Ginásios e outdoor

Após fuga desesperada aos talibãs, atleta e ativista afegã tem nova vida em Espanha

A capitã da seleção paralímpica de basquetebol afegã está a recomeçar a sua nova vida.
Nilofar Bayat tem 28 anos.

O caminho do medo à esperança por vezes começa com um tweet. Um tweet como este: “a minha amiga Nilofar escreve-me desesperada de Cabul. ‘Os talibã estão a entrar em Cabul. Temos muito medo. A minha vida acabou, Antonio. Não posso ficar aqui”.

O tweet é de Antonio Pampliega, jornalista espanhol e foi publicado no domingo, 15 de agosto, dia em que os talibã, após uma ofensiva imparável, conquistaram praticamente todo o país. Foi o dia em que chegaram à capital, abrindo caminho às imagens que temos visto nos últimos dias, de milhares de pessoas desesperadas para entrar no aeroporto da cidade e fugir.

Com a comunidade internacional surpreendida, e 20 anos após o início de um conflito que terminaria com o regime ultra-conservador, os talibã regressavam. Duas décadas depois, por entre a violência e pobreza, muitas mulheres tinham encontrado um peso novo na sociedade. Apesar das dificuldades, muitas puderam estudar e ter uma vida em que não eram obrigadas a usar burca e podiam sair à rua sozinhas.

Era este o dia a dia entre 1996 e 2001, quando os talibã governavam. Era difícil para qualquer pessoa, mas ainda para mais para alguém como Nilofar Bayat, de 28 anos. “Ser mulher no Afeganistão e ter uma deficiência física é como se fosse uma dupla maldição”. As palavras de Nilofar em 2019 ao “The Guardian” tiveram o seu quê de profético.

Antes da chegada dos talibã a Cabul, Nilofar fazia a sua vida: estudava direito, chegou a trabalhar com o Comité Internacional da Cruz Vermelha e era a capitã da equipa feminina paralímpica de basquetebol do Afeganistão, uma equipa que só começou a competir em 2017 e que tinha nesta mulher a sua principal porta-voz.

Nilofar era também um exemplo devida, uma mensagem de esperança para outras raparigas, em particular que sofriam com alguma dificuldade física, para terem uma vida normal. Com a chegada dos talibã, temeu o pior.

Bayat era ainda uma criança quando a casa de sua família em Cabul foi atingida por um rocket durante o regime dos talibã. O seu irmão morreu e Bayat passou um ano no hospital após estilhaços a terem atingido nas costas, causando queimaduras e lesões na sua medula espinal. Apesar das dificuldades, os anos após o fim do regime permitiram-lhe estudar. Um dia, após uma única partida, apaixonou-se pelo basquetebol.

“Havia tantos vídeos de mim a jogar basquetebol. Tinha sido tão ativa na defesa dos direitos das mulheres, em particular das mulheres com deficiências. Se os talibã descobrissem tudo isto sobre mim, sei que me iam matar”, conta agora ao “The Guardian”. O tal tweet fez a diferença.

Com a ajuda de jornalistas, da federação espanhola de basquetebol e de outras entidades, e com o apoio de muitos espanhóis que acompanhavam no Twitter de Antonio Pampliega a sua história, a atleta e o marido, Ramesh, conseguiram ser incluídos no segundo voo de resgate que Espanha fez.

À sua espera tinham nova vida e o convite para ambos integrarem as respetivas equipas do Bidaideak Bilbao BSR, clube de basquetebol com equipa feminina e masculina de cadeira de rodas.

Na sexta-feira, 20 de agosto, aterravam em Espanha já com novo destino na agenda: Bilbao. Tinham as mesmas roupas há cinco dias, praticamente nenhuns pertences, após terem sido impedidos pelos extremistas de levarem as suas bagagens. É o final feliz possível.

A espera para entrar no aeroporto demorou nove horas. Por perto os talibã disparavam para o ar e as condições eram cada vez mais difíceis. “Um caos”, recorda, ainda para mais numa altura em que já havia relato de talibã a irem porta à porta em Cabul à procura de pessoas.

Nilofar e o marido estão entre os poucos milhares de pessoas que abandonaram o Afeganistão na última semana. “De um momento para o outro perdemos tudo”. Estão agora a milhares de quilómetros do caos mas ainda de coração nas mãos. “Salvámos as nossas vidas mas onde estão os nossos familiares? Estamos nervosos e preocupados por eles”.

Apesar de algumas promessas de porta-vozes dos talibã, que asseguram que o regime não será tão severo como há 20 anos, o impacto já se faz sentir. No desporto, o país devia estar representado por dois atletas nos Jogos Paralímpicos em Tóquio. Hossain Rasouli e Zakia Khudadadi iam ambos no taekwondo, sendo que Zakia iria tornar-se a primeira mulher afegã a participar nos Paralímpicos. É mais um sonho adiado.

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