mais rico em proteína, por exemplo, o fenómeno não tem uma probabilidade tão grande de acontecer. Mas, se ainda assim, tem vontade de comer sobremesa, a especialista e nutrição revela que há outros motivos que podem justificá-la.

“Hábito e restrição”, sublinha a nutricoach. E explica: “Muitos miúdos comem fruta após as refeições. Isto significa que durante muitos anos habituámos-nos a comer algo mais doce ao fim de comer. A memória diz-nos, por isso, que o almoço e o jantar devem ser terminados com alguma coisa diferente e, por norma, com um sabor mais adocicado”, explica Sónia Marcelo.

É como se aquela gulodice fosse o ponto final da refeição. Contudo, não é a única razão. “Quando fazemos planos mais restritivos, por norma acabámos insatisfeitos e surge uma vontade descontrolada de atacar a caixa dos chocolates. Este tipo de alimentos dá-nos prazer e uma sensação de conforto.” Por isso, a nutricionista recorda uma máxima, que ensina aos pacientes: “Quanto mais se restringe a alimentação, maior é a tentação.”

As emoções também têm uma quota-parte da responsabilidade. “Quando estamos mais tristes ou ansiosos, o organismo necessita de algo que lhe dê prazer e aumente a libertação de hormonas relacionadas com o relaxamento e a alegria, como a dopamina.”

O problema é que se cedermos sempre às tentações, acabamos por verificar um aumento de massa gorda, celulite e peso. E os níveis de energia podem “cair a pique”.

Afinal de onde vem a gula?

Esta é daquelas questões que os investigadores têm tentado responder há já vários anos. Um estudo publicado em 2007 concluiu que os ratos preferiam substâncias intensamente doces até mesmo em detrimento da cocaína.

“Especulamos que o potencial de dependência resulta de uma hipersensibilidade inata a estes sabores. Na maioria dos mamíferos, incluindo ratos e seres humanos, os recetores doces evoluíram em ambientes ancestrais pobres em açúcares e, portanto, não estão adaptados a altas concentrações dos mesmos. A estimulação supranormal destes por dietas ricas em açúcares, como as que estão agora amplamente disponíveis nas sociedades modernas, geraria um sinal de recompensa supranormal no cérebro, com o potencial de anular os mecanismos de autocontrolo e, assim, levar à dependência”, explicam nas conclusões da investigação.

Outra razão, apontada por vários cientistas, está relacionada com o uso de intensificadores de sabor. Vivemos numa época em que aditivos são adicionados às listas de ingredientes para tornar os alimentos mais apetecíveis. Desta forma, não só promovem o vício em determinado produto, como também torna a sua produção mais barata, uma vez que bastam apenas quantidades mínimas destas substâncias para obter o tempero equivalente à utilização de dezenas de especiarias, por exemplo.

O truque, no final, não é ignorar a sua vontade, até porque isso só iria gerar uma má relação com a comida e potenciar compulsão alimentar. No entanto, primeiro pode tentar beber um chá ou ir fazer uma atividade de que goste, como caminhar ou ler, para se abstrair.

Continua com vontade de comer algo doce? O segundo passo é respirar fundo e, em vez de atacar um pacote de bolachas ou devorar um croissant, pensar numa alternativa doce, mas saudável.

Uma das sugestões da especialista, que também é autora do blogue “Dicas de Uma Dietista”, são um a dois quadrados de chocolate negro. “Em vez de mastigar o chocolate, coma-o em pequenos pedaços e deixe-o dissolver na boca”, recomenda.

Carregue na galeria para conhecer as cinco propostas doces que pode comer à noite — com moderação, sem culpa e sem comprometer a dieta — recomendadas pela nutricionista Sónia Marcelo.

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