Ginásios e outdoor

Chamaram-lhe “gordinho”. Ele mostrou do que é feito um atleta olímpico

Impedido de treinar com a equipa da faculdade e gozado pelo físico pouco atlético, Shawn tem um currículo com vários mundiais e dois Jogos Olímpicos.
É um exemplo para todos

Sem competidores portugueses, as rondas preliminares dos 50 metros livres da natação passaram despercebidas na televisão. Porém, em Espanha, a transmissão mostrou tudo e um pequeno momento durante a segunda ronda provocou uma polémica nesse país.

Quando a câmara percorreu o elenco de nadadores, deteve-se por alguns segundos em Shawn Dingilius-Wallace, o atleta das ilhas Palau, no oceano Pacífico. Entre risos abafados, os comentadores espanhóis lá desbafaram: “Bem, são estes os competidores…”

A reação não passou despercebida aos telespectadores, que inundaram de críticas a RTVE. O motivo era óbvio: Dingilius-Wallace está longe de ter o perfil habitual de um nadador olímpico, o que não o impediu de chegar à mais ambicionada competição desportiva do mundo.

Apesar de não carregar bíceps volumosos e abdominais definidos, o nadador de 27 anos completou com sucesso os mínimos olímpicos e conquistou, por direito próprio, um lugar entre os melhores. Na famosa imagem que se tornou viral, surge ao lado de um musculado Fahim Anwari, nadador afegão.

E se havia que colocar todo o preconceito na gaveta, Dingilius-Wallace fez questão de tratar do assunto: bateu o colega do lado com o corpo olímpico com 50 metros percorridos em 27.46 segundos, menos 21 décimas. O tempo não foi suficiente para o qualificar para a ronda seguinte da competição, que viria a ser ganha por Caeleb Dressel com uns fantásticos 21.07 segundos.

Entre a imensidão de atletas presentes nos Jogos Olímpicos, apenas um punhado de nomes são realisticamente candidatos às medalhas. Todos os outros, a sua maioria, sentem-se apenas felizes e orgulhosos por poderem competir ao mais alto nível — e ser um atleta olímpico é, por si só, um feito com o qual muitos de nós só poderemos sonhar.

Nascido em 1994, na pequena ilha com 17 mil habitantes, Dingilius-Wallace mudou-se para Houston, no Texas, com apenas seis anos. Foi nos Estados Unidos que começou a treinar. “Sempre gostei de nadar. A minha mãe sempre me disse que se quisesse competir, devia fazê-lo”, recorda no perfil olímpico.

Aos 27 anos, estes nem sequer são os seus primeiros olímpicos. Esteve também presente nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, onde também não foi capaz de avançar para as meias-finais, apesar de ter conquistado um tempo ainda melhor que o de Tóquio, com 27.78 segundos, na categoria dos 50 metros livres.

É, de longe, o melhor nadador da nação — pela qual compete desde 2011 — que insiste em representar, detentor da maioria dos recordes nacionais. Os seus heróis? Michael Phelps e Usain Bolt.

Com 1.84 metros de altura e 93 quilos, esteve também presente nos Mundiais de 2011, 2013, 2015 e 2017. Foi neste último onde voltou a dar nas vistas pelo perfil físico radicalmente diferente dos outros competidores. E também nesse ano viu o norte-americano Caeleb Dressel, tal como em Tóquio, vencer a competição. Fez menos 12 segundos do que o vencedor, mas isso nunca foi um problema.

“Sou um privilegiado por poder estar aqui e bater o meu recorde pessoal é muito especial. Nem toda a gente tem a oportunidade de estar numa competição como esta”, revelou em 2017 ao “The Straits Times”. Voltaria a competir nos Mundiais de 2019, na Coreia do Sul.

Ninguém lhe diz o que pode ou não fazer

Apesar de ser um nadador talentoso e dedicado, foi-lhe recusada a possibilidade de integrar a equipa de natação da sua própria universidade, a Missouri University of Science and Technology. Sem acesso aos treinadores e métodos de treino, faz tudo por sua conta na piscina local: seis treinos diários de duas horas cada.

“Não é nenhum problema. Não estou a competir contra eles mas contra mim próprio e, honestamente, a maioria das pessoas tem apoiado a minha carreira na natação. Tenho ignorado todos os comentários negativos.”

Naqueles que provavelmente serão os seus últimos Jogos, Wallace deixa uma mensagem importante no perfil olímpico: “Trabalho (work) é uma palavra de quatro letras. Não tenhas medo dela. Nunca serás capaz de atingir os teus objetivos se tiveres medo de trabalhar.”

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