Ginásios e outdoor

De vender óculos na rua a herói nacional: as origens humildes do novo deus grego da NBA

Giannis Antetokounmpo teve uma vida dura, de pobreza e insultos no mesmo país que agora o adora. Chegou agora ao topo, como lenda a cumprir profecia.
A profecia cumpriu-se.

O nome é quase impronunciável. Mas é bem possível que, mesmo os leitores mais distraídos do mundo do basquetebol, se tenham a dada altura deparado com ele: Giannis Antetokounmpo. É história de domínio dentro do campo, de superação fora dele — e uma daquelas que parece fábula a tornar-se realidade.

Na madrugada desta quarta-feira, 21 de julho, os Milwaukee Bucks sagraram-se, pela primeira vez em cinco décadas, campeões da NBA, ao derrotarem os Phoenix Suns. O melhor jogador? Giannis. Um gigante grego que fez mais de 50 pontos e se tornou o melhor jogador das finais.

A consagração chegou agora, aos 26 anos, no alto dos seus impressionantes 2,11 metros de altura e 110 quilos. Giannis é ágil, possante, uma presença intimidante na forma como afunda na cara de adversários e bloqueia cestos que pareciam certos. E é também uma figura humilde, motivadora, capaz de levar a sua equipa a outro nível.

A sua história impressiona. Há pouco mais de uma década, este filho de emigrantes que deixaram a miséria da sua Nigéria natal, em 1991, andava pelas ruas de Atenas a vender óculos de sol e bugigangas. “Às vezes tínhamos o frigorífico vazio”, chegou a recordar. Sentiu a pobreza, foi alvo de racismo mas em tudo isto o basquetebol foi sempre objetivo e salvação.

O apelido Antetokounmpo não é brincadeira. Giannis é um de cinco irmãos, todo eles basquetebolistas profissionais ou a caminho disso (Alex, o mais novo, é já estrela no liceu e tem em Giannis um mentor que garante que ele é “the next big thing”). Kostas, outro dos irmãos, também já passou pela NBA. E Thanasis joga até nos mesmos Bucks (tendo-se sagrado também campeão na última madrugada).

A história de Giannis e Thanasis é ainda mais próxima. A evolução de Giannis foi tão rápida que aos 17 anos, em Atenas, já os fãs gregos de basquetebol se deslocavam em peso para verem aquela que seria a futura estrela da NBA.

Era um tempo curioso. Giannis evoluiu tão rapidamente que jogava ainda adolescente no mesmo escalão que o irmão, dois anos mais velho. Da NBA chegavam observadores para verem Giannis. Pormenor curioso: raramente os irmãos jogavam juntos. Eram pobres os suficiente para terem apenas um par de sapatilhas decentes entre os dois. Usavam o mesmo par e iam revezando-se nas partidas.

Em diferentes entrevistas, Giannis já falou do seu contexto de pobreza mas também no apoio da família, que sempre se manteve unida apesar das dificuldades. Não foi fácil a ascensão na Grécia. Giannis ainda novo mas já a tornar-se célebre sentiu e forma bem pública o racismo de alguns.

Um deputado do partido de extrema-direita (entretanto ilegalizado) Aurora Dourada, chegou a insultá-lo chamando-lhe “chimpanzé”. Giannis continuou sempre a provar em campo e fora dele quem era. Hoje, é admirado e quando volta à sua Atenas nas pausas do campeonato, chega a ter milhares de pessoas a irem assistir aos seus treinos.

Há três anos, aliás, Giannis viveu um daqueles episódios de suster a respiração que resultam deste seu novo estatuto entre os gregos. A história foi contada por Sean Sweeney, que o acompanhou como preparador.

Naquele verão, em 2018, entraram num táxi já atrasados para um treino. O que se seguiu foi uma viagem de loucos, a buzinar e a fintar carros por entre a caótica Atenas. “Parecia capaz de atropelar umas dez pessoas para nos levar ao treino”, contou. Tudo por Giannis, o deus grego da NBA.

O título de campeão é uma consagração mas é também uma espécie de cumprir de profecia, ao jeito das boas lendas. Em 2017, Kobe Bryant, um dos maiores craques de sempre da NBA, falecido em 2020 num acidente de helicóptero, lançou-lhe um desafio: ser o MVP (jogador mais valioso) da NBA.

Giannis cumpriu a dobrar nas épocas 2018/2019 e 2019/2020. Em 2019, antes de falecer, Kobe lançou-lhe logo o novo desafio: “agora só falta ser campeão da NBA”. Chegou a lesionar-se durante os playoffs, temeu-se que poderia não estar nas melhores condições para os jogos decisivos com os Suns. Mas ele tinha esta profecia por alcançar. Giannis acaba de a cumprir e não deixou de lembrar Kobe. “Se o Kobe pensa que eu consigo fazer isto… tenho de o fazer”. Assim foi.

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