Ginásios e outdoor

A comovente história da orfã que se tornou campeã olímpica e bateu todos os recordes

Jessica Long foi abandonada pelos pais, perdeu as pernas e foi adotada no outro lado do mundo. Tornou-se numa estrela do desporto.
É uma das nadadoras mais medalhadas

Viva-se um dos habituais rigorosos invernos na Sibéria no ano em que Tatiana Olegovna Kirillova nasceu em Bratsk, a 29 de fevereiro de 1992. Filha de uma adolescente de 16 anos e um pai igualmente jovem com 17, a primeira notícia depois do parto não foi a melhor.

O casal inexperiente foi informado de que a sua filha sofria de uma condição rara, hemimelia fibular, isto é, a ausência da fíbula na perna. Sem esse osso e mais alguns do pé, as pernas de Tatiana estavam condenadas: teriam que ser amputadas do joelho para baixo.

Sem condições financeiras para cuidar da criança, os jovens russos entregaram-na para adoção. Foi no outro lado do mundo, em Baltimore, nos Estados Unidos, que um casal se predispôs a acolher a criança, independentemente da sua condição.

Tatiana viajou para o seu novo país aos 13 meses e foi acompanhada por um rapaz, outro órfão siberiano adotado pelo mesmo casal americano. Foi aos cuidados de Beth e Steve Long que Tatiana enfrentou diversas cirurgias.

As pernas foram amputadas quando tinha apenas 18 meses. Seguiram-se um total de 25 cirurgias. O nome Tatiana também ficou para trás — era agora Jessica Long, nome que haveria de colocar na lista dos melhores atletas paralímpicos de sempre.

“Acredito que todos, na sua vida, passam por pelo menos um momento decisivo no qual podem desistir perante as adversidades ou abraçar tudo o que lhes é colocado à frente e recusar desistir”, escreveu em 2018 no Instagram, numa publicação onde recorda a doença que a afetou. “Passei por incontáveis cirurgias e reaprendi a andar vezes demais. Duvidei da minha capacidade e fiquei frustrada por não ter pernas, mas também sei que esta é a única vida que terei e escolhi vivê-la ao máximo.”

Assim fez. Aos 29 anos, uns chamam-lhe Aquawoman, outros comparam-na a Michael Phelps. A verdade é que o seu currículo é invejável.

Estreou-se com apenas 12 anos nos Jogos Paralímpicos de Atenas, em 2004 e, de lá para cá, conseguiu bater o recorde de medalhas de Michael Phelps, que conquistou 28 medalhas nos Olímpicos.

As medalhas são (quase) todas dela

Long está atualmente a disputar os Paralímpicos em Tóquio, para onde partiu com 23 medalhas — 13 de ouro, seis de prata e quatro de bronze. E na mais recente edição conseguiu, para já, acrescentar à lista mais cinco medalhas, duas delas de ouro.

Com um total de 29 presenças no pódio, Long bateu o nadador masculino e no quadro de honra da natação só fica atrás da nadadora paralímpica Trischa Zorn e das suas impressionantes 55 medalhas.

Apesar de ter chegado a Baltimore altamente incapacitada, os pais adotivos sempre a motivaram a praticar desporto. Fez ginástica, patinagem no gelo, escalada, trampolim. Mas era na piscina de casa dos avós que Long se sentia melhor.

“Quando estava na piscina, nunca sentia que me faltavam as pernas”, recorda das longas sessões de brincadeira. Era a primeira a entrar e última a sair da água. Eventualmente, a paixão tornou-se mais séria.

Confessou ser uma criança cheia de raiva e frustração. Foi também essa agressividade que, explica, a motivou a entrar para a natação. “Era na piscina que conseguia libertar tudo, mas também onde me sentia realmente livre e capaz.”

Mesmo capaz de fazer tudo o que faziam as outras crianças, a vida de Long estava recheada de dúvidas e perguntas às quais ninguém sabia responder. “Ninguém me conseguia dizer porque é que eu nasci sem as pernas, porque é que fui adotada ou até porque nasci num ano bissexto.”

A entrada nas competições internacionais de natação foi feita de rompante nos Paralímpicos de Atenas de 2004. A jovem que tinha apenas dois anos de experiência de natação profissional arrasou e conquistou três medalhas de ouro.

Voltou a brilhar em 2008 e novamente em 2012, quando fez a sua melhor prestação de sempre. Nos Paralímpicos de Londres conquistou oito medalhas, cinco de ouro.

Long já vai na sua quinta participação nos Paralímpicos

Na Sibéria, Natalia e Oleg Valtysheva assistiam às provas, também eles completamente alheios à verdadeira identidade daquela nadadora americana que limpava a concorrência. Foi precisamente nesse ano, com a ascensão mundial de Long, que jornalistas russos foram atrás da improvável história da heroína americana.

Confrontados com o facto de que Long era, na verdade, a bebé Tatiana que deixaram num orfanato, os seus pais biológicos mostraram-se orgulhosos.

Haveriam eventualmente de casar e de ter mais filhos, irmãos e irmãs de Jessica. São pais de mais três crianças, apesar de nunca terem esquecido as circunstâncias atribuladas em que se sentiram impotentes para criar uma filha com problemas de saúde.

“Na altura tinha medo, assustei-me. Tive que a deixar mas sempre pensei que a voltaria a ter”, revelou Natalia ao “The Siberian Times”. “Estava sozinha com a minha mãe e com o meu pai. Para onde iria se tivesse ficado com ela? Até os médicos me disseram para o fazer, que eu não a poderia ajudar.”

O primeiro encontro de Long com a família biológica

“Estou muito feliz por ela, por finalmente sabermos quem é, orgulhoso pelo que fez e, claro, quero conhecê-la”, concluiu Oleg. E viu o seu desejo concretizado porque, do outro lado do mundo, Long ansiava pelo mesmo.

A viagem deu até origem a um minidocumentário da “NBC”, “Long Way Home: The Jessica Long Story”, onde se acompanha o reencontro de Long e toda a família biológica na Sibéria. A atleta rapidamente partilhou tudo nas redes sociais, onde divulgou uma fotografia ao lado dos irmãos e dos pais. “Conheçam a minha família russa. Adoro-os mais do que posso traduzir por palavras. O meu coração está cheio.”

Quase dez anos depois, Long mantém uma relação próxima com toda a família. E todos continuam orgulhosos das proezas atléticas da jovem que, tudo indica, não se ficarão por aqui. Esta quinta-feira, 2 de setembro, a nadadora americana volta à piscina para mais uma final e, quem sabe, mais uma medalha — a 30.ª.

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