Ginásios e outdoor

Patrícia Mamona: “Acho que consigo saltar muito mais do que 15,01 metros”

A atleta tem grandes planos para o próximo ano e ganhar medalhas nos mundiais e europeus é o objetivo principal.

Aos 32 anos, Patrícia Mamona chegou nos seus terceiros Jogos Olímpicos ao ponto mais alto da carreira. A atleta tem mais de três dezenas de participações nas principais provas internacionais, de Europeus (com duas medalhas de ouro) a Mundiais. Orientada por José Uva, a triplista conquistou em 2021 o título europeu indoor, uma medalha olímpica de prata e o novo recorde nacional nos 15,01 metros.

Já tinha sido campeã europeia absoluta em 2016 e vice-campeã em 2012. Foi finalista olímpica no Rio2016 e agora subiu a parada, após cinco anos de trabalho. A saltadora assegurou a 26.ª medalha olímpica para Portugal, a 11.ª no atletismo e a segunda no triplo salto, depois do ouro de Nelson Évora em Pequim2008.

No próximo ano, o calendário internacional de atletismo conta com Mundiais, entre 15 e 24 de julho, em Oregon, nos Estados Unidos, e Europeus, em Munique, na Alemanha, entre 16 e 21 de agosto, ambos ao ar livre, depois dos campeonatos do mundo em pista coberta, em Belgrado, entre 18 e 20 de março. “Quero estar no meu melhor e ganhar uma medalha nos Mundiais. Agora, sendo vice-campeã olímpica a pressão está bastante alta, mas até gosto”, conta Patrícia Mamona em entrevista à NiT.

Além de ser uma atleta de alta competição, Patrícia está neste momento a terminar o seu segundo curso superior. Primeiro estudou Medicina nos Estados Unidos e, neste momento, acaba de terminar o segundo ano da licenciatura em Engenharia Biomédica. 

Quando é que começou a sua paixão pelo desporto?
Sempre fui muito ativa. Se havia algo que gostava de fazer era brincar, correr e saltar. Mas a paixão pelo atletismo só começou depois de descobrir as várias disciplinas da modalidade. Existem muitas coisas que se podem fazer além do triplo salto. Percebi muito cedo que gostava de coisas rápidas e difíceis e foi uma das razões pela qual escolhi ser triplista. Sempre gostei das coisas difíceis. Uma das coisas que me faz mais feliz é de poder fazer da minha paixão, a minha profissão. 

É importante continuar a estudar?
O desporto de alta competição tem uma carreira muito curta. O triplo salto é uma disciplina perigosa e tem um risco bastante elevado por isso era importante ter um plano B caso não conseguisse ter os resultados que tive. Era importante assegurar que tinha futuro porque sei que um dia a minha carreira como triplista vai acabar. Além de que não tenho de ser apenas atleta e há muitas coisas que posso explorar. Engenharia Biomédica, neste momento é aquilo que estou a fazer, mas digo muitas vezes que sou um livro aberto. No futuro, quero fazer algo que que me apaixone tanto quanto o atletismo. 

Porque é que decidiu fazer um segundo curso superior?
Entrei em medicina nos Estados Unidos e fiz Pre-Med (porque o curso de Medicina está dividido entre Pre-Med e Medical School). Infelizmente não tive equivalência quando vim para Portugal, por isso escolhi fazer o curso de Engenharia Biomédica. É um curso que consigo conciliar com os treinos e que estava muito associado à medicina.

Mas vai conseguir acabar o curso em três anos?
Aprender é muito importante para o meu desenvolvimento pessoal. Obviamente, não vou conseguir acabar o curso em três anos, como queria. Tenho de cortar o curso em partes e vou fazendo aos poucos. Espero que daqui a dois anos tenha já concluído o último ano. 

Como é que consegue conciliar com a vida de atleta?
Os professores já me conhecem por isso é mais fácil falar com eles e dizer que não posso fazer alguns testes ou trabalhos. Começo sempre por tentar fazer cadeiras com horários que encaixem com os treinos. Depois sou uma pessoa que estuda muito em casa, porque a maioria das vezes tenho de faltar às aulas teóricas, as de laboratório é impossível porque é a parte prática. Vou fazendo aos poucos. Não tenho dificuldades em captar à primeira, por isso das poucas aulas teóricas a que vou, consigo aprender. Quando tenho tempo para estudar, é mesmo para estudar. Tenho este problema que é quando quero fazer alguma coisa tenho de a fazer a 100 por cento.

É importante os professores adaptarem-se ao calendário dos atletas?
No início, quando estava a estudar medicina era mais difícil porque os horários e os professores não tinham tanta flexibilidade. Hoje em dia, com a ajuda do Ministério da Educação, tem sido mais fácil para os atletas de alta competição conciliarem os estudos com os treinos e provas. Ajudou imenso. Agora temos mais atletas a conseguir acabar os cursos e até há bolsas que também têm dado um incentivo para estudar porque realmente é importante. O plano B é extremamente importante nas nossas vidas, principalmente no pós-carreira. E, infelizmente, muitos dos atletas que não tiveram oportunidade de estudar, teriam vidas muito diferentes se tivessem um curso superior.

Consegue conciliar as aulas e os treinos nos mesmo dias?
Neste momento estou a recuperar de uma lesão, por isso passo muito tempo em fisioterapia e nos médicos. Além disso, os treinos também não são tão intensos porque tenho de recuperar. No entanto, normalmente as aulas são sempre entre os treinos. Agora já cheguei a um nível em que não preciso de fazer tanto treinos bidiários como fazia no passado. E o facto de também já não ser ano olímpico dá-me algum descanso. Quando tenho aulas, treino durante toda a manhã e as aulas são durante a tarde. Quando volto da universidade treino novamente ou vou à fisioterapia.

O momento em que Patrícia Mamona venceu a medalha de prata.

Quando é que começa a preparar as competições?
Estou sempre a preparar. Tudo o que eu faço hoje é com o intuito de ser melhor no futuro. Mas em ano olímpico, como é um ano com muita pressão e muito importante, preciso de ser atleta 24 horas por dia e abdico sempre da escola. Prefiro mesmo nem me inscrever no curso. Faço tudo o que é necessário para treinar duas vezes por dia e recuperar entre os treinos, porque é muito intenso. A recuperação é o mais importante. Aproveito nos dias livres, porque normalmente tenho 1 a 2 dias livres por semana. Mas em altura de competições é muito importante ser atleta 24 horas por dia porque qualquer coisa pode influenciar o meu desempenho. Por exemplo, se estiver a treinar muito cansada posso-me lesionar e acabar ali o meu ano olímpico ou o sonho olímpico. Por isso, para mim é muito importante nesse ano abdicar de algumas coisas e a escola é uma delas.

E depois do ano olímpico?
Depois do ano olímpico já podem vir as outras coisas, que também são importantes para mim. Agora, por causa da pandemia estive dois anos sem ir para a escola e ser atleta 24 horas por dia também cansa um bocadinho. É uma rotina em que sinto que preciso de outras coisas para me distrair. A escola também serve um bocadinho para isso, esquecer o atletismo.

E a nível físico, sente muita diferença quando há competições ou não?
Sinto mais diferença a nível pessoal porque é uma descarga de pressão. Nos jogos olímpicos a pressão está toda em cima de mim. Basta essa tensão acabar que já me sinto muito melhor e mais aberta a outras coisas. O corpo também sente isso. Mas a nível de intensidade e de motivação no treino, é sempre igual. Tento sempre dar o meu melhor em cada um.

Em termos de dieta, tem alguma restrição alimentar?
Vai depender de que fase da época é que estou. Temos a pré-época e duas épocas competitivas — a de inverno e a de verão. No início, quando estamos a criar uma base tenho de ter uma alimentação mais rica em hidratos de carbono porque preciso de ter energia para conseguir aguentar os treinos, que normalmente são mais longos e de muitas repetições. Embora nesta altura a intensidade seja elevada, não é tão alta como é na parte competitiva. Por isso preciso de ter mais massa gorda do que na época competitiva.

Quem elabora o plano alimentar?
A dieta é feita por uma nutricionista. Tenho mais liberdade na pré-época e aproveito para jantar fora e estar com os meus amigos. No Natal como muito, mas também tenho de pensar que se comer demais posso estragar todo o trabalho que fiz até então. Normalmente tenho alguma liberdade, mas não é total.

E quando a época competitiva começa?
Assim que a época competitiva começa tem de ser uma dieta muito mais restrita. Às vezes sinto que estou a passar fome. Mas também pode ser psicológico porque nessas alturas como os treinos são mais curtos, os dias custam mais a passar e parecem mais longos. Aqui sim, é mais restrito. Tenho de prestar muita atenção a tudo, principalmente à massa gorda. Faço muitas vezes o teste Dexa, que é o teste mais fiável que temos para medir a massa gorda. Para mim, cada centímetro, cada percentagem, é importante para conseguir estar no peso ideal. 

Patrícia quer bater novos recordes nacionais.

Esta limitação física preocupa-a?
Neste momento estou com uma condição que vai ser temporária. Já passei por coisas muito piores. Estou só com uma inflamação no joelho, que é algo muito normal em triplistas porque estamos sempre a puxar pelo corpo. Às vezes temos de aprender a descansar um pouco. Estou tão entusiasmada com tudo o que aconteceu este ano que quero dar sempre o meu melhor em todos os treinos. Isto é apenas uma forma de o meu corpo dizer para acalmar e descansar, cuidar bem de mim para retomar os treinos o mais rápido possível.

Em que é que isso pode mexer com os seus objetivos para o início de 2022?
Sinceramente acho que isto não é impeditivo para um 2022 de sonho, que é para isso que a trabalhar. Tive a minha melhor época de sempre em 2021 e tive dois imprevistos: tive Covid-19 e ainda a primeira rotura muscular. No entanto, consegui saltar 15,01 metros. Não é uma pequena inflamação no joelho que me vai impedir de saltar mais.

O calendário do próximo ano assusta?
Este ano vai ser uma ano recheado porque devido à pandemia muitas competições foram adiadas para 2022. Mas vai ser algo novo para todos os atletas. Temos a época de inverno com os mundiais de pista coberta em Belgrado e depois no verão os mundiais e os campeonatos da Europa de ar livre. Estas são as três provas mais importantes que tenho, mas obviamente as outdoor são sempre as principais. Quero estar no meu melhor e ganhar uma medalha nos mundiais. Ainda por cima agora tenho uma medalha de vice-campeã olímpica a pressão está bastante alta, mas até gosto.

Já alcançou um dos objetivos, os 15 metros. Conseguiu mais 1 centímetro. Qual é o próximo objetivo?
Obviamente que o próximo objetivo é fazer 15,02 metros porque significa que consegui melhorar 1 centímetro ao meu recorde antigo. Mas tenho outros objetivos que são mais tangíveis, como medalhas em mundiais e conseguir revalidar o título de campeã da Europa que perdi quando fui operada. Mas estou a lutar novamente para conseguir atingir esse nível.

E consegue saltar ainda mais?
Sinceramente acho que consigo fazer mais que 15,02 metros. Tecnicamente o meu salto foi 15,14 metros, porque saltei quase 13 cm antes da tábua. Sei que tenho nas pernas 15,14 metros. Mas fazê-los outra vez sei que não é fácil. Já tive a experiência de 2016 ter feito o meu recorde nacional e só cinco anos depois é que voltei a bater esse recorde e foi por um centímetro. Por isso, sei que um centímetro dá muito trabalho. Mas estou confiante que vou saltar muito mais que 15,01 metros.

Nos treinos esse também foi o recorde?
Não. Nunca saltei mais do que 14,50 metros nos treinos, mas é uma coisa muito comum no triplo salto. Porque as atletas com quem compito são atletas que se excedem nos grandes palcos e nesses grandes momentos. Tenho quase a certeza que 90 por cento delas também não faz o seu recorde pessoal nos treinos. O próprio momento da competição puxa por nós. Há muita coisa envolvida. Mas das poucas atletas que conseguem, nesses momentos de muita pressão, excederem-se, batem grandes recordes pessoais que não conseguem bater no dia a dia, em treino.

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