“No dia em que fui amputado montei de manhã. Pensei que podia ser a última vez.” Este é um momento que Francisco Stilwell nunca vai esquecer. Cinco meses depois da cirurgia, já estava de volta às competições e terminou em segundo lugar na Barroca d’Alva. Aos 33 anos, o cavaleiro, natural de Lisboa, continua a perseguir o maior objetivo da carreira. “Os Jogos Olímpicos sempre foram o meu grande sonho”, conta à NiT. Agora, todas as atenções estão viradas para Brisbane, na Austrália, onde espera competir em 2032.
A ligação ao hipismo começou muito antes de entrar pela primeira vez numa pista de competição. Francisco nasceu numa família ligada ao mundo equestre há várias gerações. A coudelaria da família existe há mais de 180 anos e tanto o pai como a irmã já viviam entre cavalos quando ele era miúdo. “Foi uma decisão fácil porque nasci no meio dos cavalos. Toda a vida montei e tive cavalos em casa. É uma paixão”, recorda.
Hoje, continua a dedicar a vida a estes animais. Trabalha na criação, acompanha a formação desde jovens, prepara-os para competição, monta e também se dedica à venda. Atualmente vive entre a Ota, no concelho de Alenquer, e Inglaterra durante o verão, altura em que participa em várias provas internacionais.
Começou a competir aos nove anos, na disciplina de saltos de obstáculos, ainda na categoria de iniciados. A estreia em competições com participantes de outros países aconteceu em 2007, na Barroca d’Alva, quando tinha apenas 14 anos.
No ano seguinte qualificou-se para o Campeonato da Europa de Juniores e iniciou um percurso que o levou a representar Portugal em sete Campeonatos da Europa, uma Taça Europeia, uma prova do Mundial de Cavalos Novos e mais de uma centena de concursos internacionais. Soma ainda 13 medalhas em campeonatos nacionais.
A modalidade em que compete mais frequentemente chama-se concurso completo de equitação, uma das disciplinas mais exigentes do hipismo e que faz parte do programa olímpico. O mesmo cavalo e o mesmo cavaleiro enfrentam três provas distintas ao longo de três dias.
O primeiro é dedicado à dressage, também conhecida como ensino, uma disciplina realizada num retângulo onde tem de executar uma sequência obrigatória de exercícios. Os juízes avaliam a precisão, o equilíbrio e a harmonia dos movimentos, num sistema que Francisco compara à ginástica artística.
Segue-se o cross-country, considerado por muitos o momento mais desafiante da competição. O percurso decorre ao ar livre e inclui obstáculos fixos espalhados pelo terreno, com troncos, valas, subidas, descidas e passagens por dentro de água. “É como um motocross a cavalo”, brinca.
No último dia chega a prova de saltos de obstáculos, disputada numa pista com barreiras compostas por varas. Sempre que uma trave cai, o cavaleiro recebe penalizações que se somam à pontuação acumulada nas provas anteriores.
“Temos cavalos de todos os níveis. Há os mais jovens, que estão a estrear-se na modalidade, outros mais avançados e depois os que fazem o nível olímpico. Vamos formando os cavalos e subindo de nível”, explica. Ao contrário do que acontece noutros desportos, o sucesso não depende apenas do atleta. Também é necessário desenvolver o animal durante vários anos até estar preparado para competir ao mais alto nível.
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A doença que mudou tudo
Embora continue a fazer sucesso na modalidade, o percurso de Francisco foi marcado por um desafio, muito longe das pistas. Nasceu com espinha bífica, uma malformação congénita em que a coluna vertebral não se desenvolve totalmente durante a gravidez.
No caso do lisboeta, a lesão obrigou a uma cirurgia ainda antes de completar um ano de vida, em Londres. Na altura, os médicos avisaram a família de que poderia vir a ter uma deformação no pé esquerdo e falta de sensibilidade.
Durante a infância, quase nada fazia prever as dificuldades que viriam a seguir. No entanto, quando começou a caminhar os pais perceberam que fazia feridas no pé sem sentir dores. A falta de sensibilidade fazia com que colocasse toda a pressão na parte exterior do pé, provocando lesões constantes.
Seguiram-se décadas de operações. Francisco foi submetido a mais de 40 cirurgias para tentar corrigir a deformação e evitar infeções. Chegou a receber um retalho de pele retirado do braço para reconstruir o pé, mas os problemas agravaram-se. As infeções atingiram o osso e passaram a representar um risco permanente para a saúde.
“Passei muito tempo em hospitais e de muletas. Cheguei a um ponto em que percebi que aquele pé já não era viável”, conta. Há cerca de seis anos, voltou a sentar-se com o médico para decidir o futuro. “Ele deu-me três opções e uma delas era amputar o pé antes que tudo piorasse. Fui falar com um tio meu que tinha sido amputado depois de um acidente de mota e ele disse-me: ‘Mais vale um prótese boa do que um pé mau.’ Foi assim que tomei a decisão.”
Apesar da amputação, nunca pensou abandonar o hipismo. Na manhã da cirurgia ainda montou a cavalo. Cinco meses voltou às competições. “Pus a prótese depois já estava numa prova internacional. Fiquei em segundo lugar”, recorda.
O regresso aconteceu mais depressa do que muitos esperavam porque, na prática, Francisco já montava quase sem recorrer ao pé esquerdo. “Aprendi a montar sem sentir o pé e isso não mudou muito. Antes tinha uma deformação, agora tenho um pé mais estável. Não senti uma grande diferença e foi por isso que consegui voltar a competir.”
A presença da irmã entre os melhores cavaleiros portugueses também ajudou a alimentar um sonho antigo. Ela chegou a qualificar-se para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e Francisco cresceu a ouvir falar da maior competição desportiva do planeta. “É onde estão os melhores atletas de todas as modalidades do mundo. É um grande prestígio.”
Neste momento, admite que ainda não tem um cavalo preparado para lutar por uma vaga em Los Angeles em 2028. Os planos seguem, então, noutra direção. A aposta está numa égua que espera levar até Brisbane, em 2032. Antes disso, ambos deverão competir no Campeonato do Mundo de Cavalos Novos.
“Temos de nos qualificar através do ranking olímpico e só entram os 15 melhores atletas individuais do mundo. O ranking começa no ano anterior e temos de fazer muitas provas para conseguir esses pontos”, explica.
O caminho até aos Jogos Olímpicos depende tanto do desempenho em pista como da capacidade financeira para competir. Transportar cavalos entre vários países, pagar inscrições, equipas técnicas e deslocações representa um investimento elevado. “Temos bons atletas e bons cavalos, mas viajar pelo mundo inteiro custa muito dinheiro. Muitas vezes não conseguimos ir às provas de que precisamos.”
É por isso que faz questão de destacar quem o tem ajudado ao longo dos últimos anos. “A Corcoran Atlantic acredita mesmo em mim. Ter empresas que apoiam os atletas dá-nos algum descanso para nos concentrarmos na competição. Nas modalidades individuais é muito difícil encontrar patrocínios porque quase toda a atenção vai para o futebol.”
Enquanto continua a sonhar com os Jogos Olímpicos, Francisco mantém o calendário competitivo preenchido. Está em Inglaterra, onde já participou em quatro provas este verão, e em outubro segue para Lyon, em França, onde vai disputar o Campeonato do Mundo de Cavalos Novos.
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