Ginásios e outdoor

A incrível história de Tom Daley, o campeão olímpico que faz tricô nas bancadas

Estreou-se nos Jogos aos 14 anos, numa altura em que era alvo de bullying. Mais tarde, assumiu a homossexualidade num meio onde isso raramente acontece.
Não é algo que se veja todos os dias

O que é que faz um atleta olímpico em Tóquio, já com uma medalha de ouro pendurada no peito? Se esse atleta se chamar Tom Daley, provavelmente aproveitará para assistir a outras provas e, pelo caminho, tricotar qualquer peça de roupa que lhe faça falta.

A imagem do mergulhador britânico de 27 anos a tricotar nas bancadas durante uma prova de mergulho feminina tornou-se viral e tornou (novamente) Daley no centro de todas as atenções. É que além de ser um exímio mergulhador — e apresentador de televisão —, tem no tricô um hobby que leva mesmo muito a sério.

É, porém, um talento recente que aperfeiçoou durante o confinamento, mas do qual se revela “completamente obcecado”. A obsessão foi ao ponto de criar uma página no Instagram para exibir as suas criações, a Made With Love. Foi lá que, ao contrário do que é habitual, cruzou os Olímpicos com o seu hobby, ao mostrar a pequena bolsa de lã que criou para guardar a sua medalha de ouro conquistada na prova de mergulho sincronizado dos 10 metros.

“Queria apenas dizer que a única coisa que manteve a minha sanidade mental durante todo este processo [dos Jogos Olímpicos] foi o meu amor pelo tricô e pelo crochê”, escreveu. Um dos objetivos do projeto passa por sortear as peças e, com o dinheiro das rifas, ajudar algumas instituições de caridade.

Apesar da viralidade da imagem, Daley é um velho conhecido do mundo do desporto e vai já na sua quarta presença nos Jogos, apesar dos 27 anos. Estreou-se em 2008, em Pequim, com apenas 14 anos — e tornou-se no segundo mais jovem a fazê-lo pela equipa da Grã-Bretanha. Mas o percurso não foi nada fácil.

A traição e o bullying

O talento de Daley foi adivinhado por um treinador que o apontou a dedo, depois de assistir a algumas aulas de natação do jovem nascido em Plymouth. Seduzido pelo risco dos mergulhos na prancha, decidiu experimentar. Foi a sua professora que convidou o primeiro treinador de mergulho para ver o seu talento.

“Quando me convidaram para ir vê-lo, ele esteve 15 minutos a chorar atrás de uma coluna, e foi aí que cometi o erro de publicamente revelar que achava que ele nunca seria um mergulhador. Mas, para ser honesto, ainda não o tinha visto na água. Assim que o vi, percebi o seu talento”, explicou o primeiro treinador Andy Banks.

Daí à competição foi um instante, apesar de nunca ter sido essa a intenção do pai, Rob Daley, quando levou os três filhos para as aulas.

A primeira prova oficial aconteceu em 2003, tinha apenas nove anos, e conquistou a sua primeira medalha. No ano seguinte, vencia uma competição nacional de juniores, o mais jovem de sempre a fazê-lo. Parecia destinado a coisas grandes.

Apesar do reconhecido talento, foi com surpresa que, com apenas 13 anos, obteve os resultados que o levaram à equipa olímpica. Inevitavelmente, a conquista trouxe uma avassaladora atenção mediática, mesmo antes de subir à prancha.

Daley lidou com tudo com uma maturidade invulgar. O seu próprio treinador tentou libertá-lo da pressão, ao apontar para os Jogos seguintes como a verdadeira meta. De Pequim, Daley revelou esperar apenas “uma experiência agradável” e “uma boa performance”. As medalhas ficariam para os Jogos de Londres, a lutar em casa e com o apoio do seu público.

O mergulhador britânico acertou em cheio numa previsão — e falhou redondamente outra. Viria a conquistar uma medalha quatro anos depois, mas a viagem a Pequim seria tudo menos simpática.

Maravilhado estava também o pai. “[A qualificação para os Jogos] era um sonho distante. Nunca pensei que o meu rapaz se conseguisse qualificar. Só me apercebi da possibilidade quando ele já estava a competir nos Mundiais de Pequim”, confessou.

Daley nos Jogos de Pequeim com 14 anos

Além de participar na prova de mergulho individual, Daley fez par com Blake Aldride, de 26 anos, seu colega no mergulho sincronizado. A dupla estava longe de ser uma séria candidata às medalhas, mas o oitavo lugar desiludiu os adeptos e os próprios atletas. Mas ninguém ficou tão insatisfeito quanto Aldridge, que no final da prova atirou as culpas do desaire para o colega, o jovem de 14 anos.

“Infelizmente esta prova é uma parceria e ambos têm que estar na sua melhor forma. Eu não estava, mas o Tom não estava nem sequer perto do que poderia ter feito”, explicou Aldridge. “Eu não cometi nenhum erro, por isso posso ir para casa feliz.”

Se até então a atenção mediática sobre Daley era maioritariamente positiva, o atirar de culpas de Aldridge alimentou o frenesim os tabloides. Eventualmente, os Jogos terminaram e o britânico regressou à vida normal, aos treinos e à escola. Só que nada seria igual.

Entre colegas, o bullying começou a tornar-se insuportável. “É muito sério”, revelou o pai de Daley ao “The Guardian”. “Já foi rasteirado e atirado ao chão, atiraram-lhe canetas e lápis. Alguns já ameaçaram partir-lhe as pernas. Chegou o momento de dizer basta.” 

Haveria de confessar que os problemas vinham de trás, mas intensificaram-se depois de se ter tornado famoso nos Jogos Olímpicos. “É triste que não consiga ter uma vida normal na escola. Aguento porque estoua fzer algo de que gosto e porque tenho quatro bons amigos que se sentam comigo e me acompanham”, explicou Daley, que evitava sequer sair das salas durante os intervalos.

“Se um professor vê, diz-lhes para pararem, mas cheguei a um ponto em que já nem quero saber. De qualquer forma, estou imenso tempo fora da escola.”

A sua juventude e talento tornaram-no numa das caras mais conhecidas e queridas da equipa olímpica, que se preparava para um assalto estrondoso nos Jogos de Londres, em 2012. Em casa, queriam ganhar tudo. E o mediatismo fez com que Daley tivesse que crescer em frente às câmaras, com a complicada adolescência a servir de pano de fundo a entrevistas, documentários e reportagens.

Um ano antes da competição, Daley mantinha-se distraído com os duros horários de treino e de aulas. Tão distraído que a família conseguiu esconder-lhe o segredo da doença do pai. A lutar contra um tumor cerebral, o pai de Daley foi obrigado a rapar a cabeça. A Tom, disseram que fazia parte de uma ação de solidariedade.

O cancro haveria de vencer e Rob Daley morreu aos 40 anos. Tom tinha apenas 17 e, a um ano da sua grande competição, tudo se complicava. Sobretudo depois de perder o pai que largara tudo para o ajudar na carreira.

“Uma das últimas coisas que me disse foi: ‘Já temos os nossos bilhetes?’. Pensei, bilhetes para quê? ‘Os bilhetes para os Jogos de Londres, porque quero estar logo na primeira fila.”

Tom e o pai, Rob

“Acabaria por perceber que ele não era invencível, que não iria estar ao meu lado para me ensinar a conduzir, para encher a minha primeira pint ou sequer para me ver a ganhar uma medalha olímpica. Estava assustado, cheguei a ponderar não mergulhar mais.”

A verdade é que, um ano depois, conquistava a tão desejada medalha, um bronze que soube a ouro. Depois de um quarto lugar na final de mergulho sincronizado, desta vez com outro parceiro, Daley brilhou na competição individual.

Apesar da alegria, a morte do pai e as pressões do treino e do mediatismo levaram-no a sofrer de stress pós-traumático. “A minha reação imediata foi que não queria voltar à prancha. Tremia só de pensar que podia voltar e perder tudo à frente de 18 mil pessoas. Perdi motivação, pensei em desistir, em não voltar aos Jogos, queria ser um adolescente normal.”

Felizmente, isso não aconteceu. E não só continuou a treinar como se tornou numa estrela televisiva, ao surgir como um dos mentores no “Splash”, um programa de mergulho com celebridades.

A confissão inesperada

Daley já estava há tanto tempo na ribalta que poucos se recordavam que era apenas um miúdo de 19 anos. Foi com alguma surpresa que o mundo reagiu ao vídeo gravado no sofá de casa de forma espontânea e que Daley publicou no YouTube.

“Conheci alguém e esse alguém é um homem”, confessou sobre a sua sexualidade, que começava a ser tema de debate nos tabloides. Num movimento de antecipação, retirou-lhes os trunfos e revelou tudo na primeira pessoa. O homem de que Tom falava era Dustin Lance Black, argumentista e ativista pelos direitos dos homossexuais, 20 anos mais velho.

“Enquanto cresci, o mais complicado foram os pensamentos e sentimentos contraditórios, e tudo isso acontecia com a minha vida exposta ao público”, confessou. “Descobrires a tua sexualidade é difícil por si só, muito menos quando tens que o fazer debaixo de tanto escrutínio.”

“Conhecer o Lance e revelar tudo em 2013 mudou a minha vida. Permitiu-me parar de me preocupar, deixar de ter medo e ser eu próprio”, concluiu.

Apesar do medo, Daley voltou ao palco olímpico em 2016. No Rio de Janeiro, uma atuação desastrosa impediu-o de disputar a final, mas voltaria a chegar às medalhas no mergulho sincronizado: outro bronze.

Dois anos depois, concretizou um sonho antigo. Daley e Lance tornaram-se pais de de uma criança através de uma barriga de aluguer. Chamaram-lhe Robert, em homenagem ao pai de Tom.

Com apenas 27 anos e na quarta presença nuns Jogos Olímpicos, este pode ser mesmo o ano de Daley. Numa final dramática do mergulho sincronizado, conquistou a primeira medalha de ouro ao lado de Matty Lee. E prepara-se para competir na prova individual onde, se tudo correr bem, poderá mesmo conquistar a consagração total como um dos melhores talentos da sua geração.

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