Aos 30 anos, Nuno Matos faz questão de provar que a cadeira de rodas nunca foi um travão para aquilo que mais gosta de fazer. “Sempre fui uma pessoa bastante ativa apesar da minha condição”, conta à NiT. Treina entre cinco a seis vezes por semana, participa em provas de Hyrox e corridas de estrada e prepara-se para ser personal trainer.
“O desporto é algo fundamental, independentemente da condição de cada um. O importante é começar e manter uma vida ativa e hábitos de saúde bons, tanto na alimentação como em termos de desporto e atividade física”.
Natural de Albergaria-a-Velha, o atleta nasceu com espinha bífida, uma malformação congénita da coluna vertebral que afeta o desenvolvimento da medula espinal e pode provocar diferentes limitações motoras. No seu caso, conseguiu caminhar durante muitos anos com o apoio de canadianas, mas a entrada na Universidade de Aveiro acabou por mudar a forma como se deslocava diariamente.
“A partir do momento em que entrei na universidade, as distâncias eram maiores e, por uma questão de praticidade, comecei a utilizar mais a cadeira de rodas”, explica à NiT.
A decisão acabou por lhe dar uma autonomia que não tinha. Embora continuasse a conseguir andar curtas distâncias, percebeu que a cadeira de rodas lhe permitia fazer o dia a dia de forma muito mais simples. “Para transportar alguma coisa era muito mais complicado porque me deslocava em canadianas. Era difícil andar com a mochila ou com o computador. Hoje em dia basta colocar tudo no colo.”
Licenciado em Gestão e Planeamento em Turismo pela Universidade de Aveiro, curso que concluiu em 2020, Nuno nunca chegou a trabalhar na área da formação. Depois de terminar os estudos passou por vários cargos administrativos, primeiro nas Residências Montepio, em Albergaria-a-Velha, depois através de um estágio na empresa de automóveis Faurecia, em Santa Maria da Feira.
Como a deslocação diária era demasiado longa, acabou por aceitar uma oportunidade na Bondalti, em Estarreja, onde continua ligado à área administrativa. Paralelamente, decidiu aproximar-se ainda mais daquela que sempre foi a sua maior paixão. Agora, está a realizar um curso de Técnico de Exercício Físico, iniciado em outubro do ano passado, que deverá concluir em fevereiro, para poder trabalhar como personal trainer.
A ligação ao exercício físico começou muito antes de pensar numa carreira ligada ao desporto. Durante a adolescência frequentava aulas de Educação Física adaptada, onde todos os exercícios eram ajustados às suas capacidades.
Aos 18 anos decidiu experimentar um ginásio pela primeira vez e nunca mais deixou de treinar. “Inscrevi-me num ginásio e foi uma paixão imediata. Gostei muito da experiência e continuei”, recorda.
Hoje, o treino faz parte da rotina. Cinco a seis vezes por semana passa cerca de uma hora no ginásio Knockout, em Aveiro. A musculação continua a ser a base da preparação física, sobretudo para fortalecer os membros superiores, indispensáveis para quem utiliza cadeira de rodas diariamente.
No entanto, o plano vai muito além dos halteres e das máquinas. Aos treinos de força junta sessões de crossfit, HYROX e exercícios específicos de mobilidade. Como mantém alguma capacidade de movimentação das pernas, faz questão de trabalhar também os membros inferiores. “Faço exercícios de alongamentos e de mobilidade das pernas. Como não sou paraplégico, continuo a trabalhar os membros inferiores para manter essa mobilidade.”
Apesar da experiência que já acumula nos ginásios, reconhece que nem todos os espaços estão preparados para receber clientes em cadeira de rodas. Antes de escolher onde treinar, analisa sempre as condições de acessibilidade e admite que ainda existem muitos obstáculos.
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“Há ginásios e ginásios. Dependendo do espaço, é sempre importante verificar se existem as condições necessárias para eu poder frequentá-lo”, explica. As principais dificuldades passam pelas barreiras arquitetónicas. “Escadas, muitas máquinas e espaços apertados acabam por dificultar a circulação. Também é importante haver pessoas que consigam auxiliar da melhor forma.”
Foi há cerca de um ano e meio que decidiu experimentar o HYROX, modalidade que combina corrida com oito estações de exercícios funcionais e que tem conquistado milhares de praticantes em todo o mundo. O crescimento da modalidade despertou-lhe a curiosidade, mas houve outro detalhe decisivo. “Vi que as provas tinham divisão para atletas adaptados e quis experimentar.”
A estreia de Nuno aconteceu na prova oficial de Lisboa, que aconteceu entre 1 e 3 de maio na FIL, no Parque das Nações. Para alguém habituado sobretudo à musculação, a adaptação foi exigente, mas terminou a competição em uma hora e 39 minutos e conseguiu um lugar entre os melhores classificados da categoria adaptada, ficando em “terceiro ou quarto lugar da classificação geral”.
“O ambiente foi incrível e gostei muito da experiência. Por isso decidi voltar a fazer outra prova”, conta. A segunda participação aconteceu a 17 e 18 de julho no Hybrid Day, no Estádio de Leiria, um evento que também disponibilizava adaptações para atletas em cadeira de rodas.
A preparação para estas competições exige um trabalho muito diferente daquele que fazia anteriormente. Além da musculação, reforçou bastante a componente cardiovascular, recorrendo a máquinas como o remo e o SkiErg, mas também a muitos quilómetros percorridos em cadeira de rodas.
“No Hyrox tenho de fazer corridas de um quilómetro entre as estações e, obviamente, um quilómetro de cadeira de rodas é algo que tem de ser preparado”, explica. Para isso, costuma percorrer o trajeto entre a Barra e a Costa Nova, em Aveiro. “Faço percursos entre oito e doze quilómetros cada vez que vou.”
Além destes treinos, Nuno participa regularmente em provas de estrada para testar a resistência. Já completou os 10 quilómetros da Maratona da Europa, em Aveiro, bem como outras corridas, como a da Costa Nova. Considera que todas estas competições acabam por ser fundamentais para chegar melhor preparado aos desafios do Hyrox.
O esforço tem dado resultados visíveis. Se a musculação lhe dava sobretudo força, hoje sente que ganhou uma capacidade física muito mais completa. “Em termos cardiovasculares e de resistência melhorei bastante desde que faço HYROX”, garante.
As diferenças são evidentes até nas deslocações do dia a dia. “Fazia sete quilómetros e cansava-me. Hoje em dia faço facilmente 15.”
O atleta recorda que no Hybrid Day de Leiria a organização aumentou ligeiramente a distância habitual entre as estações, ultrapassando os oito quilómetros de deslocação em cadeira de rodas. Ainda assim, terminou toda a prova em cerca de duas horas e dez minutos sem sentir grandes dificuldades.
O próximo objetivo já está traçado. Nuno pretende participar nos 10 quilómetros da Meia Maratona de Ovar, em outubro. E, em 2027, quer concluir uma meta ainda maior: os 21 quilómetros da Meia Maratona da Europa, em Aveiro. Já em outubro deste ano vai participar no Concretiza ao Quilómetro, uma corrida de estafetas pelas Estrada Nacional 2 que vai ligar Chaves a Faro. Vai fazer, mais especificamente, a etapada entre São Pedro do Sul e Vouzela, que tem cerca de 10 quilómetros de distância.
Acima de tudo, o atleta acredita que a sua história pode ajudar a mudar a forma como muitas pessoas olham para o desporto adaptado e para as próprias limitações. “O importante é começar. Depois é manter uma vida ativa e criar bons hábitos, tanto na alimentação como na atividade física”, conclui.
Carregue na galeria para ver algumas imagens de Nuno Matos a treinar ou a participar em provas de competição.







