Ginásios e outdoor

Emília Cristina, 66 anos, skater. “Quero aproveitar a vida e experienciar tudo.”

Quer aproveitar o tempo que tem, preenchendo os dias o que adora fazer, incluindo trabalhar. É bordadeira de tapetes de Arraiolos.
Emília Cristina e o seu skate.

Envelhecer não tem de ser um tédio, muito menos um sinal de que a diversão e entusiasmo chegou ao fim. Emília Cristina tem 66 anos e uma energia e vontade de viver que não se vê em muitos jovens. Adora andar de skate, caminhar, perder-se pelo mundo e dedicar-se a bordar tapetes de arraiolos.

A sua ligação ao skate não é propriamente recente. Quando o filho tinha cerca de 6 anos, recebeu uma tábua — como lhe chamam os especialistas da modalidade. Emília adorou o presente e incentivou-o a praticar. Uns anos depois, a falta de tempo levou-o a desistir da modalidade. Na altura, a lisboeta ainda tentou pôr-se em cima do skate, mas com pouco sucesso. No entanto, nunca esqueceu esta pequena paixão pelo prancha com quatro rodas.

Em 2019, numa das suas muitas caminhadas por Lisboa cruzou-se com um grupo de miúdos a terem uma aula de skate. “Fui ter com eles e perguntei se faziam parte de alguma escola. Explicaram-me que sim e que a minha idade não iria ser um entrave. Marquei logo uma sessão e agora faço parte da família da Longxcool”.

Emília nunca se tinha aventurado muito, mas facilmente lhe apanhou o jeito. Caiu muitas vezes, porém sempre desvalorizou as quedas. “Estamos sempre muito bem equipados e protegidos. Além disso, fui judoca. Por isso, saber cair era uma coisa que já tinha aprendido”, revela à NiT. A sua forma positiva e bem disposta de encarar a vida leva-a a confiar na sua capacidade de ultrapassar os obstáculos — algo transversal a tudo o que faz, independentemente do grau de dificuldade. “Quando quero fazer alguma coisa, nunca desisto. Posso cair as primeiras vezes, mas persisto. E depois de algumas tentativas consigo. Foi assim com as subidas e descidas das rampas. Agora já o faço sem problemas. Nos próximos tempos vou tentar fazer as pumps, umas ondas que existem no skate parque”, explica. E continua: “Se cair, levanto-me e tento outra vez”.

Uma das coisa que a conquistou nesta modalidade é o desafio pessoal que implica. “Só dependo de mim. Salto para cima do skate e vou andando, ao meu ritmo”. E não é de agora que gosta de desportos individuais. “O que me conquistou no judo, quando tinha 14 anos, foi a mesma coisa”, lembra.

Emília gosta de se pôr à prova e guia-se pelos seus interesses pessoais e não por aquilo que os outros possam dizer ou pensar. “Quero andar, conhecer, descobrir. Quero aproveitar a vida e permitir-me  experienciar tudo”, realça. E acrescenta: “Há quem diga que já não tenho idade, que já não vale a pena. Mas é ao contrário. Agora é que vale a pena — tenho mais tempo, disponibilidade e menos preocupações. Ainda tenho muito para fazer”. E por essa razão que dá tanto valor ao tempo: “É a coisa mais preciosa que temos. Devemos aproveitá-lo com coisas que gostamos de fazer e que nos dão prazer”.

A sexagenária aplica esta máxima a todas às áreas da sua vida, mesmo ao trabalho. “Sinto que não trabalho verdadeiramente há anos, porque gosto mesmo muito daquilo que faço”, explica. Emília é artesã — borda tapetes de Arraiolos e tem uma loja na rua Actor Vale (na Penha de França) chamada “Pedro e a Loja”. Além de criar autênticas peças de arte também recupera os tapetes antigos das clientes.

Apesar de adorar o que faz, reserva um dia na semana para se dedica a todas as outras coisas que gosta de fazer. Chama-lhe o “dia sexual”, porque, à semelhança dos ditames de algumas religiões é o dia em que se podem dedicar aos seus prazeres. E é nesse dia que vai às aulas de skate, que dá os seus passeios e que se dedica a outra atividade que mais adora: observar pessoas.

O grande sonho: dar a volta ao mundo a pé em três anos

Quando não está a tentar equilibrar-se na tábua com rodas, Emília gosta de percorrer muitos quilómetros a pé. É a sua forma favorita de descobrir novos lugares e cidades, com tempo para tudo à sua volta. Intitula-se de “caminhante” e são aventuras como a de percorrer o caminho francês para Santiago de Compostela que a fazem vibrar. “É a próxima grande caminhada que quero fazer. Quando penso nisso o meu coração até bate mais depressa, de entusiasmo”, afirma.

Projetos não lhe faltam e Emília acalenta outro grande desejo: quer dar a volta ao mundo a pé, em três anos. Atualmente a governar os destinos da loja que antes lhe encomendava inúmeros tapetes, Emília vai ter de delinear um plano antes de partir para esta grande aventura. Ou arranja alguém que aprenda o ofício e seja um apaixonado por lãs como ela, ou terá de realizar o sonho por etapas.

A viagem em si será mais fácil de planear, até porque já imaginou como se irá “perder pelo mundo”. De Lisboa seguirá para o norte e continuará para Espanha. Depois de atravessar o país vizinho continuará a caminhar até chegar ao sul de França e daí irá partir à descoberta dos Pirinéus. Dali para a frente não tem mais planos, quer apenas deixar-se ir ao sabor da aventura.

Enquanto não realiza este sonho, a skater palmilha as ruas de Lisboa as passos enérgicos ou na sua longboard — todos os dias, exceto às quintas-feiras. No “dia do prazer”, como lhe chama, estará num dos vários parques de skate da capital. Não tarda é provável que esteja a fazer uns ollies e a desafiar a gravidade e a vida.

Carregue na galeria para ver Emília em ação com o seu skate.

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