Ginásios e outdoor

Carolina Patrocínio: “O que me levou ao topo não foram as pernas, foi a cabeça”

Demorou quatro dias a chegar ao cume do Kilimanjaro e dois a descer. Agora contou à NiT todos os detalhes da aventura.
A viagem demorou seis dias.

Carolina Patrocínio subiu 5.895 metros, até chegar ao cume do Monte Kilimanjaro, um vulcão adormecido na Tanzânia. Esta é a montanha mais alta de África, e uma das maiores do mundo, o que fez com que a viagem se tornasse um dos maiores desafios da sua vida.

“Esta aventura já era para ter acontecido antes, mas só agora é que se reuniram as condições necessárias para a poder concretizar. Ou havia bebés, ou muito trabalho, uma agenda preenchida, nunca conseguia organizar-me, mas decidi que deste ano não podia passar”, começa por contar à NiT.

A apresentadora de televisão saiu de Portugal a 7 de junho e começou a caminhar no dia seguinte, mas não foi sozinha. Viajou com um grupo coordenado pelo seu tio e padrinho, João Almeida. As 30 pessoas que participaram no desafio foram todas selecionadas por ele, que organiza expedições ao Kilimanjaro há mais de dez anos.

“Ele tem uma paixão muito grande por aquela montanha, a ligação que sente é inexplicável. Eu fui praticamente a última da nossa família a fazer a subida com ele. Três das minhas irmãs já foram, a minha mãe também. Portanto, desta vez agarrei numa amiga e juntámo-nos ao grupo. Apesar de não conhecermos ninguém, eram pessoas da confiança dele.”

Os treinos em grupo começaram dois meses antes da partida. Encontravam-se em zonas de Lisboa e treinavam juntos: subiam escadas por toda a capital, faziam corridas e exercícios cardio.

“Pode parecer estranho, uma vez que lá o passo é muito lento, mas é preciso muita caixa torácica para conseguir aguentar a altitude. Diria que a subida final tem uma inclinação parecida com as que encontramos no nosso dia a dia e nos tiram o fôlego só de olhar —, mas são dez vezes piores. Os últimos 200 metros demoram cerca de duas horas e meia a serem alcançados.”

A demora justifica-se pela forma como se sobe, “sempre aos S’s”, uma vez que não se pode andar a direito para evitar escorregar e cair para trás. “Temos de dar passos muito curtos e escolher a pedra mais próxima onde podemos apoiar o pé.”

Ainda assim, para Carolina, este foi mais do que um desafio físico — foi sobretudo emocional. “Claro que se estamos bem preparados fisicamente, isso é positivo, porque ajuda a reduzir o nível de cansaço e fadiga. Mas o que me levou ao topo não foram as pernas, foi a mente. É uma grande demonstração de resiliência e superação, porque a viagem é feita em condições muito específicas.”

Durante a subida e descida da Rota Rongai, a apresentadora caminhou em média sete horas por dia, levando um total de quatro dias para alcançar o cume e dois dias para descer. Ao longo do percurso, não se cruzaram com outras pessoas, apenas avistaram um grupo no dia em que atingiram o topo.

“Dizem que é um dos percursos mais bonitos, conhecido por ser isolado e pela paisagem singular que vai mudando. É realmente incrível. Quando começámos, era tudo muito verde, com floresta, víamos macacos e vida. Quando se começa a subir, o cenário torna-se mais lunar e agreste. Vemos mais pedras, rochas e gravilha. Depois no topo, vimos muita neve.”

À medida que a vista vai mudando, a dificuldade do percurso também se altera. Torna-se mais exigente a cada dia, e há até quem tenha mais dificuldade na descida do que na subida (não foi o seu caso).

“Existem vários fatores que tornam tudo mais difícil. As condições meteorológicas mantiveram-se sempre em torno dos 17 e 20 graus negativos, o que resultava em noites terríveis. Dormíamos nas tendas montadas pelos guias, num acampamento móvel que seguia à nossa frente, chegando aproximadamente uma hora antes para preparar tudo.”

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Carolina Patrocínio (@carolinapatrocinio)

Relativamente à alimentação, era muito racionado. Toda a comida foi levada no primeiro dia pelos guias (cerca de 60, no total), e por isso estava contada para durar toda a viagem. Entre as opções havia muitos legumes, proteína, e ao final do quarto dia começaram a aparecer as sobras dos restantes. “Deu para safar, tendo em conta a situação, obviamente. Nós também levámos várias barras e snacks que trocámos entre nós.”

O momento da chegada foi o mais marcante para a apresentadora. Houve muito choro, emoção e adrenalina entre todos. “Foi quase como levar com um balde de humildade. Para mim esta foi a etapa mais dura, a de atacar o topo.”

Neste dia, já se encontravam a uma altitude tão elevada que não conseguiam dormir, por isso, caminharam das 8 horas da manhã até às 14 horas, e almoçaram, como habitualmente. À meia-noite partiram novamente, em direção ao pico, e caminharam durante a madrugada, chegando por volta das oito horas da manhã seguinte.

“Não há descanso, é uma direta com muito esforço físico em cima. Fiquei muito enjoada, com dor de cabeça e maldisposta. Um simples gesto como tirar a água da mochila era dificílimo.”

Também apanharam condições meteorológicas adversas que chegaram a meter em causa o final da subida. Não havia chuva, mas a neve e gelo dificultaram o percurso. “O vento foi o mais incomodativo, é muito desmotivador querermos avançar e parecer que não somos capazes. Mas tivemos sorte, porque há medida que fomos ganhando mais altura foi diminuindo.”

Ainda assim, foi o espírito de união que tornou tudo mais fácil, na opinião de Carolina. “Desde o primeiro dia que aterramos no aeroporto de lá que fomos todos iguais e estávamos nas mesmas condições. Diria quase que houve aquele espírito militar.”

Aliás, a experiência começa logo quando se chega e já se dorme naquele País. “Deram-nos um saco que podia levar no máximo 14 quilos, e lá dentro tinha de caber tudo o que era necessário. Na verdade, é o indispensável, porque não dá para mais que isso. A higiene é feita apenas com toalhitas, não há banhos nem trocas de roupa, é um estilo de vida muito diferente.”

Depois essas malas são carregadas pelos guias e cada pessoa só leva uma mochila própria onde está a água diária, as camadas de roupa que se vão acrescentando ao longo do dia, protetor, óculos, pano para colocar na cara, devido ao pó e algumas barras.

Durante a maior parte da caminhada, todos seguiam em silêncio. O oxigénio era cada vez mais escasso e, por isso, precisavam de o poupar, não podendo gastar mais energia a falar.

“Isto levou-me a perceber que se tornou um percurso de muita reflexão interior. Por vezes, estamos sobrecarregados com compromissos e trabalho, mas estar ali na montanha mostra-nos o quão pequenos e insignificantes somos ao lado dela. Esta é a grande lição que trago, a relativização: nós precisamos de pouco na nossa vida diária. É apenas colocar um pé à frente do outro e andar.”

A subida acabou por mudar a vida da apresentadora, pois descobriu que consegue aguentar mais do que imaginava. “Assim como eu, havia pessoas que a dez horas do final diziam que não conseguiam dar mais um passo e terminaram. É tudo uma questão de atitude. A maior dificuldade, para mim, foi mesmo a imprevisibilidade de como vamos lidar com a altitude. Não depende de nós nem da nossa preparação física, simplesmente não estamos habituados àquelas condições e há muitos sintomas que nos podem afetar”, conclui a apresentadora.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Carolina Patrocínio (@carolinapatrocinio)

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT