Ginásios e outdoor

Ainda se lembra da Power Balance, a “milagrosa” pulseira do equilíbrio?

A história do estranho e bizarro sucesso da “pulseira milagre” que tinha efeito sobre o equilíbrio.
Uma moda que não veio para ficar.

Desde o início que a coisa parecia ser de desconfiar. Mas entre argumentos pseudocientíficos e uma campanha de publicidade impressionante, a moda virou mesmo um sucesso à escala planetária. Tão depressa quanto subiu, porém, haveria de cair.

Foi em 2007 que a Power Balance começou a fabricar as pulseiras de silicone que se tornariam um caso de sucesso. Em 2008 já começavam a ganhar atenção no mundo desportivo. Era uma estranha combinação de crença new age. O jornalista Daren Rovell chegou a descrevê-las na altura como uma espécie de cristais curativos para desportos.

As Power Balance não tinham grande suporte científico mas vinham com uma propaganda que polia o produto, dando-lhe o tal toque de novidade tecnológica. Escrevia-se na altura que tinha sido “desenvolvida por um cientista da NASA”.

Como funcionava? Com uma daquelas descrições que não parece significar nada mas soava bem. Tudo consistia “num holograma quântico feito a uma frequência que entra em contacto com o campo energético do nosso corpo”. O resultado? “Aumentava a eficiência dos sistemas físicos e orgânicos do corpo”, contribuindo para uma melhoria do equilíbrio. Supostamente, claro.

Em 2010, a moda andava entre Hollywood e grandes nomes do desporto. Cristiano Ronaldo e Neymar terão sido vistos com ela. O então piloto da Fórmula 1 Rubens Barrichello idem. Shaquile O’neal e Kobe Bryant, dupla dourada dos LA Lakers da NBA, também.

Não que o placebo conte mas, a título de curiosidade, os Lakers foram campeões em 2008, 2009 e 2010, ainda a Power Balance estava em ascensão. No ano em que o produto começou a ter problemas foi o último que venceram. Foi preciso esperar mais 10 anos, já com outra dupla de sonho, LeBron James e Anthony Davis, para voltarem a ser campeões da NBA. Foi em 2020. Já Cristiano Ronaldo ainda anda aí aos 36 anos a bater recordes. Sem pulseiras à mistura.

A famosa pulseira.

Um caso de sucesso

Entre convertidos e curiosos, o sucesso estava garantido. A Power Balance abriu caminho a um novo e específico nicho. Havia simples cópias mas também quem quisesse apostar neste novo mercado. Afinal de contas, havia clientela.

Num tempo em que se fala como nunca do risco da proliferação de informação com pouca ou nenhuma base científica (para não dizer falsidades puras, como vemos tantas vezes com a Covid-19), a história da Power Balance é também um lembrete para fenómenos de hoje em dia nas redes sociais, que afinal não são assim tão novos.

Na altura, em 2010, chegou a ser eleito o produto desportivo do ano. As vendas disparavam para as dezenas de milhões de euros. Um pouco por todo o mundo havia quem estivesse disposto a pagar 30 a 40€ por uma pulseira milagre que dava equilíbrio.

Um passeio virtual pelo YouTube mostra-nos ainda compilações de então de gente a testar a power balance. Alguns são simples exercícios cómicos que não teriam validade em lado algum. Mas encontramos lá recém-convertidos: “I’m a believer”.

Foi também em 2010 que as coisas começaram a mudar. E rapidamente. É possível que alguns leitores tenham até tido amigos que na altura compraram uma e garantiam os efeitos. O que vários estudos começaram a provar é que, se havia tal melhoria no equilíbrio, tal não passava de efeito placebo. Podia parecer, mas na verdade não era.

Foi também naquele ano que começaram os problemas. O regulador australiano proibiu a empresa sediada na Califórnia de promover o produto no país como se tivesse benefícios para o organismo. A empresa defendeu-se dizendo que nunca prometera nada justificado pela ciência.
Adensavam-se as suspeitas e os problemas. A moda foi perdendo força, a empresa chegou a ser alvo de um processo milionário nos EUA, movido por consumidores, e acabaria por assumir publicamente que nada do tal efeito no corpo de quem a usava era verdade.

Em 2011, a Power Balance avançou com um pedido de falência mas com a garantia de que não iriam desaparecer. É verdade, não desaparecerem. Hoje em dia ainda vendem pulseiras, pendentes de silicone e protetores bucais. Os preços não são tão caros como chegaram a ser as Power Balance milagrosas mas ainda aí estão, sem o jargão pseudocientífico de antes. No site da marca há produtos apresentados mais como “sport friendly” do que outra coisa qualquer (que é o mesmo que dizer: pode-se usar a fazer desporto; daí a ser-se melhor a fazer desporto já é outra história).

Por cá, uma pesquisa online permite ver que ainda à venda mas mais em plataformas com produtos usados, como a OLX. Quem quiser uma agora consegue por 5€. O design é o mesmo, não há é a tal “revolucionária” pelo cientista da NASA que nunca se percebeu muito bem quem era. O mundo da saúde e do fitness têm as suas modas que são mesmo boas é quando se perdem — afinal de contas é dinheiro que se poupa.

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