Ginásios e outdoor

O adolescente português com síndrome de Down que já bateu três recordes mundiais

Vicente Pereira foi a estrela dos europeus de natação adaptada. Apesar de ter recebido pouca atenção em Portugal.
Ele quer ser como Michael Phelps (Foto: Federação Portuguesa de Natação)

Com apenas 16 anos, Vicente Pereira já sabia que queria ser campeão europeu. Disse-o aos pais antes de partir para a sua primeira competição internacional, ainda com idade de júnior. “Acho que ele tinha na cabeça dele que ia ganhar tudo. Mas só ele é que tinha”, explica à NiT o pai, Nélson Pereira. “Não que não acreditássemos, mas bolas, ele tem 16 anos e ia competir com séniores.”

O que é que Vicente fez? O que o seu instinto lhe dissera: venceu cada uma das 12 provas em que competiu; bateu três recordes mundiais; trouxe para casa o troféu de melhor nadador masculino; e ajudou Portugal a conquistar um segundo lugar na classificação geral da competição. Portugal trouxe ao todo 31 medalhas dos Europeus de piscina curta para pessoas com Síndrome de Down que decorreu de 4 a 11 de outubro em Ferrara, Itália.

Vicente é um de muitos atletas de elite da natação adaptada que têm conquistado dezenas de medalhas para Portugal, muitas vezes sem o devido reconhecimento. Desta vez, o cenário à chegada foi diferente. Dezenas de pessoas aplaudiram euforicamente a chegada dos nadadores que chegaram mesmo a dar as suas primeiras entrevistas. Ainda assim, sem a visibilidade que outros atletas portugueses costumam receber nestas ocasiões.

“Desde pequenino que ele sempre gostou de água, principalmente da piscina”, recorda o pai. Começou a praticar natação ainda no colégio com apenas sete anos. Nadava uma vez por semana nas piscinas do Sporting, graças a um protocolo da escola com o clube. Quando deixou o colégio e os treinadores do clube perceberam que o iriam perder, convenceram os pais a deixá-lo treinar na equipa de natação adaptada.

Durante mais de um ano foi alvo de um treino específico para o preparar para a competição. Foi num desses treinos que Rui Gama, treinador principal da natação adaptada no Sporting, avistou o talento de Vicente.

“Houve uma captação espontânea e falei com o professor de natação dele. Disse-lhe que quando o Vicente tivesse braços e pernas de crawl aprendidos, que podia passar para a minha classe”, conta à NiT o treinador que é também um dos técnicos convidados pela Federação Portuguesa de Natação.

Vicente com uma das 12 medalhas (Foto: FPN)

Aos 12 anos começou a treinar de forma mais intensiva com nove sessões semanais. Antes das competições, chegam a fazer 12 treinos por semana. “O talento dele é estar muito à vontade na água. Tinha uma adaptação ao meio aquático bem feita e aprendia muito por imitação ao ver os outros. Isso tornou o processo muito mais simples”, revela o treinador de 39 anos que começou a trabalhar com jovens com deficiência em 2002.

Os treinos são “muito similares” aos que são feitos na natação pura, embora exijam algumas adaptações. “As características do síndrome levam a que tenham algumas necessidades musculares que outros não têm, é preciso fazer trabalho suplementar, trabalhar ainda mais fora de água”, esclarece.

Rui Gama está hoje à frente da natação adaptada do Sporting e sublinha a importância da modalidade e da competição para estes jovens com síndrome de Down, sobretudo na “promoção da autoestima e na socialização”.

Para o pai de Vicente, a natação é um simples motivo para sorrir. “Sempre gostou de nadar, mesmo quando começou a ter os treinos mais a sério, por vezes bidiários. Encarou sempre isso com um sorriso nos lábios porque ele gosta é mesmo da competição e do treino.”

Além de ser “muito competitivo”, é o próprio Vicente que estabelece as suas metas. Antes de partir para Itália avisou os treinadores que queria ser campeão europeu. “Sabíamos que íamos fazer um ataque feroz à tabela de recordes do mundo e colocar o Vicente como o melhor júnior do campeonato”, frisa Rui Gama. “Só não sabíamos é que ele ia vencer todas as provas.”

“Podem dizer o que quiserem sobre a qualidade das competições organizadas para estes miúdos”, nota. “Mas é inegável a qualidade das marcas que conseguiram. É de uma qualidade extrema.”

Para Vicente não há impossíveis e já avisou o pai que “quer ser campeão do mundo no próximo ano”, quando a competição tiver lugar precisamente em Albufeira. É para isso que se irá preparar o jovem que tem outro sonho: conquistar as mesmas medalhas do seu ídolo, o lendário nadador norte-americano Michael Phelps. Bater-se nos Olímpicos ou, neste caso, nos Paralímpicos, é que poderá ser um sonho difícil de concretizar, já que não depende da sua habilidade e resiliência.

Sem qualquer classe específica nos Paralímpicos para atletas com síndrome de Down, os nadadores veem-se impossibilitados de preencher os tempos mínimos para as únicas categorias que lhes permitiriam ir aos Jogos. “Desde sempre que o nosso objetivo passa por lutar contra a discriminação que lhes é feita”, nota Rui Gama.

O atleta do Sporting bateu três recordes do mundo

Apesar de estar cheio de vontade de repetir os feitos do seu herói, essa possibilidade está para já vedada. “Ele fala nos Paralímpicos. Já lhe disse que ele não pode ir, pelo menos para já. Ele percebe que não pode, mas é mais complicado explicar-lhe o porquê”, explica Nélson Pereira.

A impossibilidade de obter o estatuto de atleta paralímpico tem outras consequências. Desde logo, a impossibilidade de obter a bolsa atribuída aos competidores, muito útil para dar condições aos atletas com deficiência, cuja logística do dia a dia dos treinos pode ser um pesadelo.

“É muito complicado para mim e para a minha mulher gerirmos tudo, entre levá-lo ao colégio e aos treinos”, diz o pai de Vicente, que está atualmente a frequentar um curso profissional no 11.º ano. “A luta [pelo estatuto de paralímpicos] é antiga e é travada não só em Portugal mas noutros países do mundo. O Vicente aqui no Sporting tem todo o apoio condições, mas há outros nadadores pelo País que têm muitas dificuldades.”

Enquanto o Comité Paralímpico não resolve o problema, Vicente continua a fazer aquilo que se propõe: ser o melhor e vencer sempre que pode. Fora da água é “um miúdo como os outros”, gosta de jogar PlayStation, de cantar e sobretudo de cozinhar. “Gosta muito da culinária e pastelaria do curso profissional. A parte científica já não gosta tanto (risos)”, explica o pai.

Antes do sonho paralímpico, há outras metas a bater e chegam já no próximo ano como mundial de natação adaptada a ter lugar em casa, em Portugal. E, como sempre, Vicente já avisou: quer ser campeão do mundo. Desta vez, é bem provável que não seja o único a acreditar que a proeza está perfeitamente ao seu alcance.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT