Ginásios e outdoor

O português que deixou tudo para organizar as corridas mais incríveis do mundo

Paulo Garcia tinha um trabalho fixo, casa e carro em Lisboa. Mudou-se para o interior e é responsável pela organização de provas que testam os limites até dos mais fortes.
Fotografia de Thiago Diz.

O equipamento é o mais simples: umas sapatilhas, uns calções e pouco mais. O principal acessório talvez seja mental. Afinal, o que faz alguém ir além dos 42 quilómetros da maratona e fazer percursos que desafiam os nossos limites?

Paulo Garcia conhece como poucos esta comunidade de gente para quem a corrida se tornou algo de diferente. Há trails, há ultra maratonas mas há também aquilo a que ele chama de “maraturismo”, provas que fazem mais do que desafiar os limites. Mais do que um nicho, é uma comunidade.

Através da Horizontes, Paulo Garcia tem estado ligado à organização de algumas das provas mais impressionantes do mundo. Fá-lo em Portugal mas também do lado de lá do Atlântico, num lugar mítico que já faz parte do Guinness como “a maior praia do mundo”. Mas já lá vamos.

Há poucos mais de duas décadas, no que agora parece uma outra vida, Paulo Garcia, andava entre casa, trabalho e ginásio, numa cidade que adora mas que parecia fechar-se. Nasceu em Angola, mas a família acompanhara o pai, retornado. Cresceu na aldeia de Montes da Senhora, na mesma Proença-a-Nova que muitos anos depois voltaria a ser a sua casa.

“Sempre achei que tinha um espírito urbano”, conta à NiT. Estudou em Castelo Branco, viveu no Porto e em Lisboa. Pelo meio teve uma carreira no futebol profissional, nas camadas inferiores, mas em que as lesões mal curadas não davam tréguas. Escolheu uma carreira por Lisboa onde durante anos foi gestor de clientes na Danone. Não é que fosse uma má vida. Apenas não era a que queria ter.

“Estava farto de paredes, prédios, carros… decidi regressar a Proença-a-Nova”, recorda à NiT. Na ideia levava um projeto novo. Em 1998 criou a Horizontes com os dois irmãos. “Em 2000 deixei tudo o que tinha em Lisboa e vim para aqui. Cansei-me da cidade. O meu espírito afinal não era assim tão urbano”, diz com algum humor.

“Na altura foi um choque. Sair da cidade para o interior é muito romântico mas exige uma grande adaptação. Naquele tempo também era mais difícil, hoje a Internet facilita muita coisa. Mas foi uma mudança significativa na minha vida”, conta.

Sempre praticou desporto mas o que faria com a Horizontes era algo de diferente. Começaram com eventos de canoagem e pesca. Em 2004 organizaram o primeiro open ibérico de 24 horas em BTT. Mas com o tempo foram-se orientando cada vez mais para corridas e trails. Não eram umas corridas quaisquer.

Paulo tem 53 anos.

“Há toda um geração de pessoas que tem na prática desportiva uma experiência pessoal. Não é o lado competitivo. Gostam de praticar num lugar que não conhecem, é algo de evasão”. É a tal comunidade de que falávamos ao início. Os tais que desafiam os limites não apenas pelos limites, mas num cenário especial.

Há um lado de história e natureza que se liga a cada percurso que a Horizontes prepara. Têm uma prova que já é tradição na Serra da Estrela. “É a mais antiga prova de trail run em Portugal com mais de cem quilómetros”. Três dias em terras de Viriato, que regressam em junho (e quem cumprir o tempo estabelecido será considerado um Viriato à chegada). Em julho há uma ultramaratona, uma das mais longas distâncias do mundo. A partida é do castelo de Belmonte e segue pela Beira fora, conta-nos.

Ainda este ano vai decorrer a PT1001, uma prova que é um passeio especial pelo país, que já deveria ter acontecido não fosse a maldita pandemia. São 14 dias, a começar a 26 de setembro. De Guimarães ao Algarve, é uma média de 71 quilómetros por dia, atravessando castelos, vales, aldeias históricas, 1001 quilómetros de Portugal. Numa comunidade pequena e dedicada, é o tipo de projeto que corre rápido. Do Brasil à Nova Zelândia, há interessados em inscreverem-se.

Um dos projetos mais impressionantes, no entanto, acontece do lado de lá do Atlântico. Era sonho já antigo que se materializou a partir de uma simples conversa. Paulo conta-nos que já queria há algum tempo ir além da Europa e tentar fazer uma prova em cada continente onde haja um país onde se fale português.

Foi numa das provas que organizaram por cá que Paulo partilhou este sonho com um dos participantes, brasileiro. O acaso dava o tiro de partida para chegar ao tal sonho. “Olhe, Paulo, no Brasil eu tenho o local perfeito”. Qual era? “A maior praia do mundo”.

No extremo Sul do Brasil, já perto da fronteira do Uruguai, há uma extensão de areal de mais de 220 quilómetros. É todo um trail na maior praia do mundo. A praia começa na Barra do Chui, município de Santa Vitoria do Palmar, passa pela do Hermenegildo e termina em Cassino, municipio de Rio Grande. “A prova termina em Rio Grande, cidade fundada por portugueses”. É a história e a natureza a voltarem a tocar-se.

Paulo realça que quando as pessoas ouvem “maior praia” e “Brasil” a associação mais natural é “coqueiros, corpos bonitos e calor”. Não é assim e essa é também a sua beleza. A maior parte do areal é mesmo deserto. Quem ali corre está entre aquele mundo verde da vegetação, azul do mar, com a areia debaixo dos pés. A próxima edição da Extremo Sul Marathon decorre entre 12 e 14 de novembro e promete juntar um grupo de pessoas muito especial.

Fotografia de Thiago Diz.

“Há aquela ideia de que são maratonistas e têm treinos muito intensos”, diz-nos. Mas não é bem assim. “São cidadãos normais, com uma vida normal”, que juntam aquele amor à corrida na sua vida. “Claro que a capacidade de gestão destas distâncias tem de ser fora do comum. O que têm e treinaram muito, e por isso é que é raro ver jovens com menos de 35 anos, é a maturidade mental”, destaca. São os tais “maraturistas”.

Nesta altura já fazem planos para 2022, onde se incluem outras provas no Brasil, país que se tornou também cada vez mais parte da vida de Paulo. A mulher é brasileira, têm um filho e continuam entre dois continentes, entre este recanto mais rural português e aquela imensidão de país que mais parece um continente.

Atualmente com 53 anos, e já mais de 20 anos após ter abandonado a Lisboa que continua a adorar, Paulo não se arrepende de ter deixado para trás aquela vida entre quatro paredes, entre casa, ginásio e escritório.

O seu regresso a Proença-a-Nova acabou por acompanhar também este “regresso à corrida, ao prazer de viajar” que se nota e que faz com que esta tendência, esta pequena e muito peculiar comunidade de corredores, vá continuar a crescer. Chamem-lhe maraturismo. Mas uma palavra parece pouco para descrever este esforço ultra-resistente, onde cada quilómetro é conquistado com amor, por entre cenários incríveis.

Fotografia de Thiago Diz.

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