Uma mulher saiu mais cedo do trabalho de propósito para o encontrar no percurso da Estrada Nacional 2. Quando finalmente o apanhou, abraçou-o e começou a chorar. Agradeceu-lhe, sobretudo, por estar a falar de saúde mental, condição com a qual lida há anos. Foi nesse momento que Francisco Gomes percebeu que os 738 quilómetros que tinha pela frente eram mais do que um desafio físico.
“Foi a primeira vez que tive a confirmação em carne e osso de que a minha missão estava a chegar às pessoas”, recorda o atleta de 30 anos, natural de Coimbra, que decidiu partilhar a aventura no Instagram, onde tem vindo a conquistar público que se identifica com o que publica. “Isso deu-me uma força enorme para continuar.”
O atleta decidiu percorrer a Estrada Nacional 2 na sua totalidade, ligando Chaves a Faro, a correr, para chamar a atenção para a importância da saúde mental, uma causa que ganhou peso na sua vida em 2014, ano em que perdeu um dos melhores amigos por suicídio. A partir daí, passou a olhar para o tema com outra urgência e quis encontrar uma forma de contribuir para a mudança.
Francisco correu a EN2 entre 30 de março e 7 de abril. Partiu pelas 8h30 e terminou o desafio oito dias depois, por volta das 19h30. O objetivo inicial passava por concluir o percurso em sete dias, mas o plano acabou por ser ajustado devido a problemas físicos que surgiram a meio do caminho.
Ao longo deste período, enfrentou não só o desgaste físico acumulado, mas também episódios de doença que o colocaram à beira da desistência. Por volta do quilómetro 500, perto de Montemor-o-Novo, após várias noites mal dormidas e com vómitos constantes, ponderou parar. “O corpo não estava a responder e eu não queria estar dependente de medicação para continuar”, admite. “Por sorte, consegui recuperar e os últimos dias deram-me algum alívio”, conta.
Antes de partir, criou o movimento #FicarMelhor, incentivando os seguidores a partilharem pequenos hábitos diários que contribuem para o bem-estar psicológico. Durante o caminho, foi atualizando as redes sociais com reflexões sobre as dificuldades que enfrentava e a forma como lidava com elas, sempre com o objetivo de normalizar a conversa sobre saúde mental.
“Não falamos o suficiente sobre quando estamos mal. E isso precisa de mudar”, lamenta. “Se eu pudesse usar o desporto para abrir essa conversa, então fazia todo o sentido avançar com este desafio.”
A componente solidária também fez parte da iniciativa. Francisco lançou uma votação online para escolher a instituição a apoiar, tendo sido selecionada a Quebrar o Silêncio, em Sintra, que trabalha com homens e rapazes vítimas de violência sexual.
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O percurso até chegar a este desafio não foi linear. Com formação em Engenharia Mecânica, trabalhou durante vários anos numa empresa ligada a turbinas eólicas, incluindo projetos em alto mar — antes disso deu aulas de inglês a miúdos entre os 10 e os 15 anos.
No entanto, a exigência profissional e o tempo longe da família acabaram por pesar na decisão de mudar de vida. Por volta de abril de 2025, decidiu sair da área e apostar numa nova carreira ligada ao desporto. Atualmente, está a tirar formações para se tornar treinador de corrida e de ginásio.
“Gostava do que fazia, mas não estava alinhado com a forma como quero viver”, explica. “Estar meses num barco, longe de tudo, acabou por pesar, até na forma como treinava porque estava limitado a uma passadeira”, recorda.
A preparação para a EN2 também teve de ser adaptada. Uma lesão em dezembro condicionou os treinos e obrigou-o a apostar mais em trabalho de ginásio e crosstraining, reduzindo o volume de corrida para evitar agravar a situação. Ainda assim, Francisco Gomes manteve o compromisso com a data, já que o projeto envolvia uma equipa de filmagem.
Durante a travessia, contou com uma equipa de apoio que o acompanhava com um carro e uma caravana. Era aí que fazia as refeições, descansava e tomava banho. Durante seis noites, a caravana também foi a sua cama. No entanto, dormiu duas vezes em quartéis dos bombeiros, na altura em que se sentia doente.
Além do desgaste físico, a experiência acabou por ter um impacto emocional profundo. Houve vários momentos em que se viu confrontado com emoções que não sabia que tinha guardadas. “Passei por fases em que estava a correr e simplesmente a chorar. Estava a processar coisas que nem sabia que estavam dentro de mim.”
No final, perdeu quase 10 quilos e admite que o corpo ainda precisa de tempo para recuperar — vai, inclusive, começar a fazer fisioterapia. Mesmo assim, não fecha a porta a novos desafios deste género, sobretudo se tiverem um propósito semelhante. “Gostei muito de estar a lutar por uma causa porque me deu um sentido diferente. Mas agora preciso de recuperar com calma.”
Os mais de 700 quilómetros que percorreu também mudaram a forma como Francisco Gomes olha para o dia a dia. Durante o caminho, começou a valorizar detalhes mais pequenos, como “um chá quente, paisagens bonitas e o simples facto de ter saúde para fazer isto”. “E percebi que o amor que tenho à minha volta é muito maior do que imaginava.”


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