Depois de pedalar mais de 100 quilómetros de Copenhaga até ao extremo norte da Dinamarca, Nuno Gandum foi recebido da melhor forma possível: por uma foca bebé que estava a poucos metros de distância. “Dentro da água estava outra, acho que era a mãe. Foi um momento muito marcante”, conta à NiT.
Aos 22 anos, o jovem, natural de Portalegre, decidiu trocar uma viagem de avião por um percurso de mais de 8.000 quilómetros feitos em bicicleta. Depois de terminar o mestrado em Engenharia Física na Dinamarca, onde viveu durante os últimos dois anos, começou, em meados de agosto, a pedalar em direção a Lisboa. O objetivo é atravessar vários países europeus e chegar ao Terreiro do Paço antes de novembro.
A ideia começou como uma brincadeira. Quando se mudou para a Dinamarca, Nuno percebeu que a bicicleta fazia parte do quotidiano e que era usada para praticamente tudo. “Disse, a brincar, que seria giro ir de bicicleta para Portugal. Com o tempo isto começou a tornar-se mais real.”
Depois de acabar os estudos, decidiu aproveitar a pausa para concretizar o plano. “Não houve uma grande razão que me levou a fazer isto. A minha ideia foi fazer uma viagem diferente depois de terminar o mestrado”, explica. Começou por reunir locais que queria conhecer nos diferentes países europeus e percebeu que podia transformar essas paragens num percurso. “Tinha vários sítios guardados. Comecei a juntar os pontos para conhecê-los de forma diferente do habitual.”
O planeamento começou há alguns meses e envolveu mais do que traçar uma linha reta entre a Dinamarca e Portugal. Nuno quis incluir locais turísticos e outros que ficam fora dos circuitos mais procurados. “Na primeira parte também me queria focar na Dinamarca, porque vivi aqui e conhecia pouco além de Copenhaga. O roteiro foi o que me deu mais prazer de organizar.”
A logística também foi um processo demorado. Além do percurso, teve de escolher e organizar o material, preparar a bicicleta e pensar nos locais onde poderia dormir ao longo de mais de dois meses. Até agora, a viagem tem decorrido dentro do previsto. O plano ultrapassa os oito mil quilómetros percorridos e, a 1 de setembro, Nuno já tinha feito mais de 1.800.
A viagem começou na Dinamarca, país que percorreu de norte a sul, e prosseguiu pela Alemanha. No início de setembro estava no norte do país, a seguir em direção aos Países Baixos. A média diária ronda os 120 quilómetros, embora não exista uma distância fixa para todos os dias. “Há dias mais curtos e outros que são mais longos”, explica. O máximo feito até agora foi de 160 quilómetros num único dia.
A rotina começa cedo. Nuno costuma subir para a bicicleta pelas 8 horas e vai ajustando as paragens às necessidades do corpo. “Paro quando tenho fome ou preciso de ir à casa de banho”, conta. Em média, faz uma pausa a cada 20 ou 30 quilómetros, embora possa pedalar durante mais tempo quando se sente com energia.
De manhã, costuma parar uma ou duas vezes antes do almoço, que acontece por volta do meio-dia. Durante a tarde, as pausas tornam-se mais frequentes devido ao desgaste acumulado. Num dia normal, termina por volta das 17 horas, embora já tenha chegado às 18 horas. Nos dias mais curtos, pode parar às 15 horas.
Consigo leva sempre uma alimentação pensada para acompanhar o esforço físico. O almoço é composto, muitas vezes, por pão com diferentes ingredientes. O queijo e os enchidos são escolhidos de acordo com os produtos encontrados em cada região, numa tentativa de conhecer também a gastronomia dos locais por onde passa.
Ver esta publicação no Instagram
A fruta é outro elemento frequente, enquanto as barras energéticas servem para reforçar as refeições ao longo do dia. “Quero provar barrinhas de todas as partes da Europa”, brinca.
Ao jantar, a prioridade é recuperar a energia gasta durante o dia. Nuno procura ingerir muitas calorias e hidratos de carbono e aposta em refeições que possam ser preparadas sem grande logística, como cuscuz. “Acho que me tenho alimentado bem”, resume.
O clima tem sido um dos obstáculos constantes. Nuno tem encontrado vários dias de vento contrário, além de períodos de chuva e algumas tempestades. “Às vezes fica difícil pedalar”, lamenta. As noites também fazem parte das preocupações, sobretudo à medida que avança para sul.
Na Dinamarca, encontrou uma rede de abrigos que facilitava a procura por um lugar para passar a noite. Também tem recorrido a amigos, conhecidos e couchsurfing. “Uma dificuldade que é sempre uma constante é arranjar alojamento”, admite.
A situação deverá mudar nos próximos países. Nuno prevê que em França seja mais difícil encontrar onde dormir e que o acampamento passe a fazer parte da rotina. Ainda assim, a hospitalidade de algumas pessoas que encontrou pelo caminho tem sido uma das experiências que mais o marcou. “As pessoas têm sido incríveis em dar-me casa e isso também marca muito”, afirma.
Apesar da distância, a preparação física não envolveu um plano específico. Durante os dois anos em que viveu na Dinamarca, manteve uma rotina ativa, praticava desporto e andava de bicicleta com os amigos. O período que antecedeu a viagem, contudo, foi diferente. “Estive um mês de férias em Portugal e quase não fiz nada a nível de desporto”, revela.
Felizmente, o terreno tem sido uma grande ajuda nesta primeira etapa, visto que a maior parte do percurso realizado no norte da Europa é plano — mas Nuno sabe que essa realidade vai mudar. A partir da Bélgica e, sobretudo, no final da passagem por França e já em Espanha, espera encontrar mais desníveis. “Acho que essa vai ser a parte mais dura.”
Este desafio tem ainda uma vertente solidária. Depois de decidir avançar com a viagem, Nuno procurou associar o desafio a uma causa que lhe dissesse alguma coisa. Escolheu a Rewilding Portugal, organização que trabalha na preservação de habitats naturais. Criou uma campanha de angariação de fundos através do GoFundMe — onde já arrecadou cerca de 190€ — e espera que o percurso possa contribuir para esse trabalho. “Toda a ajuda é bem-vinda”, afirma.
A escolha está relacionada com a ligação que tem com a natureza e as atividades ao ar livre. “Gosto muito de estar fora de casa a fazer atividades, quer sejam caminhadas ou andar de bicicleta.” O objetivo é contribuir para que os habitats do norte de Portugal possam manter as suas características naturais.
Ainda faltam milhares de quilómetros até ao destino. Depois dos Países Baixos, onde prevê parar “um ou dois dias” para visitar amigos, seguirá para França e, depois, Espanha, passando também pela Bélgica e não só. A meta é chegar no final de outubro ao Terreiro do Paço, “porque é um sítio marcante de Lisboa”.
O plano inicial era terminar em Portalegre, cidade onde cresceu, mas acabou por mudar de ideias. “Acho que fazia mais sentido acabar um desafio destes na capital. Só não sei se depois vou ter boleia para Portalegre ou se vou ter de pedalar mais”, brinca.
Até lá, a maior incógnita será o estado físico quando começar a enfrentar as zonas montanhosas. “O desnível vai ser superior ao que encontrei no norte da Europa e só quando chegar a essas regiões é que vou perceber como é que o meu corpo vai reagir.”
Carregue na galeria para ver algumas imagens desta aventura.







