Ginásios e outdoor

Francisco fez 414 quilómetros de bicicleta para não faltar a um jantar com os amigos

O fotógrafo natural de Matosinhos partiu às quatro da manhã e chegou antes do resto do grupo, que viajou de carro.

Quando chegou ao Alentejo, Francisco Mateus não queria comida digna de uma estrela Michelin. Queria apenas algo com sal e bem português. Para o fotógrafo, não haveria recompensa melhor após ter pedalado 414 quilómetros. O motivo que o levou a este desafio? Não queria faltar a um jantar com os amigos.

“Estava com muita vontade de comer um bom queijinho e presunto”, conta à NiT. A estas entradas juntou-se uma grande dose de bacalhau com grão.

O grupo tinha combinado encontrar-se em Campo Maior para jantar a 6 de agosto e, no dia seguinte, conhecer as Festas do Povo, que regressaram à vila depois de uma ausência de 11 anos. Enquanto os colegas chegaram de carro, Francisco apareceu de bicicleta após ter partido de Matosinhos, onde vive, de madrugada.

A ideia para este desafio surgiu três semanas antes, numa conversa com a namorada. O grupo já tinha por hábito passar férias em conjunto e, no ano anterior, Francisco também se deslocou de bicicleta (dessa vez para Marco de Canaveses). 

 “Ela perguntou-me se desta vez eu iria de bicicleta e eu respondi que nunca na vida faria isso. Parecia impossível.”

No entanto, a ideia ficou-lhe na cabeça. Aos poucos, começou a ficar entusiasmado, mas havia uma condição: a namorada teria de acompanhá-lo de carro, para garantir que haveria sempre água, alimentação e todo o apoio necessário ao longo do percurso.

Francisco já tinha experiências em distâncias longas: em outubro do ano passado, quando fez 28 anos, percorreu 280 quilómetros. Desta vez, contudo, só tinha três semanas para preparar o corpo. “Comecei a treinar mais regularmente”.

A bicicleta acompanha a vida de Francisco desde muito antes destes desafios. “Quando éramos miúdos, pelo menos na minha geração, havia muito aquele sentimento de liberdade e gostávamos de ir para a rua e estar em contacto com a natureza”, recorda à NiT.

O que era apenas um passatempo tornou-se mais sério graças a “Morangos com Açúcar”, série juvenil exibida na TVI entre 2003 e 2012. “Houve uma temporada em que eles praticavam downhill, a vertente mais radical do BTT. Via-os a descer as montanhas e a fazer as manobras e achava fantástico.” 

Natural de Matosinhos, Francisco formou-se em Engenharia Mecânica, mas não trabalha na área. Desde 2021 começou, sim, a construir um negócio de fotografia e vídeo ligado ao ciclismo. Há cerca de um ano que trabalha como freelancer fulltime dentro deste meio.

Francisco tanto pratica BTT como ciclismo de estrada, embora de forma mais casual — antes participava em inúmeras provas. A frequência varia consoante o trabalho, mas há uma rotina que mantém. “No mínimo dos mínimos, ando de bicicleta fora de casa uma vez por semana.”

Quando o tempo não está bom, recorre a um rolo de treino que permite transformar a bicicleta num equipamento indoor e acompanhar os exercícios através do computador.

“Em média, diria que faço exercício cinco dias por semana”, revela.

As distâncias mudam conforme o tipo de treino. No BTT, faz entre 12 e 20 quilómetros, muitas vezes com bastante desnível. Na estrada, aproveita as pausas durante o dia para “acumular quilómetros”. “No almoço guardo duas horas para fazer 60 ou 70 quilómetros.” Quando há mais tempo, chegam a ser 80 ou 100.

Nada disto, contudo, preparou por completo o corpo para aquilo que fez em agosto. Francisco começou a pedalar ainda de madrugada — saiu de casa pelas quatro da manhã — e diz que as primeiras horas foram feitas com poucas interrupções, porque havia uma preocupação em manter as pernas em movimento.

“Fui parando o mínimo possível, até porque quanto mais parasse, pior seria.”

A primeira paragem aconteceu na Figueira da Foz, onde se encontrou com dois amigos que o acompanharam ao longo de alguns quilómetros. Mais tarde, estacionou em Fátima para almoçar. No total, as pausas representaram cerca de duas horas do desafio que demorou 16 horas e meia a terminar.

O percurso começou a tornar-se mais exigente a meio da viagem. Entre Mira, Tocha e Foz, encontrou uma das zonas que mais lhe custaram pedalar.

“São retas sem fim e o asfalto não deixa a bicicleta rodar tanto. Fiquei um pouco derrotado mentalmente e comecei a questionar se iria conseguir.”

 
 
 
 
 
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Caso isto não fosse suficiente, chegou o calor. “A certa altura marcava 42 graus”, recorda.

A partir do quilómetro 300, quando estava a sair de Abrantes, Francisco começou a sentir que a meta estava próxima e, ao mesmo tempo, longe. “Os quilómetros estavam a passar muito lentamente.”

O Alentejo trouxe paisagens que compensaram parte deste sofrimento, mas também uma sucessão de subidas e descidas que se tornavam difíceis de gerir depois de tantas horas. “Apesar de não serem pronunciadas, acabaram por moer mentalmente porque nunca sabia quando era o fim.” Para manter a energia comia barras e géis, além de bebidas com hidratos de carbono.

E claro que uma viagem de mais de 400 quilómetros também teve alguns momentos caricatos. Tânia, a namorada, preparou cartazes com mensagens de motivação que foi colocando no vidro traseiro do carro. Alguns condutores conseguiram ler e apitaram em sinal de apoio.

“Já a chegar ao Alentejo, houve um carro da GNR que ligou as sirenes e buzinou.”

Pode parecer clichê, mas o desafio “foi uma montanha-russa de emoções”. A meio do percurso pensou em desistir, mas, na noite anterior, só conseguiu dormir uma hora devido ao entusiasmo. “Estava a sentir uma adrenalina enorme. Isto acontece quando sei que tenho uma volta gigante de bicicleta pela frente. Os primeiros quilómetros são sempre incríveis”

Depois de 14 horas em andamento, a chegada aproximou-se por volta das 21 horas. No final da viagem, estava no ponto de encontro antes de alguns amigos que se tinham deslocado de carro.

Este grupo de amigos conheceu-se através da corrida e faz parte do Miles and Vibe, um running club do Porto. O desporto acabou por criar uma amizade que se traduz também nestas ideias pouco convencionais.

“O exercício foi a nossa cola e, volta e meia, temos estes desafios loucos. Alguns deles vão fazer uma corrida de 24 horas em Santa Maria da Feira, no início de setembro.”

Francisco não se vai juntar, mas já tem outro plano em mente. “Talvez em outubro pedale 290 quilómetros para celebrar os meus 29 anos”.

Carregue na galeria para ver imagens do desafio de Francisco entre Matosinhos e Campo Maior.

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