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Miguel Milhão: “o parolo de Braga” que acredita “no poder de possuir carros”

O fundador da Prozis deu uma entrevista inédita após a polémica que o envolve e fez revelações inesperadas sobre a sua biografia.
Miguel Milhão é o fundador da Prozis.

Uma semana volvida sobre a publicação que fez no LinkedIn, Miguel Milhão aceitou falar com o jornal “Negócios” sobre a polémica que a mesma espoletou nas redes sociais e fora delas. Habitualmente avesso a falar com jornalistas, por considerar que “não tinha nada a ganhar em dar uma entrevista”, o fundador da Prozis acabou por mudar de opinião. Afinal, como mais tarde explica, “não lê manuais”, “faz tudo pela experimentação” e o seu “superpower é o não sei”.

Apesar do dilúvio de comentários de repúdio e várias tomadas de posição que a partilha gerou, Milhão referiu que “não está arrependido” por ter dado a sua opinião e acha “que até teve um impacto benéfico” nas vendas da Prozis. Frisa “ter a certeza que foi benéfico”, para reconhecer pouco depois que as suas ideias “são um bocadinho desestabilizadoras para a empresa”.

Recorde-se que o empresário escreveu que “os bebés por nascer voltaram a ganhar os direitos nos EUA”, após o Supremo Tribunal dos Estados Unidos reverter a decisão do histórico caso Roe Vs. Wade, que estabelecia o direito ao aborto, reconhecendo que a Constituição dos Estados Unidos protegia, em regra, a liberdade de uma mulher grávida que o quisesse fazer.

“Recebi milhares de mensagens, das quais 98 por cento são positivas. Ou porque apoiavam o meu direito à liberdade de expressão, mesmo não concordando com a minha opinião, ou porque concordavam com a minha posição”, esclarece.

A família, os carros e os EUA

No estilo desassombrado que o caracteriza, Milhão descreve-se na entrevista como “o parolo de Braga” que, segundo o seu perfil no LinkedIn, acredita “no poder de possuir carros”. Uma afirmação que remete para história da criação da empresa graças à venda de um automóvel oferecido pelo pai, para obter o capital inicial necessário. Porém, a crença na importância dos veículos parece basear-se no pragmatismo, uma vez que hoje assegura que não se interessa por carros: “o máximo que tive foi uns oito”. Filho de um empresário da indústria têxtil, nasceu em 1983, em Braga. Algo que o próprio revelou que poderia nunca ter acontecido. “Nasci cego do olho esquerdo, a minha mãe era nova, tinha 19 anos, solteira e eu era um candidato fixe para o aborto. Mas ela pensou diferente — mandaram-na fazer [refere-se à interrupção da gravidez], mas ela não fez, e aqui estou”, contou no seu podcast.

Estas particularidades da sua biografia, aliadas ao facto de não ter ter tido uma carreira académica particularmente brilhante podiam ter-se relevado obstáculos intransponíveis de superar. Nascido fora do casamento, com dificuldades visuais e que “não estudava” porque “a escola era demasiado fácil”, acabou por trilhar um caminho de sucesso.

Estudou Economia e Filosofia, embora não tenha concluído nenhum dos cursos, algo que considera “insignificante” e que “não faz diferença”. A primeira aposta estruturada no mundo dos negócios foi uma loja de produtos biológicos, mas não correspondeu as expectativas de Milhão.                                        

Miguel Milhão, o fundador da empresa, na gravação do podcast.

Aos 23 anos, já casado e prestes a ser pai (a mulher engravidou duas semanas depois da festa de casamento), reconheceu que o negócio “não libertava cash suficiente”. “Fiquei um bocadinho mais focado”, explicou, revelando que foi uma viagem à Alemanha que o levou a adotar a filosofia “não sei”. O tal “super poder” que o levou, pouco tempo depois, em 2007, a fundar a Prozis.

Atualmente,com 39 anos, Milhão é dono de um império que multiplica várias vezes o seu apelido. O ano passado faturou 11 milhões de euros. Números estrondosos para quem, garante, “não se interessa por dinheiro” e “não está disponível para vender a empresa, por valor nenhum”.  Detém 86 por cento da Prozis, mas deixou a posição de diretor-geral da empresa, é pai de três filhos com 10, 13 e 15 anos.

Vive “algures no planeta Terra, fora de Portugal”, não quer “devassar a vida privada”, por isso, não confirma se os rumores de que reside em Miami são verdadeiros.

Ainda assim, pela forma como se exprime sobre os Estados Unidos da América, tudo leva a crer que foi o país escolhido pelo empresário para viver. “É o meu país favorito, sem dúvida. Terra dos livres (…) Nunca me senti inseguro em todo o tempo que passei nos Estados Unidos”, garante.

Depois destas declarações sobre a segurança do país norte-americano Milhão foi confrontado com um tema polémico: a posse de armas de fogo, que tem gerado acesos debates nos EUA. O empresário diz que já pensou muito sobre o assunto e defende que “as pessoas devem ter acesso a armas”.

Durante a realização da entrevista publicada esta segunda-feira, 4 de julho, Milhão pediu para divulgar uma espécie de carta-aberta aos portugueses. Na missiva empresário reconheceu que “o impacto da publicação tinha tomado proporções que nunca acharia possível acontecer”.  Então resolveu “começar a fazer o que sabe fazer melhor: pensar”. E refletiu como poderia transformar esta polémica em algo positivo para si e para sua empresa. 

Depois de muita polémica — que o próprio alimentou com “declarações cada vez mais incendiárias” — assegura agora que tudo o que se seguiu não passou de um plano para publicitar a Prozis. Miguel Milhão rematou a explicação elencando alguns dos méritos da sua estratégia: “Com toda a humildade, acho que merecia um prémio de marketing. Eu calculo que o valor de publicidade conseguida esteja acima dos 10 milhões de euros.

Indignadas e em desacordo com as declarações iniciais do empresário, muitas influencers e conhecidas embaixadoras da marca decidiram cortar relações com a Prozis. “Perdemos 11 influencers cá”, admitiu Miguel Milhão, acrescentando “nenhum de 10 mil lá fora”.

As embaixadoras nacionais da marca que resolveram continuar a trabalhar com a empresa, mereceram uma nota de solidariedade — foi o caso de Joana Amaral Dias, que explicou à NiT ter sido “contratada para divulgar a Prozis, não ideologias e crenças”.

A NiT falou ainda com um ex-funcionário da empresa, que conta tudo sobre as festas privadas com cabras anãs e que até chegaram a ter José Castelo Branco a rebolar junto aos animais.

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