Ginásios e outdoor

Ele fez 16 mil quilómetros num ano — e tornou-se no primeiro a cruzar África a correr

São mais ou menos 386 maratonas em 352 dias. Uma proeza atingida pelo britânico Russ Cook.
Foto: @jordancore4

386 maratonas em 352 dias é um desafio que poucos considerariam concretizável, quanto mais arriscarem-se a tentar completá-lo. Não é o caso de Russ Cook. O britânico de 27 anos terminou a 7 de abril a sua corrida pelo continente africano, num percurso que começou numa ponta e acabou na outra. No total, Cook percorreu cerca de 16 mil quilómetros entre o Cabo das Agulhas e a Tunísia em 352 dias — o equivalente a 386 maratonas.

Também conhecido como “Hardest Geezzer” (“o tipo mais duro”), começou o desafio em abril de 2023 e torna-se agora o primeiro do mundo a completar em corrida que cruza África. Quando atravessou a meta, foi recebido por amigos, familiares, pela namorada e por vários tunisianos que o aplaudiam efusivamente. Com um merecido daikiri de morango e algumas cervejas, o atleta desabafou. “Acho que o meu corpo disse finalmente, bom amigo, relaxa um minuto. Preciso de fazer alguns alongamentos, talvez. Mas hoje, nada de correr”.

“Ainda estou a tentar absorver tudo, na verdade, a tentar aproveitar. A ideia de não correr hoje é maluca. É muito, muito estranho”, conta Cook ao Good Morning Britain da ITV, ao vivo do ponto de chegada. Apesar dos festejos, dos 30 pares de sapatilhas gastos e dos 16 países percorridos, houve ainda tempo para fazer as contas aos contratempos. Depois de percorrer a África do Sul e a Namíbia em 50 dias, Russ e a equipa foram assaltados em Angola, onde perderam as câmaras, telemóveis, dinheiro e passaportes.

No Saara teve de correr à noite para evitar o calor, sem esquecer as tempestades de areia que por lá acontecem regularmente. Ou ainda um momento no Congo, quando julgava que a boleia o iria levar para o meio da selva — onde eventualmente morreria.

Na fronteira entre a Argélia e a Mauritânia chegou a ficar retido devido a problemas com o passaporte. E claro, a certo ponto, o jovem teve de pausar o incrível ritmo do desafio, devido a problemas físicos — felizmente, foi fazendo paragens para ser observado por especialistas.

 
 
 
 
 
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O que mais surpreendeu o britânico foi a quantidade de pessoas que o foram acompanhando ao longo da loucura. Muitas chegaram mesmo a juntar-se ao atleta e outras seguiam-no assiduamente nas redes sociais, atingindo milhões de visualizações. “É completamente fora do normal a quantidade de pessoas que me seguiram e apoiaram. Seria incrível, depois disto, conseguir fazer com que se mexessem mais. Faz maravilhas à vida de qualquer um e mudou a minha”, conta à BBC.

Na verdade, o objetivo original passava por completar o equivalente a 360 maratonas em 240 dias — prazo que teve de ser estendido, devido a alguns imprevistos. Ainda assim, o que leva qualquer pessoa a tentar completar semelhante loucura? No caso de Russ foi uma espécie de “compensação” pela sua vida anterior, onde sofria bastante com problemas de jogo, álcool e saúde mental. 

“A maior motivação para mim era o legado da minha família e do nome Cook”, revelou. E desistir nunca lhe passou pela cabeça. “houve vários momentos difíceis, mas eu nunca poderia desistir. O único caminho era meta”. 

Antes da partida, o atleta explicou à agência britânica “PD” que o grande objetivo era simplesmente aproveitar a vida ao máximo. “Sou um homem completamente normal, por isso, se conseguir fazer isto, espero que as pessoas o possam aplicar nas suas vidas da forma que quiserem”, afirma. “Para 99 por cento não se trata de atravessar África a correr, mas talvez de perseguir um pouco mais os seus sonhos”.

No entanto, a missão não se tratava apenas de uma ambição pessoal. Russ inciou o “Projeto África” que procurava angariar fundos para doar à organização britânica Running Charity, que oferece programas de saúde mental e corrida para jovens em situações de sem-abrigo. A Sandblast foi outras das instituições escolhidas e que promove a consciencialização do povo Saharaui — um grupo étnico do ocidental do Deserto do Saara, descendentes mistos de árabes e indígenas africanos.

Apesar de ser inegável a conquista de Ross, há ainda algumas dúvidas sobre se é efetivamente o primeiro a percorrer toda a extensão do continente. A World Runners Association — um grupo de nove atletas que atravessaram o globo a pé — afirmou que Jesper Kenn Olsen, um dos seus membros, foi o primeiro a percorrer toda a África durante o seu desafio de “corrida mundial”, onde correu vários continentes. 

Diz-se que Olsen começou o desafio a 28 de dezembro de 2008 em Taba, no Egito, e correu 12791 quilómetros até ao Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, completando a jornada em 2010. “Olsen percorreu o Egipto, Sudão, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Moçambique, Suazilândia e África do Sul. Cumpriu assim os critérios para uma viagem completa por África”, disse Phil Essam, presidente da WRA, ao “The Guardian”. 

A rota significativamente mais longa de Cook era de sul para norte e ao longo da costa oeste e não em linha reta. Mas isso não foi uma preocupação para o próprio, pelo contrário. “Não ouvi nada sobre isso, para ser franco. Mas há muitas pessoas antes de mim que fizeram muitas corridas importantes e parabéns a todas elas porque são grandes desafios. Não tenho nada além de respeito por elas, na verdade”, contou ao Good Morning Britain. 

Os planos, para já, passam por festejar, fazer a barba e passar algum tempo com Emily, a namorada, que não via há 14 meses. 

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