Ginásios e outdoor

Como este gigante iraniano bateu a doença e se tornou num super atleta paralímpico

Morteza Mehrzad tem 2,46 metros e foi encontrado por acaso pelo treinador. Brilhou no Rio de Janeiro e quer fazer história em Tóquio.
É uma arma pouco secreta

Quando começou a aquecer, a multidão nas bancadas do pavilhão no Rio de Janeiro foi à loucura. Na derradeira final de voleibol sentado nos Jogos Paralímpicos de 2016, Morteza Mehrzadselakjani foi a grande figura. Melhor pontuador da competição, levou o Irão a uma vitória olímpica. E o adjetivo grande não é aqui usado de forma leviana: o atleta tem 2,46 metros de altura.

Essa foi a primeira grande competição do iraniano que, até então, vivia numa espécie de clausura auto-imposta na pequena cidade de Chalus. A sua altura ímpar — é o homem mais alto do seu país e há apenas registadas mais 14 pessoas que o superam em todo o mundo — é simultaneamente uma bênção e uma maldição.

Conhecido como Mehrzad, o iraniano sofre de acromegalia, uma condição rara que afeta as hormonas de crescimento. Aos 15, partiu a pélvis num acidente de bicicleta, o que estancou o crescimento da perna direita. No ano seguinte já contava com 1,88 metros de altura, mas uma diferença de 15 centímetros entre as pernas, o que o obrigava a usar muletas e, por vezes, a deslocar-se de cadeira de rodas.

O crescimento anormal não era o seu único prolbema. Além o maior risco de doenças cardiovasculares, a condição afetou a estrutura óssea da face. Traumatizado e envergonhado, raramente saía de casa.

“Estava só, deprimido. Mas a minha vida mudou depois de ter começado a jogar voleibol sentado e ter-me tornado paralímpico”, revelou à televisão iraniana. A chegada ao estatuto de herói aconteceu por um acaso.

Mehrzad foi figura central de uma reportagem. Em casa, do outro lado do ecrã, estava o treinador da seleção paralímpica, Hadi Rezaei que, ao ver a sua altura impressionante, pensou que talvez estivesse ali a sua arma secreta. “Pensei que podia usá-lo na minha equipa”, confessou Rezaei durante os Paralímpicos de 2016.

Mesmo sentado, o braço atinge mais de 1,80 metros de altura

Depois de uma chamada para o canal que transmitiu a reportagem, o treinador obteve a morada do iraniano e viajou até lá para o convencer a juntar-se à equipa. Este não era um convite qualquer: a seleção iraniana de voleibol sentado é uma potência da modalidade, com cinco medalhas de ouro e duas de prata nas últimas competições.

“Demos-lhe esperança, era isso que ele procurava. Antes de se tornar famoso, quando saía de casa, ele dizia que toda a gente olhava para ele com uma cara estranha. Agora que é famoso, toda a gente quer tirar uma foto com ele. É um campeão”, contou Rezaei.

Sem qualquer tipo de aptidão ou experiência desportiva, o primeiro passo consistiu em ensinar-lhe todas as bases da modalidade. Mas tinha algo que mais nenhum atleta paralímpico tinha e que não se poderia aperfeiçoar com treino: a imponente altura.

A chegada de Mehrzad ao circuito de voleibol sentado criou uma pequena revolução. Ao “The New York Times”, o treinador norte-americano Greg Walker recordou a primeira vez que se cruzou com o gigante iraniano. Primeiro suspirou, “uau”, depois pensou melhor: “isto não são boas notícias”.

Não eram. A altura de Mehrzad dá-lhe uma vantagem única no desporto que é disputado com todos os jogadores sentados, separados por uma rede de 1,15 metros. Ainda que sentado, o iraniano com os braços levantados atinge uma altura acima dos 1,80 metros: uma barreira quase intransponível para outros atletas.

Anos antes, o Brasil havia apostado em atletas com mais de 1,80 metros de altura, o que transformou uma seleção banal numa potência da modalidade. Essa estratégia não passou despercebida às outras equipas, que começaram imediatamente à procura de potenciais contratações.

Do lado americano, jogadores e treinadores confessaram ter começado a pedir aos médicos para referenciarem os seus pacientes mais altos. Mais importante do que a aptidão para a modalidade, a altura passou a ser requisito prioritário.

“Quando ele ataca, é como se ele estivesse três metros acima do solo”, explicou um dos jogadores brasileiros.

Depois da vitória no Rio, todos os olhos se centraram em Mehrzad. Rezaei, o treinador, acalmou os ânimos, mas reafirmou as ambições. “Vamos levar a coisa passo a passo, estamos a treiná-lo para ser o melhor do mundo daqui a dois anos.”

Cinco anos depois, o iraniano de 33 anos prepara-se para ser a grande estrela dos Paralímpicos de Tóquio, que arrancam a 24 de agosto. E, se Rezaei cumprir a promessa, Mehrzad vai arrasar. “Estamos a prepará-lo para fazer história.”

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