Ginásios e outdoor

O programa gratuito que ajuda doentes oncológicos a recuperarem qualidade de vida

O Pulsar, da Câmara Municipal de Braga, aceita novas inscrições todo o ano. Funciona como uma "terapia não farmacológica".
Alguns dos participantes do Pulsar.

Em 2016, um doente oncológico que vivia em Braga dirigiu-se à Câmara Municipal para fazer um pedido especial. Debilitado pela condição em que se encontrava, sabia que o exercício poderia ajudar, mas não encontrava ofertas especializadas para a sua condição.

Sensibilizada com o caso, a vereadora Sameiro Araújo tentou encontrar uma solução. No mesmo ano arrancou o Pulsar — Programa de Atividade Física para Doentes Oncológicos.

“Na altura, a oferta em ginásios também não era muita e a autarquia, embora já tivesse vários projetos relacionados com a atividade física, não tinha nada que fosse adaptado a quem estivesse em tratamentos”, explica Paulo Rodrigues, responsável pelo Pulsar à NiT.

O programa nasceu da vontade de ajudar os bracarenses diagnosticados com cancro e que querem combater a “fadiga e a solidão”, causada pela doença.

“Vários estudos demonstram que o exercício físico de intensidade moderada, quando praticado de forma regular, por pacientes oncológicos, produz efeitos benéficos na saúde e bem-estar. É como uma terapia não farmacológica fundamental para combater a patologia.”

Antes de começarem treinar com o Pulsar, os doentes precisam de “um atestado médico que garanta que estão aptos para a atividade física”. Depois basta inscreverem-se na Câmara Municipal e depois são reencaminhados para as primeiras aulas.

“Assim que nos chegam, é feita uma avaliação física geral, para percebermos a força que têm nos membros superiores e inferiores e a condição cardiovascular”, explica o treinador. A seguir é feito um plano de treino personalizado, consoante a necessidade de patologia de cada um.

As primeiras sessões são individuais, com exercícios específicos e adaptados a cada um. Depois, quando estão preparados e, se assim entenderem, passam a integrar as aulas de grupo. “Em tempos o Pulsar foi um programa de reabilitação para doentes oncológicos. Atualmente é mais do que isso. Tentámos que seja um complemento também para a saúde mental, porque quem passa por uma situação semelhante tende a isolar-se e a entrar em depressão”, refere Paulo.

O exercício ajuda a combater a “fadiga, a perda de mobilidade de alguns membros” e também a depressão. O foco inicial é o trabalho cardiovascular. “No início, quando ainda não têm tanta preparação física, ou consciencialização do corpo, apostamos sobretudo em caminhadas. Aliás, no verão, fazem diferentes percursos outdoor. Durante o inverno damos mais ênfase aos circuitos com maior tempo de repouso. E também fazem movimentos funcionais mais específicos para tentar que recuperem alguma da massa muscular que tendem a perder durante os tratamentos”, explica.

Como é uma área tão específica, quando lhe foi apresentado o projeto, Paulo Rodrigues decidiu fazer formações para estar mais preparado para ajudar os doentes oncológicos. “Tive de batalhar contra o desconhecido, para saber quais os exercícios que podia fazer e como poderiam ser adaptados a cada tipo de cancro”, explica o licenciado em Educação Física e Desporto. Depois percebeu que “são precisas pequenas adaptações”, porque “conseguem fazer os movimentos como qualquer outra pessoa”, com atenção à carga e amplitude.

A par da formação teórica, teve também de preparar a parte psicológica. “Nunca é fácil. Quando entrei no projeto tive de arranjar ferramentas que me ajudassem a lidar com certas situações. Hoje em dia, embora continue a sensibilizar-me, consigo proteger-me da dor de vê-los a passar pelos tratamentos. Refugio-me na ideia que estou ali para ajudá-los a ter uma melhor qualidade de vida e a batalhar para superarem aquele momentos menos positivos”, admite.

Paulo já perdeu alguns atletas para a doença, mas os casos de sucesso são superiores e é nisso que se foca. “Fico genuinamente feliz quando deixam o programa, porque é sinal quer venceram o cancro e estão prontos para voltar ao ativo. Não há melhor recompensa que essa”, assume.

Os treinos acontecem às segundas, quartas e sextas, num dos ginásios do Estádio 1º de Maio. Quando está bom tempo, os participantes descem até ao Parque da Ponte, “uma zona verde lindíssima” para aproveitarem também o ar livre.

“Os atletas escolhem se preferem ir de manhã ou à tarde, consoante a agenda dos tratamentos. Depois distribuímos os diferentes grupos por vários turnos. Desta forma há também espaço para quem quer fazer a sessão sozinho.” O exercício é complementado com uma consulta mensal com uma psicóloga, para os ajudar na qualidade da saúde mental, que “é fundamental”.

As inscrições estão abertas em permanência e para toda a gente. “Podem ser feitas na Câmara Municipal de Braga, ou através dos médicos especialistas que já estão conscientes desta oferta. É completamente gratuito.”

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