Prestes a concretizar “um sonho antigo”, João Pombinho prepara-se para fazer a Race Across America (RAAM), uma das provas de ciclismo mais duras do mundo. Se conseguir percorrer os 4.800 quilómetros em 12 dias, irá dedicá-los ao pai, que lhe apresentou a corrida, quase por acaso: “Ofereceu-me um documentário sobre a prova e foi assim que a descobri”. O desejo de atravessar os Estados Unidos, de uma ponta à outra a pedalar, surgiu pouco depois.
O ciclismo sempre foi uma espécie de “hobby familiar”. João e o pai já tinham feito centenas de quilómetros pelo País quando, em 2016, o engenheiro informático decidiu participar numa Iron Man. Porém, a aventura a dois nunca chegou a acontecer.
“Dias depois do meu pai morrer, de forma inesperada, parti para Barcelona com a bicicleta e as luvas dele para participar naquela que ia ser o nosso primeiro Iron Man.” O engenheiro informático decidiu fazer a prova como homenagem ao progenitor — e desde aí nunca mais parou. Agora está nos Estados Unidos, país que irá começar a percorrer, da costa oeste à este, na próxima semana.
A Race Across America arranca no dia 13 de junho em Oceanside, na Califórnia. João terá de chegar a Annapolis, no Maryland, até 25 de junho. Ou seja, terá 12 dias para pedalar cerca de cinco mil quilómetros. “Serei uma ave rara no meio do pelotão que vai correr a maior competição do mundo do ultra endurance do ciclismo”, conta à NiT. Mesmo que não consiga cumprir o objetivo, ser um dos 29 ciclistas que irá tentar fazê-lo já é uma espécie de vitória.
O processo de qualificação foi longo — tudo começou há cerca de dois anos e meio.“Fiz várias corridas de ultra distância, ou seja, acima de 100 milhas (cerca de 160 quilómetros). Além do Portugal Divide, que percorre o País ao longo dos quatro pontos cardeais, inscrevi-me no NorthCape4000 que começa em Itália e termina na Noruega, duas semanas depois. Esse desafio fez-me gostar ainda mais deste tipo de provas e decidi inscrever-me na Race Across America, que já era um sonho antigo”, recorda o informático de Évora.
Coincidência, ou não, uma das provas de apuramento, a Race Across Germany, em 2021, aconteceu fora de época. João conseguiu inscrever-se e pedalar os 800 quilómetros em 36 horas, para conseguir assegurar um lugar na RAAM.
“Desde que consegui a classificação comecei organizar-me e treinar para conseguir participar na corrida”, conta à NiT. Contudo, uma lesão no ombro, resultado de um acidente no Portugal Divide levou-o ao bloco operatório. Depois da cirurgia sofreu uma trombose que atrasou por um ano o sonho.
Uma preparação cuidada
Porém, como diz o ditado popular, “há males que vêm por bem”. Graças ao tempo que precisou para recuperar, João conseguiu preparar-se muito melhor para a prova durante este ano. “Estudei bem o percurso, arranjei e capacitei a equipa que vai comigo e fiz várias outras corridas, com diferentes condições. Tentei testar-me ao máximo para perceber se o meu corpo aguentava”, revela.
Para conseguir estar na melhor forma possível, o gestor de sistemas de informação faz dois tipos de treino. “Um deles é em casa, com o simulador de bike. Tipicamente, são tipicamente sessões curtas, de uma hora. Costumo fazê-las quando as minhas filhas se vão deitar.” Depois faz algumas saídas em que tenta adaptar o máximo possível às condições de prova. “Há cerca de três semanas fomos até Granada, em Espanha, para consegui correr a três mil metros de altitude”, exemplifica. Quando não está a pedalar faz treinos de musculação e força. E, claro, tem uma alimentação cuidada, rica em hidratos, proteína e gordura, quando necessário.
Durante o processo de preparação, João não foi acompanhado por nenhum profissional, porque “estes desafios têm muitas especificidades e dependem de cada organismo”. “Fui lendo, aprendendo, testando ao longo dos anos e em vários provas, e ouvindo o corpo. Sempre comi dois almoços, por exemplo. Aliás, nos restaurantes ficavam sempre confusos com o meu pedido [risos].” Treinou sozinho, mas vai correr “em equipa”. Juntou um grupo de sete amigos “malucos” que entraram nesta aventura com ele. “Levo um médico intensivista, uma psicóloga clínica, um dentista, um responsável de operações, um responsável de manutenção, um fisioterapeuta e um oficial do exército.”
A Race Across America
Trata-se de uma corrida de 4800 quilómetros com 50 mil metros de ganho de altitude acumulado — ou seja, não é para todos. “Este ano, vão correr apenas 29 pessoas. E muitos podem não conseguir acabá-la sequer.”
Voltar a Portugal “com saúde” é o primeiro objetivo de João. O segundo é percorrer os quase cinco mil quilómetros e o terceiro ser finisher oficial, ou seja, terminar a prova nos 12 dias.
“Não sou um super atleta, nem sou mutante. Tenho uma boa base, estou bem preparado, e tenho uma força mental que considero acima da média. É neste cocktail que vou apostar para conseguir terminar a prova. Mas há limites físicos e condições adversas que levam a que não possa prometer nada, exceto que vou dar tudo”, sublinha.
As etapas nos desertos de Mojave e Sonora; nas três cadeias montanhosas (Rockies, as Ozarks e as Appalachian) e as condições meteorológicas extremas são os principais obstáculos que João terá de enfrentar. “Do dia dois para o dia quatro vou estar dos zero graus de altitude com temperaturas de 50 graus e passo para 3.200 metros de altitude e zero graus, com neve. O corpo nem vai ter tempo para se habituar e perceber o que lhe está a acontecer”, revela.
Haverá ainda travessias por reservas índias, “com leis muito particulares que se aplicam e temos de ter cuidado”. Os animais selvagens podem ser também uma condicionante. Mas a privação de sono será o pior. “Dormir mais que quatro horas por noite é impossível. Se quisermos concluir a corrida nos 12 dias não podemos dormir mais que três horas e meia por noite”, explica.
A alimentação será feita sobretudo à base líquidos ricos em hidratos e proteína para conseguir alimentar-se sem parar. Depois irá complementar a dieta com sandes de manteiga de amendoim e compota, frutos secos, fruta desidratada e fresca e quando parar fará refeições mais completas. “Os géis e os gelados são também fundamentais. No NorthCape4000, sempre que parava em estações de serviço, comia cinco ou seis gelados.”
A vertente solidária
Durante os dias que antecedem a prova e durante a duração da mesma, João Pombinho estará a angariar fundos a favor do IPO Lisboa. A campanha chama-se “Cada Metro Conta” e decorrerá a partir de 10 de junho na plataforma digital GoFundMe.
“Decidi que queria apoiar uma causa solidária e o IPO Lisboa faz todo o sentido. Mais ou menos próximo, todos temos alguém que está a passar ou já passou por doença oncológica”, adianta o ciclista. Mas esse não é o único motivo: “Queremos passar uma mensagem de sensibilização e de prevenção do cancro. Por isso, os donativos angariados vão contribuir para reforçar o papel de investigação da instituição, seja pela melhor prestação de cuidados ou porque, daqui a uns tempos, podemos ser nós a precisar de ajuda”, sublinha.
Carregue na galeria para descobrir como foram algumas das etapas de preparação para a Race Across America de João Pombinho.







