Ginásios e outdoor

Emma Raducanu: a miúda que se tornou no maior fenómeno do ténis mundial

Aos 18 anos, conseguiu a proeza de vencer o Open dos Estados Unidos quando ocupava apenas a posição 150 do ranking.
A vitória total em Nova Iorque

“A certa altura, a meio do jogo, larguei a raquete porque não acreditava que tinha conseguido fazer aquela jogada”, confessou a jovem tenista de 18 anos depois de uma entrada de arromba nos relvados de Wimbledon em junho deste ano.

Chegou ao maior palco do ténis mundial dois meses depois de completar os exames nacionais do ensino secundário. Era a número 338 do ranking mundial feminino. Apesar de lhe reconhecerem talento e potencial, ninguém esperaria que a jovem britânica de origem chinesa e romena fizesse o que fez.

Nos dias que se seguiram, despachou sem piedade três das melhores tenistas do mundo, rumo à quarta ronda do torneio. Problemas respiratórios obrigaram-na a desistir da partida frente a Ajla Tomljanovic, mas a proeza estava feita. Raducanu tinha conseguido o feito improvável de conquistar um lugar nas melhores 16 tenistas da prova.

Mais: este era apenas o seu segundo grande torneio; e foi nele que se consagrou como a primeira estreante britânica a chegar tão longe nos últimos 42 anos. Tudo isto bastaria para estarmos a contar uma maravilhosa história de superação, mas há mais. Muito mais.

Dois meses depois, a mesma Raducanu chegava com outro brilho ao US Open. Já não era uma absoluta desconhecida, apesar do seu baixo ranking e estatuto a obrigarem a enfrentar a fase inicial de qualificação.

Quando viajou para os Estados Unidos, reservou imediatamente a viagem de regresso para o final da fase de qualificação. Sonhava poder ir mais longe, mas acreditava que seria pouco provável. Ela e a maioria dos seguidores da modalidade.

A verdade é que as vitórias foram-se acumulando. A qualificação ficou para trás, as adversárias mais fortes foram-se perfilando — e uma a uma, todas foram derrotadas pelo ténis alegre de Raducanu.

Feitas as contas, a tenista completou 10 vitórias consecutivas sem perder um único set. Na final encontrou outra jovem, Leylah Fernandez, canadiana de 19 anos, que também não teve força para resistir a Raducanu.

Nascida em Toronto, no Canadá, filha de pai romeno e mãe chinesa, mudou-se com a família para Inglaterra com apenas dois anos. Foi no Reino Unido que começou a jogar ténis com apenas cinco anos, embora não fosse certo que seria esse o seu desporto de eleição, mais de uma década depois.

Praticou quase todos os desportos que havia para praticar. Fez equitação, nadou, fez triplos no basquetebol e aventurou-se nas duas rodas das motas de motocross. Os motores são, aliás, uma das suas grandes paixões.

Raducanu nas pistas de motocross

Embora a mãe a puxasse para atividades menos arriscadas, como as aulas de ballet e sapateado, foi Ian, o pai, que a cativou pela adrenalina. “O meu pai adora tudo o que seja diferente”, explica Raducanu à “Vogue”. “Ele não estava minimamente preocupado com o que as outras pessoas poderiam pensar na altura.”

“Pilotei karts durante um ou dois anos quando era mais nova, tinha para aí oito anos. Depois aos 10 fiz a transição para o motocross”, revela Raducanu. “Adoro desportos motorizados, mas não podia continuar à medida que a minha carreira no ténis progredia”, nota. “Acho que até não tem corrido mal.”

Não foi apenas com as vitórias que Raducanu conquistou o público, primeiro o britânico, depois o resto do mundo. A incredulidade estampada nas caras dos espectadores em Wimbledon só era superada pela da própria tenista que, embora confiante nas suas capacidades, também julgava improvável um sucesso tão grande, tão cedo.

Os sorrisos após cada ponto, a alegria com que respondia a cada jogada, a cada grito das bancadas, tornaram-na numa imediata favorita do público. A par da boa disposição estava à vista uma serenidade de ferro, traço que, explica a própria, roubou aos pais.

“Acho que a calma e a força mental têm a ver com a forma como fui criada. Os meus pais ensinaram-me desde cedo a ter uma atitude positiva no court”, conta. “Quando era mais nova, era impensável que demonstrasse qualquer tipo de má atitude no court. Desde cedo que aprendi isso e tenho-o mantido até hoje.”

Apesar de toda a força mental, esbarrou com um obstáculo imprevisível na quarta ronda de Wimbledon: o seu próprio corpo. Explicaria mais tarde que tudo não passou de falta de preparação.

Forçada a desistir em Wimbledon por dificuldades respiratórias

“Não tenho jogado tanto, quando comparado com as outras raparigas que estão em tour há mais de 10 anos”, explicou depois da partida. “De repente, começo a jogar a esta intensidade durante semanas a fio… Foi completamente novo para mim.”

A tenista britânica não estava, de facto, habituada a ver-se inferiorizada perante os colegas. Aliás, nos seus tempos de motociclista, estava quase sempre rodeada de rapazes. “Era a única rapariga que fazia motocross e andava em karts. Achava que era mesmo fixe”, recorda. “Lembro-me do professor de motocross nos pedir para fazermos flexões. Eu fui a única que conseguiu. Estava tão orgulhosa.”

Da vitória nas flexões à vitória total no US Open, Raducanu garante que continua a ser a mesma miúda. À sua volta, o mundo talvez discorde — e os números não enganam.

Em três meses, tudo mudou. Partiu para Wimbledon na 336.ª posição do ranking. Chegou ao US Open no 150.º posto e agora, terminada a prova com uma vitória, Raducanu está bem lá em cima na 23.ª posição. Mas a medição pode também ser feita através de outro número.

Partiu para Nova Iorque com pouco mais de 400 mil fãs. Depois da vitória, o número disparou para os 1,6 milhões — uma subida de mais de um milhão no espaço de poucos dias. Para isso muito contribuiu não só a performance, mas também as constantes entrevistas — e uma maravilhosa sessão fotográfica para a “Vogue”.

Da mesa da escola para a “Vogue”

E convém não esquecer que a costela chinesa de Raducanu abre a porta a milhões de potenciais fãs. A tenista sabe-o e, como fluente em mandarim, fez questão de deixar uma mensagem de agradecimento na língua da mãe aos adeptos chineses.

Sob uma chuva de elogios — Martina Navratilova referiu-se a ela como “um produto quase acabado quando ainda está a começar” —, Raducanu tem um desafio pela frente: concretizar todas as enormes expectativas que criou no mundo do ténis ou desaparecer tão rapidamente quanto surgiu nos courts.

Apesar de não terem podido estar presentes na final por questões de passaportes e restrições Covid, os pais de Raducanu são uma peça fulcral nesta equação. “É muito difícil conseguir agradar-lhes, têm sempre as expectativas muito altas”, confessa a jovem tenista sobre os pais.

“É também esse um dos motivos pelos quais quero fazer boas performances”, nota, apesar de sublinhar que são também eles que a ajudam a “manter-se humilde”. “Acho que eles fizeram um bom trabalho, porque sinto que, de certa forma, nada mudou muito com a vitória. Voltei imediatamente ao trabalho”, confessa.

Perante a potencial vertigem da fama, Raducanu mostra-se impenetrável. “Os meus pais ajudam-me a não subir demasiado alto, mas também a não cair no fundo quando as derrotas chegam.” Mas será que também festejaram a gigantesca vitória no US Open? “Disseram-me que ‘tinham orgulho em mim’. Também não precisava mais do que isso.”

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