Ginásios e outdoor

Como Júlia Chitarra se tornou na quinta melhor bodybuilder do mundo

Com mais de 500 mil seguidores no Instagram, a nutricionista mostra como consegue fazer tudo com a disciplina e motivação certa.
Júlia treina há 10 anos.

Júlia Chitarra é um dos nomes mais conhecidos no mundo do bodybuilding feminino em todo o mundo. A nutricionista de profissão cedo descobriu que o desporto e a musculação iriam ser uma parte super importante da sua vida adulta. Aos 18 anos, inscreveu-se no ginásio e uma década depois já é a quinta bodybuilder dentro da sua categoria.

Começou por ser uma falsa magra, ou seja, visualmente era magra, mas isso acontecia porque tinha pouca massa muscular. No entanto, o percentil de massa gorda era elevado. Foi esta condição que a levou a entrar no ginásio e nunca mais parou. 

Hoje, tenta conjugar as consultas de nutrição online e presenciais com quase três horas de treino diárias. Além de que a alimentação nunca pode ser esquecida e Júlia nunca foge da dieta. Jantares de amigos são passados a águas ou sumos naturais e anda “sempre com a marmita atrás.” A atleta conta, em entrevista à NiT: “Não sei quem é a Júlia sem treino. Acho que já faz parte da minha identidade.”

Como descobriu que queria estudar nutrição?
Foi uma coisa que surgiu em conjunto com o desporto. Tinha começado a treinar e sempre gostei muito dessa área de ciências e medicina, mas sabia que não era em medicina que queria trabalhar no futuro. Estava um pouco perdida em relação às saídas profissionais e comecei a aproximar-me mais do desporto. Comecei a pesquisar um pouco mais sobre a nutrição e quando comecei a fazer o curso apaixonei-me pela área.

Como surge o desporto?
Sempre fui uma pessoa muito ativa. Desde criança que sempre brinquei muito na educação física e no colégio. Com o trabalho e a faculdade, comecei a ter menos disponibilidade de horários para praticar volley, por exemplo, que era a modalidade que pratiquei durante algum tempo. O ginásio surgiu como a solução para continuar ativa, mas sem precisar de ter um horário e dias fixos, podia ir de acordo com a rotina. Com o bodybuilding e a nutrição encontrei o meu caminho.

O que é o desporto para si?
É a minha vida. Hoje já não consigo tirar o desporto da minha rotina. Não sei quem é a Júlia sem treino. Acho que já faz parte da minha identidade.

Quantas vezes treina por semana?
Cinco a seis vezes por semana faço o treino de musculação e força. E o treino de cardio faço todos os dias. Normalmente o treino de musculação dura uma hora ou 1h30. Já o treino de cardio, dura outra hora ou 1h30. Por vezes são três horas de treino diário.

Como arranja tempo?
É muito difícil. Tenho uma pessoa que me ajuda com a agenda e tenho um horário cronometrado. Organizo a alimentação no dia anterior, deixo tudo pronto, programo quantos pacientes e quanto tempo demoram as consultas, o tempo do treino, tudo. Não posso chegar a casa e sentar-me no sofá. Tem de ser tudo cronometrado para conseguir acabar o dia e ter cumprido tudo o que tinha planeado.

O que nota que está diferente no seu corpo?
Tudo está diferente. Era uma menina falsa magra porque era visualmente magra, mas tinha um baixo valor de massa muscular e mais massa gorda. Com o treino fui ganhando muita autoconfiança. Em termos de desenvolvimento de corpo, agora tenho pernas e glúteos maiores, superiores também maiores. Acho que consegui evoluir tudo de uma maneira geral. 

Mudar o corpo era uma coisa importante?
Talvez na época não tivesse essa consciência mas não foi pela estética, foi pela necessidade de praticar uma atividade física. Quando fui mudando esteticamente e isso foi trazendo uma autoconfiança muito forte. Nessa altura comecei a prestar mais atenção à estética e a gostar daquilo que via em mim.

Hoje em dia a estética é uma coisa a que dá muito valor?
Dou muito valor. A estética está muito relacionada com o meu desporto. Mas se parasse de competir, com certeza a estética seria importante, mas a rotina que tenho no dia a dia é ainda mais. Gosto e funciono muito melhor quando tenho uma rotina. 

Quando é que começou a competir?
Com 18 anos, em 2014, mais ou menos um ano depois de entrar no ginásio. Fui assistir a uma campeonato de bodybuilding e apaixonei-me na hora pela modalidade. Comecei a preparar-me, a competir e não parei mais. Na verdade tive um intervalo de um ano por causa de uma lesão, mas nunca desisti. Foi algo que até me motivou. A minha paixão é tão grande por este desporto que trabalhei muito para conseguir recuperar da lesão e retomar aos palcos.

Como é que funciona a competição?
Compito na PROline. Você pode ser um atleta amador, mas precisa de ganhar um show grande para se tornar num atleta profissional. Neste momento já sou uma atleta profissional, mas preciso de vencer um show profissional para garantir uma vaga no Mr. Olympia. Já fiz esse processo, já venci e já pisei no palco deste campeonato onde estão os melhores dos melhores atletas de todo o mundo. Fiquei em quinto lugar. Hoje sou a quinta melhor do mundo dentro da minha categoria. 

A competição é a parte principal da sua vida?
Hoje divido a minha carreira como atleta com minha carreira como nutricionista. Então há um malabarismo para poder equilibrar os dois. Atendo presencialmente em São Paulo e atendo online pessoas de todo o mundo. Além de que tenho todo o meu trabalho como atleta e influencer. Tenho ser uma mulher multifunções.

O facto de competir influencia a carreira como nutricionista?
Sim. As pessoas acabam por ver em nós um espelho do nosso trabalho, então dão-nos um pouco mais de credibilidade. Atraio uma clientela muito grande, não só de quem quer competir, mas de pessoas que acreditam em todo o processo porque o estão a ver em mim. É como se provasse que sei o que estou a fazer. Gera um pouco de empatia e confiança. Não estou ali a pedir para que deixe de comer algo que eu como. 

Como é que entra aqui o Instagram e o facto de ser influencer?
Começou naturalmente quando comecei a competir. Aos poucos fui mostrando o meu trabalho como atleta. Foi crescendo e foi uma forma que encontrei de divulgar o meu trabalho como nutricionista. Hoje identifico-me mais como nutricionista e atleta do que com uma modelo fitness. O Instagram é o sítio onde consigo ajudar outras pessoas com dicas, mostrar um pouco das minhas preparações físicas e treinos. Tento também falar um pouco sobre a nutrição. 

Em termos de nutrição, o que é que a Júlia faz no dia a dia?
O meu plano alimentar é voltado para os campeonatos. Tenho dois períodos: off season e cutting. A minha comida é simples e muito tradicional brasileira. Como arroz, feijão, fruta, legumes, frango, bastante proteína e faço a minha suplementação com whey protein e creatina. O que mostro às pessoas é que o básico, sem invenções, é o que funciona. A minha alimentação é muito simples e não é cheia de coisas difíceis de se encontrar ou produtos caros. Só que tudo o que como é muito bem calculado e pesado.

Porquê pesar a comida?
Costumo dizer que na nutrição o que não se quantifica, não se consegue calcular. É uma matemática. Preciso que essa conta se mantenha negativa para conseguir emagrecer e perder gordura. Dentro disso, tenho de estabelecer a melhor rotina possível, para ter o melhor rendimento e comer o mais confortável possível.

Há alguma coisa que não entra de certeza na sua alimentação?
Normalmente é o açúcar, fast food, fritos e óleos. Quando o treinador me deixa comer um hambúrguer, faço-o em casa, mas é raríssimo isso acontecer. Pizza não gosto, por isso não costumo comer. Doces também não como.

Como é a Júlia pós-competição?
Sou muito consciente porque sei que o trabalho é contínuo e é muito fácil estragar. Posso fazer uma ou duas refeições mais livres e depois retomo o plano alimentar, reajustado para a nova fase. Porque se deixar uma ou duas semanas de alimentação muito livre, isso acaba com todo o trabalho que fiz até então.

Consegue manter sempre a dieta?
Sou muito contida e tranquila. O que posso ir reduzindo é o tempo de cardio, que pode passar a ser de apenas meia hora. Mas estou sempre me a treinar e a tentar manter a dieta. Por vezes pode ser uma dieta mais rica e um pouco mais calórica, mas sempre na dieta. 

Como faz entre competições?
Geralmente chego a fazer quatro ou cinco competições por ano. Há períodos pequenos mais tranquilos, de um mês ou dois. Tento sempre preparar-me para pelo menos três ou quatro campeonatos para não ter de estar em preparação o ano inteiro. Realmente é uma carga muito grande de treino e cardio. E estamos quase sempre com uma dieta com um valor calórico mais baixo, porque precisamos de estar na nossa melhor condição física e ter um rendimento alto. Além de ter tempo para a família e os amigos. Não é fácil.

Se houver um jantar de grupo, como é que se alimenta?
Os meus amigos já estão habituados e perguntam-me sempre se estou numa fase em que posso comer mais livremente. Quando vou a algum evento tento que tenham uma ementa especial para mim. Se for um jantar de amigos, normalmente alimento-me antes de ir e depois quando chego a casa volto a comer. Durante os jantares bebo água ou sumo natural. Mas quando são fases muito próximas de competições, não posso comer fora de casa porque os modos de preparar a comida influencia muito nas calorias que ingerimos.

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