Ginásios e outdoor

Do cancro à primeira medalha olímpica: a vida dura do novo campeão português

Jorge Fonseca lutou por uma nova vida em Portugal, pelo filho e pela vida. Acaba de vencer a primeira medalha nos Jogos, para si e para o País.
É o nosso campeão

Jorge Fonseca entrou com tudo. No seu primeiro combate, dos seus primeiros Jogos, no Brasil, em 216, o judoca “arrumou” com o adversário em nove segundos. Seguiam-se as eliminatórias. Com elas, veio um gigante checo – a categoria é de -100 Kg -, ex-campeão do mundo, Lukas Prkalek.

“Quando faltava um minuto para acabar o combate comecei a sentir um bocado de cansaço, porque ele, por estar a perder, começou a vir para cima. E acabei por perder daquele jeito”, explicou na altura. Haveria de voltar a chorar, mas desta vez de alegria, cinco anos depois, desta vez nos mundiais de judo em Tóquio, ainda este ano.

A alegria era redobrada. Cinco anos depois do desaire, Fonseca não se sagrava apenas campeão mundial, mas bicampeão. No momento de ouvir o hino, já de ouro ao peito, o judoca que nasceu em São Tomé e Príncipe — e que cresceu na Damaia — não conteve a emoção.

Aos 28 anos, a maior vitória estava para chegar. Na manhã desta quinta-feira, 29 de julho, Fonseca transformou a desilusão da derrota no combate que dava acesso à final em festejos pela primeira medalha de Portugal nos Jogos de Tóquio. A sua primeira medalha olímpica.

“Trabalhei para o ouro, consegui o bronze. Não correu como queria, agora é trabalhar para conquistar o ouro em Paris. Trabalho para o ouro, não para o bronze, vou continuar a trabalhar porque quero ser o melhor do desporto nacional”, explicou imediatamente após o combate.

A medalha é a terceira distinção olímpica do judo nacional, depois das vitórias de Nuno Delgado, em 2000, e de Telma Monteiro em 2000 e 2016. A de ouro continua a escapar.

Nenhuma ida aos Olímpicos é um passeio, mas o percurso de Jorge Fonseca está repleto de obstáculos e dificuldades que o judoca ultrapassou, sempre com um sorriso na cara — e uma pequena dança de festejo.

Uma vida difícil

Tinha apenas 11 anos quando chegou a Portugal. No país de origem deixou o pai, pescador de profissão, e os três irmãos mais velhos. “A minha mãe conseguiu o visto só para mim porque eu era o mais novo e vinha para estudar”, contava em 2019 ao “Expresso”

Como muitos imigrantes, o destino da mãe de Fonseca levou-a aos bairros problemáticos. Da Cova da Moura, onde se instalou, saiu para dar ao filho melhores condições. “Depois tive a sorte de quando cheguei ter um bom padrasto que fez-me enquadrar bem com a sociedade e perceber que há outra realidade”, recordava.

Viveu parte da infância e da adolescência na Damaia, onde percebeu rapidamente que não tinha pés para acompanhar os colegas nas partidas de futebol. Descobriu o talento num desporto pouco comum, o judo.

Além da difícil adaptação, tinha também problemas na fala, que resolveu com a ajuda de um terapeuta, apesar de mais tarde ter perdido esse apoio. “A minha mãe não tinha condições para manter”, nota.

Foi com o seu atual treinador que começou a apaixonar-se pela modalidade. Pedro Santos dava aulas na sua escola e Fonseca ficou curioso. Espreitava as aulas, replicava os movimentos, até que se decidiu.

“Pedi autorização à minha mãe e fui experimentar (…) Eu era um bocado gordinho. Comecei a investir no trabalho do meu corpo para ser um grande judoca”, contou em 2017 ao “Observador”. A prática do judo ajudou também a acalmar alguma rebeldia natural. “Conheci outro tipo de realidade. Era muito rebelde, agitador.”

Fonseca sagrou-se bicampeão mundial este ano

A evolução era impressionante e acabaria por deixar a escola no 10.º ano para se dedicar ao desporto — ele que acabaria por terminar o 12.º ano mais tarde.

Como qualquer desporto de competição, a dedicação tem que ser total, isto se o atleta quiser fazer parte da elite. E foi então que surgiu o primeiro obstáculo: foi pai com apenas 17 anos. “Eu vivia com a minha mãe, como é que ia dizer à minha mãe que engravidei uma miúda?”

O emprego da mãe já mal chegava para sustentar a família. E Fonseca confessava que era uma pessoa que “não dava grande valor às coisas”. A paternidade mudou-lhe a vida. Teve que arranjar um emprego num bar a arrumar copos. A responsabilidade fê-lo amadurecer.

“Tinha um filho, tinha de dar de comer, tinha de levar à escola… Ele dependia de mim e a minha mãe não queria que fosse um pai qualquer, queria que fosse um exemplo. Fiz-me homem. Quando entrei no projeto olímpico e como recebia também do Sporting, passei a dedicar-me apenas ao judo. Esse é o meu trabalho. Mas pelo meu filho, faria o que fosse preciso”, contava ao “Observador”.

Entre os treinos, as competições, o trabalho e o filho, Jorge Fonseca cresceu. O sucesso, o maior até então, chegou no Campeonato da Europa de Sub-23, em 2013, onde venceu a medalha de ouro. Não era a primeira, mas era a mais importante.

Ser atleta profissional, viajar de país em país, também o ajudou a crescer. “Começar a viajar pela Europa em competição foi um choque tremendo para mim, porque não tinha noção de nada daquilo (…) Era um miúdo de São Tomé, que vivia na Damaia, e de repente andava na Rússia, na Bulgária, ainda por cima a falar mal inglês. Com o tempo aprendi a gostar desta vida, a conhecer as cidades onde estava nos tempos livres a aprender outras culturas, outros hábitos.”

O cancro

Dois anos depois, a carreira parecia destinada a grandes conquistas. O objetivo seguinte eram os Jogos Europeus de 2015, em Baku. Durante os treinos, os colegas brincavam com ele por ter um pequeno inchaço na virilha. “Oh Jorge, tu tens três bolas”, diziam-lhe. Nunca ligou.

A verdade é que, durante a competição, sentiu-se cada vez mais fraco, as cãibras não davam tréguas e o fisioterapeuta acabou por forçá-lo a ser visto por um médico.

O diagnóstico foi conclusivo: o judoca sofria de um osteossarcoma, um tumor ósseo maligno. Não havia muito a dizer. Ele e o treinador partilharam lágrimas. Mas o momento que aliviou tudo veio do médico, Manuel Pasarinho.

“Toda a gente estava triste, eu e o Pedro chorávamos e ele veio de lá e disse: ‘Ouve lá ó preto, tu vais superar essa doença e tu vais ser o maior. Já te arranjei os melhores médicos, não te preocupes, daqui as seis meses tu vais estar bem’“, recordou ao “Expresso”. E assim foi.

Antes de melhorar, piorou. Enfrentou as sempre difíceis sessões de quimioterapia que deveriam ter durado seis meses, mas fez apenas quatro, tudo para ter tempo para se preparar para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

“Eu perguntava porquê eu. Mas descobri a resposta através das pessoas que ia vendo nos tratamentos de quimioterapia, as pessoas mais idosas que me transmitiam outra imagem e visão das coisas (…) Eles ali a tentar sobreviver e ao mesmo tempo a tentar dar-me força e mostrar que eu também vou sobreviver. Houve alguns que faleceram pelo caminho e aí eu ia um pouco abaixo.”

As competições não esperavam por ninguém e Fonseca estava a trabalhar em contrarrelógio. “Cheguei a ir treinar doente. Na altura dos tratamentos ficava arrasado, mas quando estava com o meu filho ganhava força.”

Venceu o cancro, fez as malas e viajou para o Rio de Janeiro. A derrota logo ao segundo combate pesou. “Sei que dei tudo mas faltava dar um bocado mais ainda”, havia de explicar um ano depois do desaire. “Senti que devia ter dado ainda mais na minha preparação. Fui ao limite mas foi um limite onde acho que podia ter ido ainda um pouco mais além (…) Faltava qualquer coisa, hoje admito isso. Não quero voltar a viver aquele momento de frustração que tive no Rio, não pode ser.”

Em 2019 arrancava a melhor fase da sua carreira. Nesse ano foi prata nos Jogos Europeus e ouro no Mundial de Tóquio, o primeiro título mundial, obtido na categoria de -100kg. Seria terceiro classificado no Campeonato Europeu de Judo de 2020, em Praga, antes de, ainda este ano, conquistar novo outro no Mundial de Budapeste.

“No cancro ou em qualquer doença, temos de continuar a lutar pelos nossos objetivos, somos fonte de inspiração, todos devemos lutar para sermos capazes, é o que eu faço, mostrar que sou capaz de chegar ao meu objetivo. Superei o cancro, sou campeão do Mundo e agora, a partir de amanhã, vou trabalhar para ser campeão olímpico”, afirmava em 2019. Ainda não foi desta, mas já nessa altura Fonseca vaticinava o novo objetivo. “Pode ser em Tóquio 2020”, disse, e completou: “e pode ser em Paris 2024”. A luta continua em França.

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