Quando descobriu o ioga naturista há mais de uma década, Lino Martins nunca imaginou que faria aquele tipo de modalidade. Embora a ideia o atraísse, havia um obstáculo difícil de ultrapassar. “Tinha muita vergonha”, conta à NiT.
Com o tempo, o receio desapareceu e acabou por dar lugar à curiosidade. “Fui a uma praia deserta com o meu marido e um amigo nosso que também era praticante de ioga e fizemos lá umas posturas enquanto fazíamos nudismo.” O sentimento foi tão libertador que agora, aos 45 anos, lidera aulas regulares de ioga naturista em Lisboa, exclusivas para homens.
O interesse “na versão de ioga com roupa” surgiu quando era miúdo. Na altura, era comum ler livros que os pais tinham em casa sobre esta atividade e foram estes que acabaram por despertar a sua atenção para a prática. Em 2004, começou a frequentar aulas num ginásio.
O envolvimento tornou-se cada vez mais sério. Tanto foi assim que, apenas quatro anos depois, já estava a dar aulas de ioga e Pilates e em 2016 tornou-se mesmo professor de outros profissionais.
Apesar de conhecer o conceito de ioga naturista desde 2010, só vários anos depois decidiu experimentá-lo perante outras pessoas. A oportunidade surgiu graças aos seguidores no Instagram, que começaram a insistir para que organizasse aulas. Acabou por aceitar o desafio em 2021.
A estreia, porém, esteve longe de ser tranquila. “Quando dei a primeira sessão, senti muito pânico”, recorda. O nervosismo foi amenizado graças à ajuda dos participantes. “As pessoas que estavam lá já tinham feito nudismo e seguiam-me nas redes há muito tempo. Trocávamos mensagens e foi quase como uma aula de amigos.”
Se o primeiro contacto foi marcado pela ansiedade, a experiência trouxe-lhe uma sensação inesperada. “Senti muita liberdade”, recorda à NiT. Com o passar dos anos, habituou-se à dinâmica e deixou de sentir desconforto por estar nu perante os alunos.
Foi também durante estas sessões que percebeu uma vantagem prática da ausência de roupa. Segundo o instrutor, a nudez permite observar com maior precisão o alinhamento corporal dos praticantes durante os exercícios. Isso facilita a identificação de assimetrias, desvios posturais ou problemas articulares que podem passar despercebidos quando o corpo está coberto.
As aulas decorrem na Ameixoeira, na zona do Lumiar, na Escola do Amor, um espaço dedicado a práticas de desenvolvimento pessoal e tantra, que Lino aluga para realizar as sessões. Atualmente acontecem às segundas e quartas-feiras, às 19h15, e duram cerca de uma hora.
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A estrutura segue um modelo semelhante ao de uma sessão tradicional, embora exista uma componente relacional mais forte logo no início. “Começam com um abraço porque traz imensos benefícios a nível emocional”, explica.
Depois, cada participante desenvolve a prática no seu tapete, passando por diferentes posturas e exercícios. Em alguns momentos, os alunos trabalham em pares, ajudando-se mutuamente na execução das posições. Tudo termina com um período de relaxamento.
A prática é destinada a todos aqueles que se identificam como homens. Embora a maioria dos participantes seja gay ou bissexual, Lino sublinha que as aulas não foram criadas exclusivamente para a comunidade LGBTQIA+ — já recebeu também homens heterossexuais.
Atualmente, grande parte dos inscritos são estrangeiros, de países como Venezuela, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, Argentina e Luxemburgo. Para o fundador, a adesão relativamente reduzida de portugueses está relacionada com a forma como a nudez continua a ser encarada por cá.
“O português é muito tímido. Ainda há o pensamento de que a nudez é promiscuidade e que devemos tapar-nos, quando nós nascemos nus. É a coisa mais natural.”
Esta perceção leva também a alguns equívocos sobre a natureza das aulas. O professor garante que o foco é exclusivamente a prática de ioga e o desenvolvimento pessoal. “Quando alguém entra em contacto comigo e vem com esse tipo de perguntas, se pode haver isto ou aquilo, eu nem digo a morada e explico que não é para essas coisas. O foco é o ioga.”
Ao longo dos últimos anos, o feedback dos participantes tem sido bastante consistente. Além dos benefícios tradicionalmente associados à modalidade — como o aumento da flexibilidade, do equilíbrio, da resistência e da força muscular — os alunos destacam sobretudo mudanças na relação com a própria imagem.
“O que os meus alunos me dizem é que começam a olhar para as gordurinhas que têm e que não são tão instagramáveis e passam a viver melhor com isso”, refere. “Eu aceito todos os tipos de corpos.”
As aulas têm um limite máximo de 14 participantes. O professor já chegou a receber grupos de 18 pessoas, mas concluiu que números mais reduzidos permitem um acompanhamento mais próximo e facilitam as correções individuais.
Quanto aos preços, a mensalidade custa 55€ para quem frequente uma aula por semana; e 85€ para quem participa em duas sessões semanais. As inscrições podem ser feitas online.
Carregue na galeria para ver algumas imagens destas sessões de ioga nudista na Escola do Amor.








