Ginásios e outdoor

Ele atravessou o oceano Atlântico a remar sem qualquer ajuda

O antigo fuzileiro passou 119 dias no alto mar, entre tempestades, noites gélidas e calos. Muitos calos.
Bell tem 49 anos e é um antigo fuzileiro

O recorde estava por bater, até porque provavelmente nunca ninguém acreditou que se tratasse de um desafio para humanos. Quem é que no seu perfeito juízo arriscaria cruzar os mais de cinco mil quilómetros?

A resposta a esta pergunta foi dada por Dave Bell, o candidato improvável que tem um medo confesso de águas abertas e do escuro. Aos 49 anos, o antigo fuzileiro do exército britânico completou a difícil jornada de 119 dias no domingo, 26 de setembro, com a chegada a Newlyn, na Cornualha, na costa oeste do território continental.

“Estou bastante assustado com tudo, mas vou usar o medo para me dar força”, revelou Bell antes da partida que aconteceu em Nova Iorque. O temor era compreensível: pouco mais de 50 pessoas conseguiram completar a travessia, sempre com outros barcos a seu lado.

Bell decidiu enfrentar o frio intenso, as vagas com muitos metros de altura, as tempestades tropicais, os icebergues, tudo sem ajuda. Completamente sozinho e isolado no meio do oceano.

Porquê? Primeiro, pelo desafio, até porque o britânico pagou por todo equipamento e preparação. Em segundo, pela angariação de fundos que irá entregar os fundos a várias instituições de caridade no Reino Unido.

“Porque é que me vou meter nisto? Toda a gente me pergunta isso. A resposta é simples: quero ver se consigo”, revelou. “Não sou um atleta, tenho os típicos joelhos, ancas e costas de um fuzileiro. Já fiz algumas coisas duras mas, para ser honesto, não sei se o meu corpo vai aguentar.” Aguentou.

Foram 119 duros dias no meio do oceano

Não era contudo a primeira vez que remava. Apaixonou-se pelo desporto em 1997 e terá sido na Jamaica, já depois de ter abandonado a vida militar, que se lembrou do desafio. Anunciou o que queria fazer em 2018, para espanto de todos. “95 por cento das pessoas ficavam a olhar para mim, inexpressivas, a perguntarem-me ‘porquê?’. As outras cinco por cento ficavam fascinadas.”

Arrancou de Nova Iorque a 31 de maio, a bordo do seu Billy No Mates, que está longe de ser um mero barco a remos. Nem o poderia ser, se queria sobreviver sem apoio a uma travessia como esta.

Muito maior do que as tradicionais embarcações — tem um total de sete metros de comprimento —, está equipada com painéis solares, rádio e satélite, sistemas de monitorização da meteorologia, um purificador de água, uma cabine isolada onde se pode refugiar durante as tempestades, muita comida e até um tablet com filmes para os momentos de descanso.

A comida fresca que levou consigo durou apenas as primeiras semanas. A partir daí, restaram-lhe os alimentos secos e instantâneos. Bell fez também questão de não deixar qualquer vestígio de lixo no oceano — acumulava-o em pequenos sacos que organizava nas pausas, quando as marés calmas o permitiam.

“A coisa mais assustadora era a incerteza. Quando saí de Nova Iorque, estava a tremer, sentia-me doente”, conta já em terras britânicas. “E depois enquanto esperava pela chegada da primeira tempestade, não fazia ideia de como é que o barco se ia comportar, só podia largar a âncora, sentar-me quietinho e esperar sair vivo do outro lado.”

Remava uma média de 12 horas por dia e nos dias mais duros chegou aos 16. Já com a casa à vista, na aproximação às ilhas Scilly, na costa britânica, as más condições meteorológicas obrigaram-no a um esforço extra para bater as correntes: remou sem parar durante 40 horas.

Remar faz calos, muitos calos

Através dos equipamentos de comunicação por satélite, Bell conseguia enviar pequenos vídeos e imagens à sua equipa, que depois as colocava nas redes sociais, onde criaram um diário ao longo dos quatro meses de desafio. No Instagram foi possível acompanhar tudo, os dias de euforia inexplicável e os mais duros, quando Bell se mantinha refugiado na pequena cabine, protegido das tempestades.

“O que sentes enquanto estás no mar torna-se altamente exagerado”, notou à chegada. “Mas quando o oceano estava calmo, o silêncio era do mais profundo que já vivi, fazia-me sentir incrivelmente feliz.”

Em terra ficou Barry Hayes, o parceiro que revelava toda a jornada nas redes sociais. “O Dave tem uma fobia real a águas abertas e foi também isso que tornou tudo um verdadeiro desafio para ele”, explica.

A chegada aconteceu mesmo a tempo. Bell tinha apenas comida armazenada para mais um dia de viagem e acabou por escapar a uma tempestade de grandes dimensões na costa britânica.

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