Ginásios e outdoor

Como o crossfit salvou Rafael: “Só comecei a viver a sério depois de perder o braço”

O jovem de 29 anos teve um aparatoso acidente de viação que o obrigou a ser amputado e o fez desistir de um sonho.
Rafael participa em competições.

“Não me lembro de nada do que aconteceu naquele dia, mas as fotos mostram que o meu braço foi parar ao banco de trás.” Rafael Vicente tinha 22 anos quando teve acidente de viação grave que lhe mudou a vida para sempre. A 10 de março de 2016, quando regressava do trabalho, chocou com uma carrinha que transportava botijas de gás e que lhe desfez o carro.

“Não sabemos se foi do trauma, mas esqueci tudo. Não costumava ir por aquela estrada, nem usar aquele carro”, começa por contar à NiT. O que sabe sobre o dia fatídico foi-lhe contado pela família ou por testemunhas, porém, ninguém sabe ao certo o que se passou. Rafael, hoje com 29 anos, acredita que foi encadeado pelo sol de final da tarde e despistou-se.

O administrativo esteve em coma dois dias e quando acordou, sem saber onde estava, sem um braço e com ferro na perna, chorou. “Mas foi só isso. Chorei pelo que aconteceu e depois disso, tentei encarar o acidente da forma mais positiva que consegui. Não podia mudar nada, mas sabia que ficar triste e entregar-me à depressão seria pior”, revela.

Tinha uma longa recuperação pela frente, que passava por reaprender todos os movimentos básicos só com um braço — e outra cirurgia à perna. Rafael teve de abandonar um dos hobby preferidos, o futebol. “Jogava à bola desde os 10 anos e apesar de não ser um profissional a alto nível, começava a minha carreira como sénior quando tudo aconteceu.”

Três anos depois deixou a cadeira de rodas e as canadianas. Confiante na recuperação de Rafael, um amigo apresentou-lhe a solução para continuar a praticar desporto: o crossfit. “Ele treinava numa box e disse-me que seria ótimo para mim. E também queria desmitificar a modalidade, porque, na altura, muitos ainda pensavam que os atletas se partiam todos.”

Perdeu o futebol, mas ganhou o crossfit

Convencido pelo amigo, o jovem de Coimbra experimentou a modalidade no início de 2019 e nunca mais parou. “Quando comecei, percebi logo que era minha a cara. Desafiava-me constantemente, tanto em termos físicos como psicológicos, e gostei disso”, conta. Mas, no início, fui um pouco a medo, porque tinha perdido muita massa muscular, sobretudo na perna lesionada. “Comecei a aprender os movimentos básicos, sempre acompanhado e com treinos adaptados.”

Apesar das dificuldades, Rafael acredita que o desporto o salvou. “Se não tivesse escolhido uma modalidade como o crossfit acredito que teria um retrocesso muito grande a nível psicológico. E, apesar dos desafios e dias maus, fez-me acreditar que conseguia.”

Foi uma das caras da campanha da Nike para os Jogos Olímpicos de 2019.

Ao longo dos anos, à medida que avança na modalidade, os exercícios vão sendo adaptados ao seu corpo. “Neste momento sou acompanhado por um treinador que desenha os planos à minha condição e me motiva a continuar. E já fiz grandes progressos desde que comecei”, assegura.

Atualmente, já existem já competições adaptadas e Rafael já participou em algumas. “Tivemos a primeira cá em Portugal no ano passado. Espero que o tema continue a ser debatido e que continuem a aparecer cada vez mais provas para motivem os atletas a participar. Quantos mais formos, a mais pessoas conseguimos chegar”, diz. E adianta ainda um sonho: “Adorava chegar mais longe e, apesar de ser muito difícil, ganhar mais competições e praticar profissionalmente. Mas, para já, estou feliz com a minha evolução.”

A vida depois do acidente

“Nunca quis que ninguém sentisse pena. Pelo contrário. Sempre fui um miúdo com muita vontade de viver e continuo assim”, revela. E a verdade é que toda a situação até já lhe trouxe alguns momentos “inesperados”, mas “muito positivos”.

Rafael Vieira, que trabalha com administrativo numa empresa de transportes, já foi convidado para ser modelo de várias marcas desportivas, como a Nike e a Adidas. O etiqueta norte-americana foi a primeira a desafiá-lo, em 2019. “Na altura andavam à procura de um exemplo de superação para dar a cara pela marca para os Jogos Olímpicos e encontraram-me no Instagram”, refere. Quando o contactaram “nem queria acreditar”. Apesar de nunca ter feito nenhum trabalho como modelo, aceitou e rumou aos Estados Unidos da América para três dias de sessões fotográficas, ao lado de modelos profissionais.

Depois dessa oportunidade surgiram outros convites, que Rafael aceita sempre que consegue conciliar com o trabalho. “Até porque o dinheiro também dá jeito.” No entanto, um dos maiores objetivos do jovem de Coimbra é que a sua história sirva de exemplo a outros jovens que tenham vivido algo semelhante.

“O acidente tirou-me o braço e muitas outras coisas, como o futebol que tanto gostava. Deixou-me limitado e com algumas dificuldades. Mas deu-me outras tantas. Consegui perceber que tenho ao meu lado pessoas excecionais e ainda tive várias oportunidades que talvez antes não teria”, sublinha. “Sinto que só comecei a viver a sério depois disso.”

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