Ginásios e outdoor

Fábio Antunes fez 7 maratonas numa semana, em 7 países — foram 300km a correr

O engenheiro informático concluiu o percurso em 36 horas, 28 minutos e 15 segundos. Angariou mais de 800 euros.
Fábio correu quase 300 quilómetros e passou por 7 países.

Fábio correu com chuva, frio e dores. Nada o fez desistir do desafio para o qual se preparou durante um ano. Já em 2019 estava disposto a enfrentar qualquer prova, mas a pandemia trocou-lhe as voltas. Em 2021 decidiu que iria correr quase 300 quilómetros em apenas 7 dias. Parecia um prova impossível de concluir e envolveu muita preparação física e mental — no final, o sentimento de vitória e dever cumprido vingou.

Atleta amador, dedicou-se à corrida em 2016: cinco anos depois conseguiu correr sete maratonas em sete dias consecutivos e em países diferentes. A prova começou na Suíça, dia 16 de outubro, e seguiu para França, Itália, Liechtenstein, Áustria, Alemanha e terminou no Luxemburgo, dia 23 desse mês.

Fábio Antunes é engenheiro informático na Checkout.com, em Londres. Os dias intensos deixam-lhe pouco tempo para praticar desporto com os amigos e as as corridas ao sábado de manhã rapidamente se tornaram rotina — e uma forma de se manter em forma e lidar com o stress do trabalho. Em entrevista À NiT, Fábio conta que esteve quase desistiu a meio da prova.

Quando é que começou o seu gosto pela corrida? 
Sempre gostei de fazer exercício físico, mas não considerava a corrida muito apelativa. Depois de acabar a faculdade, quando comecei a trabalhar, senti que tinha menos tempo para tentar combinar alguma coisa com os amigos. A corrida surgiu como um escape ao sábado de manhã: juntávamo-nos para fazer exercício físico, para manter a forma física e lidar com o stress do trabalho. Até 2017 corria apenas por gosto —não tinha grandes objetivos pessoais.

Porque decidiu aventurar-se num desafio desta dimensão?
Em 2018 completei a primeira corrida de 10 quilómetros, e comecei achar que se calhar conseguia correr a meia maratona (cerca de 22 quilómetros). Consegui. E, em 2019, já corri duas maratonas completas (42 quilómetros). A partir desse momento, decidi traçar novos objetivos: correr mais rápido ou uma distância maior, por exemplo. Em 2019 estava numa excelente forma física, mas entretanto as provas foram todas canceladas por causa da pandemia. Nos últimos dois anos dediquei-me apenas ao treino. Em 2021 decidi voltar às provas e escolhi fazer a derradeira: sete maratonas em sete dias consecutivos, sempre em países diferentes.

Como é que se preparou para fazer essa prova das sete maratonas?
Em agosto de 2020 percebi que estava num patamar em que já não conseguia evoluir sozinho, então contratei um treinador de corrida, o ultra maratonista James Williams. Treinava a distância aos fins de semana, quando tinha mais tempo livre. Treinava cinco a seis dias por semana e com diferentes objetivos: corridas de longa extensão, corridas mais focadas em manter o ritmo constante e corridas de mais intensidade. Às quintas e sextas-feiras fazia corridas mais intensas para chegar a sábado e domingo fisicamente mais cansado. Esta era uma forma de simular o que iria acontecer na semana das provas.

O treino consistia apenas em correr?
Também traçamos um plano para garantir que não ia ter problemas musculares ou lesões. Fazia treino de musculação três vezes por semana, umas vezes mais focado na criação de massa muscular e noutras em alongamentos. Durante um ano preparei-me para tudo o que poderia acontecer nesta prova. Também tive de me preparar mentalmente para este desafio — até à data só tinha corrido duas maratonas individuais. Era importante acreditar que ia conseguir cumprir o desafio até ao fim. Também adaptei a alimentação antes, durante e depois de cada maratona: se por qualquer motivo atingisse as reservas mínimas de energia, podia pôr em causa a maratona do dia seguinte. O plano de treino foi dividido em quatro fases: física, psicológica, alimentação e hidratação.

Como se organiza uma prova com sete corridas em sete países?
A prova foi organizada pelo Runinhi Club, um clube de corrida de Inglaterra. Os países foram escolhidos por serem relativamente perto uns dos outros. Mesmo assim, as distâncias eram de quatro a seis horas de carro. Ainda tentámos que a nossa primeira maratona, em Genebra, coincidisse com a primeira maratona da cidade, mas como este ano muitos eventos foram adiados, acabou por não acontecer. Seria realmente muito interessante se tivéssemos conseguido fazer coincidir as sete corridas com as maratonas oficiais em cada país — problema é que as provas são sempre organizadas ao fim de semana. Para ser feita em sete dias consecutivos era impossível arranjar países com maratonas durante os dias úteis. 

Com as viagens, como é que conseguiam descansar e recuperar entre as maratonas?
O truque para descansar foi, a seguir a cada maratona, usar as pernas o mínimo possível. Nas três maratonas na região dos Alpes cheguei a pôr as pernas na água gelada do lago Léman, o que me ajudou bastante a recuperar. Além disso, fazia alongamentos ligeiros todos os dias a seguir às maratonas. E até cheguei a fazer algumas massagens nas pernas à noite, antes de dormir. Também aplicava uma camada de gel para combater a inflamação das articulações, principalmente porque o meu tornozelo começou a ficar inchado a meio da semana. A rotina durante essa semana era correr, jantar, tentar dormir o máximo possível, tomar um bom pequeno-almoço e seguir viagem para o país seguinte. 

Fábio correu em sete países diferentes, dos Alpes Suíços ao Luxemburgo.

Quais foram as principais dificuldades que encontrou durante as sete maratonas?
Nas primeiras duas ou três maratonas, a maior dificuldade foi tentar conter a emoção e a alegria de estar a fazer este desafio. Tinha de me concentrar para não correr muito depressa, para conseguir manter um ritmo sustentável em cada maratona — porque estas não eram provas para estar preocupado com o tempo, mas sim com o facto de ter de correr no dia seguinte. Quando preparei a estratégia psicológica para as sete provas, pensei sempre que o quarto dia seria um bom dia. No entanto, nesse dia apercebi-me de que ainda teria de percorrer uma distância igual à que já tinha feito — isso foi desmotivante. Já no quinto dia, na Áustria acordei com o tornozelo direito inchado, estava a chover torrencialmente e não conseguia correr por causa das dores. Os primeiros cinco quilómetros foram feitos a caminhar. Estava desanimado, com frio e pensei desistir. Pelas minhas contas, iria demorar mais sete horas até conseguir acabar a prova e achei mesmo que não ía aguentar.

Como conseguiu arranjar motivação para continuar?
Durante os treinos com o James tinha traçado uma estratégia para estes momentos mais desafiantes e preparei uma lista de discursos motivacionais. Comecei a ouvi-los nesse momento e, aos poucos, lá me foi passando a vontade de desistir. Comecei a correr devagar e consegui terminar. Essa foi a maior dificuldade da prova. Depois desse dia fiquei super confiante: a dedicação e disciplina necessárias para treinar para uma prova desta dimensão ajudaram-me a não desistir. 

Porque é que escolheu a Associação Diabetes UK para fazer a angariação de uma libra por quilómetro percorrido?
Primeiro tinha o objetivo de conseguir angariar uma libra por quilómetro, mas acabámos por conseguir doar mais de 800 euros. Escolhi esta associação porque pensei nas dificuldades com que as pessoas com diabetes vivem. Muitas delas adoravam fazer uma vida normal, e não conseguem. O meu pai tem diabetes e sei o impacto que isso tem no seu dia a dia. Escolhi a Diabetes UK porque achei que conseguia mais doações no Reino Unido do que em Portugal, mas no futuro também gostava de ajudar a Associação Protetora de Diabéticos de Portugal. 

Depois destas sete maratonas, já planeou o próximo desafio?
Ainda este ano quero correr 100 quilómetros consecutivos com um amigo, mas esse é apenas um desafio pessoal. Em Abril de 2022 vou participar na maratona da Madeira mas depois ainda não tenho nenhum desafio concreto. Talvez venha a participar de um desafio que alguma organização já esteja a planear, ou então crio o meu próprio desafio pessoal. Mais ambicioso.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT