Tempestades de areia, veados, tatus e temperaturas extremas não travaram João Pombinho, “a ave rara no meio de um pelotão de atletas”. O engenheiro informático tornou-se no primeiro português a terminar uma das provas mais duras do mundo. Atravessou os Estados Unidos da América — da Califórnia a Maryland — em menos de 12 dias.
“A prova foi tudo aquilo que esperava dela e mais. Foi um grande conjunto de desafios, todos diferentes”, começa por contar à NiT. “A melhor forma de descrever é que não foram 12 dias, mas sim 288 horas seguidas”.
Antes de partir para esta super prova, Pombinho já tinha dito à NiT: “Não sou um super atleta, nem sou mutante. Tenho uma boa base, estou bem preparado, e tenho uma força mental que considero acima da média. É neste cocktail que vou apostar para conseguir terminar a prova. Mas há limites físicos e condições adversas que levam a que não possa prometer nada, exceto que vou dar tudo”.
E parece ter resultado. O lisboeta de 40 anos cumpriu todos os objetivos a que se tinha proposto, em conjunto com o resto da equipa de sete portugueses. “Regressámos inteiros, terminámos a RAAM, ficámos em 10 lugar, o que nem era sequer importante, e ainda conseguimos o quarto objetivo, ou o joker, como lhe chamei, a angariação de fundos para o IPO”, conta.
Uma prova carregada de peripécias
Não faltaram aventuras inesperadas ao longo dos cerca de 4800 quilómetros que percorreu. “Condições meteorológicas extremas foram os principais obstáculos. Num dos dias enfrentei temperaturas superiores a 50 graus, no deserto e tive de usar umas mangas de licra com proteção UV que, quando estão molhadas com água gelada, faziam um género de ar condicionado, o que ajudava a manter o corpo fresco. Coloquei gelo na zona dos punhos, por dentro das luvas, e usei um truque que tínhamos descoberto com outros participantes da RAAM. Meias desportivas cheias de gelo, atadas uma à outra e que colocava à volta do pescoço, para refrescar as carótidas.” Tudo para se manter fresco durante a prova.
Essa fase de calor extremo durou cerca de sete horas, mas não foi a única com temperaturas tão elevadas. “Nos dias seguintes fiz novamente uma zona desértica em que enfrentei não 50, mas 48 graus”.
Como se não bastasse, um dia e meio depois de tanto calor, deparou-se com temperaturas negativas. Nesse caso, a estratégia foi reforçar o equipamento com várias camadas e até utilizou uma manta térmica por dentro do casaco.
“No Wolf Creek Pass completámos uma amplitude térmica de quase 60 graus face aos dias anteriores. Chegámos ao cume já bem de noite e, para não dormir em altitude (3300m) e boicotar a recuperação, fizemos uma descida bastante íngreme e longa. Houve uma altura em que o corpo achou graça, mas depois fiquei com uma grande inflamação de garganta. Só fiquei melhor nos últimos quatro dias da prova.”
Mas não foram só as temperaturas que puseram em causa a conclusão da RAAM. “Houve uma tempestade de areia, com chuva e mini tornados que criaram um valente susto, mas também uma experiência extraordinária”, conta à NiT.
Ainda assim, João nunca parou de pedalar. “A polícia cortou a estrada logo a seguir a termos acabado de passar. Foi uma sorte, com muita ponderação envolvida.”
O engenheiro informático teve ainda alguns encontros inesperados. “Os bambis, veados e corças parecem muito fofinhos, ao longe. Quando galopam em direção a nós, tornam-se assustadores. Eu ouvia-os a andar pela vegetação, mas de repente decidiam atravessar a estrada e houve um que me obrigou mesmo a travar a fundo para evitar chocar contra ele”, explica.
Houve ainda travessias por reservas índias, “com leis muito particulares que se aplicam e temos de ter cuidado”. E avisos da organização devido às regras dos carros das crews que acompanhavam os atletas. A equipa acabou mesmo por ser penalizada uma vez, numa situação isolada e foi “multada” com uma hora de acrescento à prova. “Se não tivéssemos cuidado, isto poderia pôr em causa a finalização da RAAM”, escreveram no site de João Pombinho, num dos relatos da prova.
O poder da amizade
Os desafios foram muitos, mas o pior, além do percurso, foi a privação de sono. “Dormia cerca de quatro horas por noite e pedalava o dia inteiro. Às vezes começava a marcar golos de cabeça, como dizia a crew. Nessas alturas tinha de ser responsável e acabava por parar para comer e fazer uma power nap.”
Durante a prova, e para além da solução de hidratos complexos com alguma proteína para proteção muscular e de alguns sólidos base, recorreu a fast food. Mas não era suficiente para compensar o que gastava — que, em média, rondou as 11 mil calorias diárias. Ao todo, perdeu cinco quilos. Assim que chegou a Lisboa e depois de fazer “uma vista simpática a todos os rodízios que conheço”, perdeu mais dois. Isso aconteceu porque o metabolismo do seu corpo se mantinha ultra acelerado.
A equipa “de sete amigos malucos” que acompanhou João Pombinho fez de tudo para manter o Pigeon em forma. “Uma altura criaram um género de cana de pesca com um chouriço insuflável e na ponta penduraram uma salsicha de barbecue para me fazer ir atrás.
Tratavam de tudo o que era a logística de lavar roupa, comida, entre outras coisas para garantirem que eu descansava”. E continua: “Nas últimas subidas, no troço mais duro da prova, depois de tantos quilómetros acumulados, acabámos a cantar juntos a plenos pulmões, eles a bater no tejadilho e portas e eu a dançar em cima da bicicleta. Foram incríveis”.
João Pombinho e a crew sabiam que os últimos 400 quilómetros da prova seriam os mais desafiantes. “São cinco montanhas seguidas, que dão cabo de qualquer um. Há muita gente que acaba por desistir nessa zona”, diz.
O atleta português não desistiu e terminou a Race Across America dentro do tempo estipulado para ser considerado “finisher oficial”. Esse era um dos grandes objetivos. “Estava a correr contra mim próprio”.
Quando passou a linha final e foi recebido calorosamente, nem queria acreditar. “É uma sensação fantástica, um grande sentimento de realização, mas, quando olho para trás, ainda me parece tudo surreal. Estamos tão envolvidos nas coisas que quase nem há tempo para absorver.”
Carregue na galeria para ver algumas imagens da extraordinária prova de João Pombinho.








