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Joana Schenker: “Estive 58 dias sem ir ao mar. Foi uma experiência surreal”

A NiT entrevistou a portuguesa que se sagrou campeã mundial de bodyboard em 2017. Uma conversa sobre o estranho ano de pandemia para a atleta mas também as paixões que a definem, em terra e no mar.
Fotografia de Francisco Pinheiro.

Parece um daqueles momentos de efeito borboleta: há pouco mais de três décadas, um casal alemão a viajar pelo Algarve apaixonou-se e decidir comprar um terreno, com uma pequena casa em ruínas, numa aldeia rural. E por cá ficaram.

Em Portugal, tiveram quatro filhas. Uma delas, Joana Schenker, haveria de crescer e tornar-se a primeira portuguesa a sagrar-se campeã mundial de bodyboard. Da língua à família, não deixa de haver uma ligação à Alemanha, mas para Joana não há dúvida alguma: é uma algarvia, uma que descobriu em Sagres que podia ter o seu pequeno paraíso, entre a terra e as ondas do mar.

Quando não está a treinar, a praia continua a ser o seu destino preferido. Foi por isso especialmente estranho quando a campeã se viu, no primeiro confinamento, no ano passado, tanto tempo longe do mar e da prancha. “Foi uma experiência surreal”, confessou à NiT em entrevista numa altura em que alguma normal dia de já foi retomada.

À NiT, Joana Schenker, 33 anos, conta a forma surpreendentemente descontraída como aborda a sua preparação, da alimentação aos treinos. E fala também da experiência positiva que tem tido ao andar por escolas do País, a descobrir na companhia dos miúdos que ainda vamos a tempo de salvar os oceanos. Às vezes é só mesmo uma questão de as gerações mais velhas aprenderem a dar ouvidos às mais novas.

Além dos títulos conquistados, já foi condecorada por Marcelo Rebelo de Sousa. Quando pegou pela primeira vez numa prancha de bodyboard, imaginava chegar aonde chegou?

Comecei no bodyboard pela razão mais pura e genuína que pode haver, era mesmo para estar com os meus amigos da escola que já praticavam. Nunca pensei em competição ou em reconhecimento, o meu objetivo era a diversão. Claro que agora olhando para trás sinto orgulho no meu caminho e também sinto muita certeza que ouvir o meu coração e escolher o bodyboard foi a decisão acertada. É engraçado porque mesmo hoje em dia, depois de vencer praticamente todos os títulos que havia para conquistar, ainda sinto a mesma diversão e vontade de ir fazer bodyboard do que há 20 anos, quando apanhei a minha primeira onda.

Em que momento é que o bodyboard deixou de ser uma simples paixão para se tornar uma carreira?

Não houve um momento chave, mas sim muitas escolhas que me levaram quase de forma natural para esta carreira. Logo desde cedo comecei a dedicar todo o meu tempo livre para fazer bodyboard, era a minha prioridade, mesmo sem ser ainda uma carreira. Depois quando acabei do 12º ano tive que optar por ir para a universidade ou seguir a competir no bodyboard, pois não conseguia financiar as duas coisas.

Fotografia de Francisco Pinheiro.

Escolheu o desporto.

Acho quando optei pelo desporto, mesmo tendo boas notas para seguir os estudos, foi aí que o meu caminho se traçou. Depois os resultados competitivos estavam a melhorar e com isso também os meus patrocinadores. Mas é preciso ter fé, porque o bodyboard não é propriamente um desporto milionário. Sabia que ser profissional seria difícil e podia não vir a acontecer. Mas acabei por conseguir e viver o meu sonho, com o precioso apoio de muitas pessoas que também acreditaram neste meu sonho.

Em 2017 tornou-se campeã do mundo. Como é que um atleta se motiva depois de atingir o topo da modalidade?

A minha motivação principal vem da vontade de surfar bem, acima de tudo. Sou bastante ambiciosa e crítica com a minha performance, não para impressionar alguém, só a mim. Ainda tenho muito para evoluir, portanto objetivos não faltam. Depois também ainda estou na alta competição e quero continuar a trazer conquistas. Cada ano começa do zero, independentemente dos títulos anteriores. Claro que agora estou mais serena e confiante, sinto que já não me preciso de provar ao mundo. Mas continuo a precisar de me provar a mim própria.

A rotina de treino e dieta muda muito quando se está fora de competição?

No meu caso não tanto, como acontece com outras modalidades. O treino no mar tem completa prioridade, não existe treino melhor para bodyboard do que fazer bodyboard. Tenho passado tanto ou mais tempo a surfar agora do que se estivesse em competição. A minha dieta é sempre a mesma, tornei-me vegetariana aos 10 anos de idade por questões de ética para com os animais. Tenho uma dieta à base de plantas, tento ser variada no alimentos, mas de forma simples e prática. Não tenho um plano alimentar ou algo assim, como o que me apetece quando me apetece e isso funciona muito bem no meu caso. Sinto-me muito bem, tanto a nível físico e rendimento desportivo, como a nível psicológico, com esta forma relaxada de encarar a alimentação.

Na comida, qual é que é o maior guilty pleasure?

Para mim comer é um prazer, cozinhar também. Sempre fui extremamente gulosa, portanto os doces, bolos, chocolates etc… Fazem parte do meu dia-a-dia. Já deixei de os considerar guilty pleasure. Também gosto de beber uma Sagres fresca ao final de tarde, geralmente sem álcool, que assim também não é um guilty pleasure. Acredito em saborear a vida.

Como é que viveu este último ano de pandemia? A ansiedade é maior agora para voltar à competição?

O primeiro confinamento em março de 2020 foi duro, estive 58 dias sem ir ao mar. Nunca tinha estado tanto tempo sem fazer bodyboard na minha carreira. Foi mesmo uma experiência surreal. Depois as competições internacionais foram canceladas, mas felizmente o circuito nacional foi possível e esse correu muito bem. Foi bom para sentir que estava em forma mesmo com aquela paragem do confinamento. Agora este segundo confinamento já foi bem mais fácil de superar, em Sagres as praias não fecharam e consegui treinar bastante. Claro que a ansiedade de voltar a competir existe, não tanto devido à questão do treino, que sinto-me em forma e pronta para voltar.

É mais pelo quê, a ansiedade?

É mais a questão do foco e do ritmo da competição. Acredito que um ou dois campeonatos chegam para acabar com essa ansiedade e entrar novamente em modo ‘on’.

O bodyboard está sempre dependente das condições meteorológicas. Como são os treinos de uma campeã quando não pode pegar na prancha?

Treino em casa para complementar o treino de mar. A flexibilidade é chave para um surf bonito e prevenir de lesões, isso é algo a que dou bastante foco. Adoro saltar à corda para treinar a parte do cardio, com música, para dar ‘pica’, é rápido e eficaz. Faço também algum treino de bodyweight, não uso pesos ou muitos aparelhos. Alias como treino em casa é tudo exercícios muito simples. Costumo ouvir o meu corpo, ele pede mais ou menos treino. É como com a minha dieta: não tenho um plano de treino rígido.

E quando o tempo ajuda, como é que é um dia normal de treino da Joana?

O mar tem prioridade total, quando estão boas ondas estou o dia inteiro na praia, levo qualquer coisa para comer lá e tento surfar o máximo que consigo nesses dias. Geralmente acabo o dia tão cansada que já não há mais treino nenhum extra em seco, apenas jantar e dormir. Estes são os dias melhores e os meus preferidos.

A Joana já andou por dezenas de escolas onde falou sobre a importância do meio ambiente. Queria perguntar duas coisas: uma é se essa experiência junto das gerações mais novas mostrou que estão mais atentos que os pais ou avós. A outra é se lhe fazem muitas perguntas sobre como chegou a campeã.

O Schenker School Tour é um projeto em conjunto com o Oceanário de Lisboa e a Fundação Oceano Azul que visa levar para as escolas portuguesas a mensagem do mar. Em cada palestra que dou falo sobre o meu caminho na competição e os pontos que considero chaves para o sucesso, que não são apenas para o bodyboard. No fundo, servem como base para o sucesso em qualquer área da nossa vida.

Fotografia de Ricardo Alves.

E quais são?

Acima de tudo muita paixão pelo que se faz, empenho e ter prioridades bem definidas, persistência, trabalho de equipa, superação e humildade. Os jovens adoram esta parte, principalmente aqueles que também já encontraram algo que gostam e em que querem ser bons. Mas a minha mensagem vai além disso, o foco principal é o mar e posso dizer que desde que comecei o projeto tenho mais esperança que ainda vamos a tempo de mudar o mundo para melhor. Os miúdos hoje em dia já se aperceberam da urgência, são atentos e consigo ver neles uma vontade enorme de fazer. Muitas vezes vão para casa tentar educar os pais e os avós! Acho que o que falta muitas vezes aos jovens é ter a confiança e a noção de que eles podem mesmo fazer a diferença. E é essa noção de poder e importância que lhes quero deixar.

A Joana já nasceu cá e continua a morar em Sagres. Como é que os seus pais vieram parar ao Algarve?

Os meus pais, como tantos estrangeiros, vieram visitar o Algarve, mais concretamente a zona da Costa Vicentina e ficaram tão apaixonados que decidiram comprar um terreno com uma ruína numa aldeia muito pequena e rural, a aldeia da Pedralva, perto de Vila do Bispo. Isto foi há 30 anos. Tiveram quatro filhas que já nasceram em Portugal, e fizeram questão que vivêssemos num ambiente mais natural, livre e descontraído, do que na Alemanha. Assim tive uma infância no meio da natureza, sempre perto do mar e da praia, completamente integrada na comunidade portuguesa.

Continua a viver em Sagres.

Sinto-me verdadeiramente algarvia e não me vejo a viver noutro lugar. Claro que o facto das ondas de Sagres serem perfeitas para o meu trabalho também ajuda. Para mim é um pequeno paraíso. Se calhar foi mesmo o facto de ter nascido aqui que ditou o meu destino.

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