Ginásios e outdoor

Elisa sofreu de anorexia e bulimia, mas agora é uma estrela do bodybuilding

Chegou a pesar 36 quilos quando tinha 15 anos e teve de ser internada no hospital para perceber que realmente estava doente. Leia a entrevista da NiT
Hoje tem o corpo que sempre quis.

“Tudo o que queria era ter um corpo que achasse bonito e onde me sentisse bem.” Elisa Pecini tem 24 anos, mas desde muito nova que o peso e o corpo passaram a ser uma preocupação enorme na sua vida. Hoje em dia está a acabar o curso de Educação Física e dedica-se ao fisioculturismo em São Paulo, no Brasil. Foi assim que escapou da doença.

Desde os 13 anos que sofre de anorexia e bulimia nervosa, tudo porque o grupo de amigas decidiu começar a pesar-se todos os dias depois das aulas. Elisa tinha sempre o peso mais alto e isso começou a afetá-la: “Era uma brincadeira infantil sem sentido, mas comecei a sentir-me mal por ter sempre o peso mais alto e pensei que tinha mesmo de emagrecer.”

Em menos de um ano, passou de 54 para 36 quilos e teve de ser hospitalizada. Foi aí que se apercebeu de que realmente estava doente. “O exercício físico  foi a forma que encontrei para escapar da doença porque a comida tinha um propósito”, conta em entrevista à NiT.

A comida sempre foi um problema?
Não. Sempre gostei muito de comer de tudo e comia bastante. Não queria saber da alimentação. Quando entrei na adolescência, que é quando começamos a reparar mais no nosso corpo, as coisas mudaram radicalmente. A minha avó costumava brincar comigo e dizia que tinha de comer menos ou iria engordar. Nunca disse isso por maldade, mas houve um dia em que essas palavras passaram a incomodar-me. Comecei a pensar que realmente tinha de emagrecer. 

Como é que começou o processo de emagrecimento?
Queria ter um corpo que achasse bonito e em que me sentisse bem. Só que não sabia que tinha de me alimentar bem e que tinha de praticar desporto. Nunca tinha pensado em entrar para um ginásio. Aos 13 anos comecei a procurar na Internet formas para poder emagrecer. Não era gorda, mas tinha um pouco de barriga e isso incomodava-me. Queria emagrecer e acabei por encontrar blogues e até li entrevistas de raparigas que tinham anorexia, só que acabei por fazer o mesmo que elas.

Quanto é que pesava nessa altura?
Antes de começar a emagrecer tinha 54 quilos. Durante quase dois anos perdi 18 quilos. Comecei o tratamento, mas só fui regredindo. Esta é uma doença que só começa a melhorar quando percebemos que estamos efetivamente doentes. 

O peso tornou-se um problema

Não se apercebeu de que estava doente?
Na altura não achava que estava doente. Fui perdendo peso aos poucos porque perdia sempre um ou dois quilos de cada vez. Mas a dada altura as metas foram crescendo e crescendo e já não conseguia parar. Aos poucos fui emagrecendo cada vez mais. Comecei a ter bulimia e a diminuir na quantidade de comida, até parar mesmo de comer. Isso aos poucos foi-se agravando até que cheguei à anorexia e bulimia nervosa.

Quando é que começou a pensar que poderia estar doente?
Durante o tempo em que estive internada no hospital, um mês e uma semana, tentei sempre cumprir ao máximo com o que o médico mandava porque queria sair dali o mais rápido possível. Mas não tinha ainda consciência de que realmente estava doente. Antes de ser internada no hospital, já estava em internamento domiciliar. Não podia fazer nada. No tempo em que estive no hospital fui-me apercebendo de que estava a perder ali parte da minha adolescência. Além de que a minha família também estava a sofrer bastante. Isso pesou muito e quando saí do hospital, só pensava que não queria voltar. Foi nesta altura que comecei a ganhar consciência do que se estava a passar comigo e fui melhorando aos poucos. 

Qual foi o peso mínimo que atingiu?
Cheguei a pesar 36 quilos quando tinha 15 anos. Para mim, era uma coisa normal porque só queria emagrecer. Hoje, o meu peso é de 63 quilos, fora de palco. Fui internada com 15 anos e quando tive alta tinha 41 quilos. Disse aos médicos, e a mim mesma, que queria começar a praticar atividade física para que a comida tivesse um propósito e me ajudasse a atingir o corpo que queria. Comecei a praticar alguma atividade física em casa e também melhorei a minha alimentação. O médico só me deixava ir quando tivesse 51 quilos. Faltavam-me 10. 

Como é que foi o processo de recuperação?
O desafio mais complicado foi, sem dúvida, ver o peso a aumentar. Ter que engordar 10 quilos assustava-me. Porque dos 41 quilos aos 51, ainda não podia praticar exercício físico. Pensava sempre que o peso que estava a ganhar não estava a ajudar-me a conseguir o corpo que queria. Ao mesmo tempo também pensava que tinha que aumentar o peso para poder começar a treinar e a tonificar o corpo. Essa era a minha motivação. Quando comecei a ir ao ginásio, só podia fazer dois treinos por semana. Aos poucos comecei a poder ir mais vezes.

Em que é que o ginásio ajudou a doença?
Fui entendendo que a comida me dá energia para poder treinar. Preciso de me alimentar para poder treinar, para ser saudável e para ter o corpo que quero. Fui entendendo um pouco mais sobre nutrição, o que comer antes e depois de cada treino. Comecei a interessar-me pelo tema, pesquisei e comecei a gostar realmente de saber mais sobre aquilo que como. Acompanhava bastantes blogues e páginas de pessoas que iam postando coisas na Internet.

A competição faz parte da sua vida

Quando é que o fisioculturismo aparece na sua vida?
Um dia fui a um campeonato em São Paulo e pela primeira vez vi uma competição. Tinha 17 anos e fiquei encantada. Pensei que queria estar em cima do palco e começar a competir. Só que não fazia ideia do que tinha que fazer e achei que só podia competir quando tivesse 18 anos. Decidi esperar um ano e ir-me preparando para fazer daquilo a minha vida. Continuei a fazer os meus treinos e alimentação equilibrada durante um ano até começar a treinar para a competição. Na altura já tinha um nutricionista desportivo. Já levava uma vida de atleta, só que sem competir. Quando fiz 18 anos, procurei um treinador com experiência e foi quando comecei a interessar-me ainda mais pelo desporto.

Via o treino como uma forma de controlar o peso?
Não. Só comecei a poder fazer cardio muito depois de já estar a treinar. No início não podia. Treinava sem pensar em emagrecer ou em manter um certo peso. Já estava a treinar com o objetivo da competição, então o foco mudou.

Ver o peso aumentar deixou de ser um problema?
Há duas fases: competição e off season. Nesta última, temos de comer bastante para aumentar o músculo para depois o poder trabalhar para a competição. Há ainda alguns momentos em que a fase de ganho de peso é complicada porque gosto de estar mais definida, seca e tonificada. A fase de off season ainda mexe comigo, mas sei que é uma parte muito importante e que tenho de passar por aquilo para evoluir no desporto. 

O exercício físico foi a solução encontrada para conseguir ter o corpo que quer?
Sim, porque consegui entender que se comer bem e de forma saudável, vou conseguir ter o corpo que quero. Sei que praticando exercício físico, vou sentir-me bem. O desporto ajudou-me muito a fugir da doença e fez-me ver a enorme importância da comida. Para ter o meu corpo de sonho não tenho de ficar sem comer, mas exatamente o contrário.

Ter de perder peso para competir não provoca nenhum gatilho da anorexia?
Não. Vou perdendo peso de forma gradual e quase que nem me apercebo. Demoro bastante tempo até atingir o peso de competição então não vejo os números descerem tanto. Mas a anorexia é uma doença psicológica por isso fica connosco para toda a vida. Temos de ter um acompanhamento constante porque é muito fácil ter uma recaída. 

A sua vida mudou?
Completamente. Comecei a competir com 18 anos, tornei-me atleta profissional com 19, e com 20 anos participei na minha primeira competição. A partir daí nunca mais parei. Quero dedicar-me a 100 por cento ao exercício físico e à nutrição.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT