Ginásios e outdoor

Ele é o homem mais azarado do mundo. E agora vai lutar pelo ouro olímpico

Joan Reinoso foi atingido por um raio, esteve em coma e ficou com sequelas para a vida.
Aos 30, é uma das estrelas dos Paralímpicos

Tinha 20 anos, sonhava ser bombeiro e gostava do mar. Foi também por causa dessa paixão que fez uma tatuagem com três símbolos: uma âncora, um peixe e um relâmpago.

A 6 de maio de 2012, o jovem de Maiorca saía de barco como costumava fazer. Dava apoio a Pedro Carbonell, então tricampeão mundial de pesca submarina, e nesse dia preparavam-se para um treino na baía de Pollença. Já no mar e sob um tempo simpático de verão, surge o azar dos azares.

O céu acinzentou-se e formou-se uma comum tempestade de verão com direito a chuva e trovões. Um dos muitos raios caiu sobre a baía e dirigiu-se ao barco onde estava Joan Reinoso. “Estava apoiado no barco que era de aço inoxidável e que serviu de condutor ao raio, que me apanhou durante a sua viagem”, explica o espanhol que recorda o que lhe foi dito, já que ficou sem memória do acidente.

O raio entrou no seu corpo pela mão esquerda e saiu pela cabeça. Do incidente, comenta com humor que se soubesse o que iria acontecer, em vez de um raio, teria “tatuado um boletim do Euromilhões”. “Hoje, tenho outra tatuagem: uma cicatriz que marca o percurso do raio sobre a minha pele.”

Quase dez anos depois, Reinoso recuperou do raro e bizarro acidente — diz o próprio que a probabilidade de tal acontecer em Espanha é de uma em dez milhões —, mas não sem sequelas. Mas nem por isso se deixou abater.

Sem poder seguir a carreira de bombeiro, virou-se para o desporto e é, hoje, uma das grandes esperanças de Espanha nos Jogos Paralímpicos de Tóquio que arrancam esta terça-feira, 24 de agosto. O percurso, esse foi tudo menos fácil — e voltou a colocar obstáculos a Reinoso que ganhou o título de um dos homens mais azarados do país.

Dessa manhã na baía de Pollença, pouco mais se recorda depois de sair para o mar. A única memória que guarda depois disso são os sons das máquinas do hospital. Ficou em coma durante 28 dias. Sobreviveu por pouco.

A sua recuperação foi um milagre

“Disseram-me que o meu corpo ficou negro, que cheirava a chamuscado”, recordou em 2018 ao “El País”. Nos primeiros dias, não fez mais do que abrir os olhos. “O meu corpo não obedecia às ordens do meu cérebro. É uma sensação horrível, de uma impotência brutal.”

O milagre aconteceu e não só sobreviveu ao raio como foi recuperando a mobilidade. O cérebro não tinha sido afetado e, portanto, continuava a ser o mesmo Joan de sempre. “Tenho um amigo mais forte do que um raio”, leu no grupo de Facebook criado pelos amigos para o apoiar, frase que deu também origem a um documentário sobre a sua recuperação.

Porém, a fisioterapia que se seguiu revelou que dificilmente Joan se moveria como o fazia até então. Aos 20 anos, teve que aprender novamente a caminhar. “Não foi só caminhar. Tive que aprender a fazer outras coisas básicas como ler, escrever e comer sem ajuda.”

Completamente consciente do que o rodeava, Reinosa frustrava-se de cada vez que tentava levantar um braço ou uma perna. “As minhas pernas não respondiam à ordem enviada pelo meu cérebro. Nem os meus braços. Concentrei todas as minhas forças na recuperação, enquanto o fazia, não dava em louco”, contava em 2020 ao jornal espanhol “Marca”.

Aos poucos, foi ganhando força e destreza, apesar de uma incapacidade de 78 por cento. Foi graças a um desafio do tio que conseguiu atingir o seu melhor nível. “Antes do acidente, disseste-me que gostavas de fazer um Ironman. E se o tentarmos?”, disse-lhe o tio. “Parecia uma utopia”, recorda Reinoso que, apesar das dúvidas, aceitou criar um plano de treino exaustivo. Dois anos depois do acidente, atirou-se às águas e nadou os 1,9 quilómetros da prova de natação.

“Acabei esgotado e saí da água aos tropeções, mas os aplausos das pessoas deram-me o impulso que faltava. Durante uns segundos senti-me o rei do mundo”, recorda. Apesar de não ter cumprido o tempo mínimo, estava radiante. “Nem o vencedor estaria tão feliz quanto eu.”

A prova despertou o gosto pelo desporto. Encontrou um escape na bicicleta. “Adorava a sensação do vento na face”, conta. Agarrou-se à bicicleta adaptada a pessoas com incapacidade e começou a treinar. Quando deu por ela, era um atleta de alta-competição — e em 2017 conquistava a medalha de bronze nos mundiais da África do Sul. No ano seguinte, melhorava o resultado para a prata em Itália.

Depois de tanto azar, Reinoso finalmente parecia ter pela frente os seus melhores dias. Os treinos intensificavam-se porque pela frente tinha outra meta, a de conseguir disputar os Jogos Paralímpicos de 2020 — que acabariam por ser adiados para 2021 por causa da pandemia. E para Reinoso, ainda bem que isso aconteceu.

Foi durante um treino, perto de casa, que em maio de 2020 sofreu novo acidente, ao ser abalroado por trás por um carro. “Ficou desfeita, sinistro total, inutilizável”, contou o espanhol sobre o estado em que ficou a bicicleta de três rodas. Por sorte, muita sorte, Reinoso escapou a potenciais lesões catastróficas — e à morte, novamente.

“Era uma reta de 20 metros e de repente comecei a balancear-me, parecia que a bicicleta se estava a desmontar”, recorda. Além de alguns golpes, arranhões e algumas dores lombares, o ciclista ficou sem ferimentos graves. “Ao ver como a bicicleta ficou, não consigo deixar de pensar o que teria acontecido se fossem as minhas pernas a ficarem por baixo do carro”, nota.

Foi campeão mundial da modalidade

Prometeu recuperar a forma, comprar uma nova bicicleta — as de competição custam entre 10 a 15 mil euros — e voltar ao ataque. Seis meses depois sagrava-se campeão nacional espanhol de ciclismo adaptado. E a 11 de junho, precisamente em Portugal, onde se realizaram os mundiais da modalidade, Reinoso conquistou o ouro.

Hoje é uma das grandes esperanças espanholas para o sucesso nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, mesmo depois de todos os azares, embora admita que existem momentos em que se perde nos pensamentos.

“Apesar de todas as conquistas, há momentos em que me encho de raiva, que penso que poderíamos ter sido mais cuidadosos e não ter saído ao mar a 6 de maio de 2012. Nada disto teria acontecido. Mas já não me atormenta a pergunta do ‘porquê eu?’”, escreve.

E o azar? Nem pensa nisso. “Hoje sinto que sou uma pessoa cheia de sorte. Trabalhei muito para chegar aqui.”

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