“Vou mostrar a estes gajos que estão todos enganados”. Foi isso que Pedro Cardoso pensou quando lhe disseram que nunca mais voltaria a ter uma vida normal. Aos 34 anos, ouviu dos médicos que dificilmente conseguiria recuperar das consequências do cancro. Tinha perdido 20 quilos, mal conseguia caminhar e passou meses sem comer normalmente. Hoje, aos 50 anos, continua a treinar, terminou um Full IRONMAN e quer voltar a competir.
“O meu propósito é mostrar às pessoas que é possível melhorar e recuperar qualidade de vida”, conta à NiT. Natural de Gondomar, no Porto, Pedro sempre foi ligado ao desporto. A grande paixão começou cedo, ainda em miúdo, quando o pai lhe ofereceu uma bicicleta.
“Eu não a largava, andava com ela de manhã à noite, fazia saltos nas escadas, arranjava as bicicletas dos meus amigos e transformava as minhas”, recorda. Cresceu numa altura em que os miúdos passavam os dias na rua e rapidamente o ciclismo se tornou parte do seu dia a dia.
Mais tarde, a entrada no mercado de trabalho obrigou-o a abrandar. Formou-se, trabalhou como gestor de centros comerciais e acabou por criar o próprio negócio na área de facility management (ou gestão de instalações). O ritmo profissional intenso deixou menos espaço para treinar, embora nunca tenha abandonado totalmente o desporto. Continuava a pegar na bicicleta ao fim de semana e pedalava pela cidade.
O triatlo, no entanto, ainda estava longe dos planos. Pedro acompanhava a modalidade à distância e admirava especialmente a exigência da natação. “Sempre achei fascinante a componente técnica. Quando se aprende em adulto, o progresso é muito lento”, explica.
A corrida era a modalidade de que gostava menos, sobretudo pelo desgaste físico, mas via o triatlo como um desafio completo. Em 2008, quando Vanessa Fernandes conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim, ficou ainda mais impressionado. “Aquilo fez-me perceber o quão brutal e exigente era o triatlo.”
A doença
Dois anos depois, a sua vida mudou por completo. Em 2010, Pedro começou a sentir uma pequena dor na gengiva, perto do dente do siso. Como sempre teve cuidados de saúde e higiene oral, não imaginava que pudesse ser algo grave. Ainda por cima, o perfil não encaixava nos casos mais comuns daquele tipo de tumor. “Este tipo de cancro costuma aparecer em pessoas mais velhas, fumadoras ou com hábitos pouco saudáveis. Eu era tudo menos isso”, diz.
Durante meses procurou ajuda médica, mas foi sendo tranquilizado. Diziam-lhe que poderia ter apenas um problema dentário. Só quando as dores pioraram durante umas férias é que decidiu procurar uma segunda opinião. “Tive sorte porque o médico que me acompanhava estava fora”, recorda. Fez uma biópsia e, 14 dias depois, recebeu uma chamada urgente para regressar ao hospital. Tinha um carcinoma espinocelular localizado na cavidade oral, atrás da garganta.
O impacto foi imediato. Precisou de apoio psiquiátrico para lidar com o diagnóstico e iniciou um tratamento agressivo. Foi submetido a uma cirurgia de seis horas que lhe retirou parte do maxilar e deixou cicatrizes profundas na boca e na bochecha esquerda. O receio era ficar com uma cavidade aberta entre o céu da boca e o nariz.
“Quando acordei da cirurgia, o cenário era muito mau, mas não tão mau como eu imaginava”, recorda. Esteve internado 15 dias no IPO do Porto e, apenas três semanas depois de ter alta, já estava novamente em cima de uma bicicleta. “Ainda tinha as cicatrizes frescas, mas queria voltar a sentir-me livre”, conta à NiT.
A fase mais difícil surgiu com a radioterapia — fez mais de 30 sessões. As queimaduras na boca tornaram-se severas, perdeu o apetite e começou a ter dificuldades em engolir. Chegou aos 60 quilos e sentia-se extremamente fragilizado. “Perdi força, vigor e até liberdade de movimentos. Havia dias em que caminhar era difícil.”
Ver esta publicação no Instagram
Mesmo assim, recusou aceitar a ideia de que nunca mais conseguiria recuperar. No seu 35.ª aniversário, reuniu amigos em casa e recebeu equipamento de ciclismo como presente. Pouco depois começou a treinar lentamente, apesar das limitações físicas. Também comprou uma máquina de musculação após ouvir uma médica dizer-lhe que dificilmente voltaria a ganhar peso.
As dúvidas dos especialistas acabaram por se transformar em motivação. “Fiz uma aposta comigo mesmo. Não aceitava ficar assim para sempre.” Aos poucos, começou a recuperar massa muscular e resistência.
O desporto foi essencial na recuperação
A grande vitória chegou no verão de 2011, quando terminou uma meia maratona de BTT de aproximadamente 40 quilómetros. Ainda sofria com os efeitos da radioterapia, mas conseguiu cortar a meta após mais de duas horas de esforço. “Mesmo hoje em dia fico arrepiado só de pensar nisso. Foi uma pequena grande vitória.”
No ano seguinte, em setembro de 2012, terminou a Meia Maratona do Porto. Paralelamente, procurou alternativas para recuperar a qualidade de vida que tinha antes. Considera que os tratamentos médicos foram fundamentais para eliminar o tumor, mas sentiu falta de acompanhamento noutras áreas da recuperação.
“O foco da medicina é tratar a doença, mas muitas vezes esquecem-se do doente. A ambição e os medos do paciente também são muito importantes”, afirma. Foi por isso que começou a experimentar terapias complementares, sobretudo homeopatia — onde são usadas substâncias naturais, como extratos de plantas e animais e minerais — e programas de desintoxicação alimentar.
Mudou a alimentação, passou a ter mais cuidados com o descanso e manteve o desporto como parte central da rotina. Diz que começou a notar melhorias significativas cerca de dois anos depois.
Com o passar do tempo, o triatlo deixou de ser apenas uma admiração distante. Em 2021 conheceu um amigo com cancro que sonhava terminar um IRONMAN. O convite para o acompanhar acabou por mudar-lhe a vida. Pedro começou a treinar seriamente e decidiu fazer do desafio uma homenagem a todos os que enfrentam doenças graves.
Em 2023 terminou o Full IRONMAN de Cascais, uma das competições mais exigentes da modalidade, em 12 horas e 40 minutos. “Depois de muitas cirurgias, radioterapia, quimioterapia e muita luta, consegui terminar a prova”, diz orgulhoso. “O desporto e o triatlo levou-me a patamares incríveis”.
No fato, levou os nomes das pessoas que o ajudaram durante o processo de recuperação. “A sensação foi indescritível. Eu levava uma missão no peito e uma mensagem de esperança”, recorda. Quer mostrar que desistir não está nos planos e que “é possível fazer coisas fantásticas mesmo com limitações”. No ano seguinte, fez o Half IRONMAN a convite da organização do IRONMAN Portugal. Hoje tem uma página no Instagram chamada “Anything is Possible” ou seja, “tudo é possível”, para ajudar e inspirar outras pessoas.
Em 2025, decidiu fazer uma pausa das competições, embora continue a treinar regularmente. “Nem que seja uma caminhada junto ao rio, tenho sempre de me mexer.” Agora prepara o regresso às provas em 2026 e admite que quer voltar a fazer outro IRONMAN, mas sem obsessão por resultados. “Eu não quero ser campeão. Quero longevidade, saúde e continuar ativo durante muitos anos.”
Pelo meio, tenta concretizar outro objetivo: comprar a bicicleta de sonho para as longas distâncias, através de um crowdfunding online. Já conseguiu 2.631€ de um total de 8.000€ pedidos.
Hoje, Pedro também faz questão de estar disponível para ajudar outras pessoas que estejam a passar por situações semelhantes. Diz mesmo que sente quase uma obrigação moral de não deixar ninguém sozinho. “Se alguém precisar de conversar ou de ir dar uma volta de bicicleta junto ao rio, eu estou disponível.”
Carregue na galeria para ver algumas imagens de Pedro a fazer o que mais gosta.







