Ginásios e outdoor

Eubrite, a excêntrica personagem que anda a conquistar a calçada de Lisboa de patins

Patina pela calçada portuguesa ao som de Britney Spears. A NiT foi conhecê-la.
Eubrite, a patinadora de Lisboa.

Não é preciso ser de Lisboa para já se ter deparado com umas colunas de som a bombar música de Britney Spears pelas ruas da cidade. Ali por perto, muitas vezes num piso de calçada portuguesa, geralmente a canção vem acompanhada de uma patinadora, num fato super justo vermelho ou um disfarce completo (fora a máscara) do Homem-Aranha.

Foi nesta segunda versão que a NiT se encontrou com a personagem, na Rua da Rosa. Esta é a história de Eubrite, a patinadora que se tornou de forma curiosa uma parte integrante de Lisboa.

Eubrite conta com página no Instagram mas é nas ruas da capital portuguesa que se tem destacado. Traz um toque pop, colorido e de bom humor. E fá-lo com uma técnica já aprimorada sobre patins. “Jarbas”, como se apresenta, é o performer por trás da performer. A NiT falou um pouco com ela antes de descobrirmos, contada pela própria, a história desta personagem.

“O Jarbas já patinava há algum tempo”, há cinco anos, conta-nos. “Mas a Eubrite só começou a patinar há três anos”, na altura em que o Jarbas regressou do Brasil.

Eubrite é apenas uma de um leque de personagens do seu criador. Há uma Eunice, que retrata o dia a dia no seu trabalho, a Nega Maluca, que é um boneca de pano, entre outras. Mas quem tem andado pelas ruas de Lisboa é a patinadora.

A sua estreia foi na Rua Augusta, em 2018, ainda de dia. “A reação das pessoas foi de curiosidade”, recorda. “Sou o único artista que se apresenta nas ruas de Lisboa de patins. As pessoas não sabiam se me estava a apresentar, a treinar. Não sabiam o que eu estava a fazer ali. Só quando ligava as colunas de som percebiam que era uma performance”.

Eubrite nasceu há três anos.

É certo que nos últimos anos Lisboa viu crescer o número de ciclovias. Mas ali no centro da cidade, entre a Baixa, o Chiado e o próprio Bairro Alto, com a calçada portuguesa, o piso está longe de ser o mais amigo para quem anda de patins. Para a Eubrite, isto não era apenas um obstáculo do cenário. Era algo que faria parte da narrativa da personagem.

“É um desafio”, confirma. “E pessoalmente é um desafio que mostra a necessidade de conquistar um espaço diferente. Se eu patinar num lugar liso, vou ser comum. Mas essa dificuldade dá-me um diferencial. As pessoas percebem que é preciso algo. A Eubrite tem aquela habilidade de poder desviar de cada pedrinha que pode causar uma queda.”

“Tenho de trabalhar com o meu humor, tenho de estar sempre sorrindo, bonita, mas tenho que ter técnica”. A própria cidade de Lisboa é parte da personagem. “Ela surgiu para poder desafiar esse caminho, tão típico de Portugal que é conhecida no mundo”, conta-nos.

Com uma figura esbelta, com uma roupa justa e cores que prestam tributo à inspiração Britney Spears (já lá vamos), seria de imaginar que esta é uma performance que requer um treino muito específico. Sim e não. Passamos a explicar.

Jarbas não é especialmente rigoroso com a alimentação mas o treino está lá, como uma constante. Todos os dias (e é raro haver dias em que não patina rua fora), patina três a quatro horas, “até acabar a bateria da coluna de som”. Por vezes a dose é dupla, com uma performance pela manhã e outra à noite.

Este duplo horário traz experiências diferentes com aqueles a quem chama “baby Brite”, os fãs que a têm descoberto nesta conquista muito peculiar das ruas de Lisboa. O público de dia é animado mas mais sóbrio. Nas performances à noite, pelo ambiente e por vezes com a ajuda do álcool, as pessoas estão mais desinibidas. Interagem mais. E com o adiantar da hora, o momento até rende mais financeiramente. “Como estão a ir embora para casa, não vão gastar mais aquele dinheiro., Portanto o que têm no bolso dão-me. Se calhar até era dinheiro que nem me queriam dar, mas é quase uma resposta: ‘olhe, você alegrou a minha noite’”. “Tome, é tudo o que tenho” foi frase que já ouviu um sem número de vezes.

À NiT, Eubrite conta que o público brasileiro é mais “ousado”, mais facilmente pedem fotografias e até a abordam nos momentos em que Eubrite deixa de ser Eubrite. Jarbas conta-nos que faz questão de manter a personagem apenas dentro da performance. Em geral, o público “é muito respeitador”. Percebe o que se passa.

Desafiar a calçada faz parte da personagem.

Em Lisboa, as experiências são sempre fruto das circunstâncias. Os turistas, em particular os europeus, têm sido uma boa surpresa. “Têm uma noção diferenciada sobre a arte de rua e sobre este corpo, que representa um corpo feminino, uma personagem, movimento”. São, ainda assim, algo tímidos. Os seus compatriotas, com o tal lado mais ousado, são mais propícios a partilhar o trabalho nas redes sociais, numa bem disposta fotografia. E os portugueses?

“O público português tem aceitado a minha imagem. No começo foi muito difícil”, recorda. “Viam-me como baderna, como desordem, como uma desorganização do espaço público. Hoje não, percebem que faço parte desse espaço, faço parte da história. Também sou atrativo turístico, até que o dinheiro que me dão uso aqui”.

Demorou algum tempo para chegar aqui. “Ainda hoje sinto uma certa dificuldade”. Com a Eubrite, no entanto, Jarbas percebeu que a personagem tinha outros atributos. O lado pop, por exemplo, não estava cristalizado no início da personagem. Na verdade, começou com uma homenagem aos portugueses “mas que não foi bem interpretada”. Caíram outras referências como o fado, que houve quem se sentisse afrontado.

A Eubrite nasceu sem o contexto da Britney famosa. Era apenas referência a um nome que eu gosto, Brite, não Britney, mas associaram a personagem a outras performances de divas loiras que eu fazia. E quando coloquei a música do ‘Oops!… I did it again’, foi como se estivessem num show. As pessoas ficaram empolgadíssimas.”

A personagem evoluiu de acordo com a resposta das pessoas. “É uma personagem que respirava lentamente e ganhou fôlego. Essas pessoas são o oxigénio de que preciso, antes sufocavam-me, não me faziam querer brilhar, e hoje ponho o fato vermelho e as pessoas percebem.”

Para lá da arte, há, no entanto, méritos muito específicos que podem escapar facilmente ao olhar quando vemos uma sorridente Eubrite a subir por uma das ruas fora, até aos Armazéns do Chiado. O percurso a pé já teria algo de íngreme. Já imaginou como seria fazê-lo a patinar, entre calçada e turistas?

Imagine agora fazê-lo sem nunca sair da personagem, de sorriso bem aberto mesmo que haja por ali alguma gota de suor já escondida a denunciar o esforço. “Ali é o meu desafio maior”, conta-nos sobre Lisboa. A boa forma não precisa de mais treino fora da performance. São horas seguidas, dia após dia. Eubrite só descansa mesmo quando descalça os patins.

O Chiado e a Rua Augusta estão mesmo entre os espaços da cidade que Eubrite mais gosta de conquistar mas é também comum ver as performances no Largo do Intendente, com um piso mais convidativo à patinagem. Em tempos de pandemia, já houve alguns ajuntamentos no limite da lei. “Às vezes a polícia chega lá e é inevitável. Vou eu e toda a galera embora, escoltada pela polícia”, ri-se.

Com a pandemia, Eubrite viu-se mais longe dos espetáculos de rua do que desejava mas tem crescido uma segunda fama, online, e que lhe tem valido convites para filmes e videoclipes. Eubrite anda aí, de Lisboa para o mundo. É, na verdade, uma personagem “para o mundo”. “Mas o palco principal dela vai ser sempre onde nasceu”.

“Eu construí uma história aqui, adquiri respeito das pessoas. Eu não sou mais uma baderna, eu sou uma obra de arte das ruas”. De Lisboa, claro.

Há muito mais técnica do que possa parecer.

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