Ginásios e outdoor

Saltou de um avião, mas o paraquedas não abriu. “Nunca tive medo de morrer”

Aos 35 anos, Jordan Hatmaker partiu várias vértebras, a perna, esmagou a medula espinhal e rebentou uma das próteses mamárias.
O acidente foi em 2021.

Jordan Hatmaker é, literalmente, uma sobrevivente. Aos 35 anos, em novembro de 2021, quando andava a obter a licença de paraquedismo e lhe faltavam apenas 10 saltos para terminar, acabou por ter um acidente. A 4000 mil pés do chão (cerca de 1200 metros de altitude), o paraquedas não abriu como era suposto. Ficou gravemente ferida, mas sobreviveu.

Ao bater no chão partiu várias vértebras e uma delas esmagou a medula espinhal. Como bateu primeiro com a perna esquerda, acabou por rachar também a tíbia, perto do tornozelo, e ainda rebentou uma das próteses mamárias que tinha colocado.

Naquele dia já era a segunda vez que ela e o treinador (com o quem nunca tinha saltado antes) saltavam sobre os campos e terras agrícolas de Suffolk, na Virgínia, nos EUA. Ainda no chão, combinaram os movimentos que pretendiam replicar durante a queda livre e depois saltaram juntos, a 13.500 pés, como tinham planeado.

Apenas se separaram na hora de abrir o paraquedas, para não arriscarem ficarem enroscados um no outro, e foi nesta altura que Jordan percebeu que algo estava errado. Tentou puxar a corda que ativa o paraquedas e nada aconteceu: estava a cerca de 4.000 pés, a altitude mais baixa a que já tinha chegado em queda livre.

O acidente foi provocado por um cabo que se enrolou numa das pernas. Ainda tentou libertar-se, mas caía cada vez mais depressa. “Ainda pensei: ‘vou tirar o sapato’, porque me estava a atrapalhar, mas não consegui porque tinha dado nó duplo nos atacadores.” Tinha este hábito porque uma vez já tinha perdido uma sapatilha durante um salto e não queria que se voltasse a repetir.

Uma vez que o paraquedas normal não foi acionado corretamente, o de reserva acabou por se abrir. “Senti que me empurrava para cima e consegui controlá-lo por alguns segundos.” Foi o suficiente para conseguir cair num campo de relva, em vez da pista de alcatrão para onde se dirigia.

Antes disso, o paraquedas principal abriu-se, mas como Jordan não tinha tirado o cabo do arnês, acabou por ficar num “plano descendente”. Isto acontece quando os paraquedas se afastam em direções opostas e, consequentemente, a descida torna-se ainda mais rápida, em vez de lenta, como era o suposto.

“Naquele momento só pensava em como sair daquela situação. Estava estranhamente calma, nunca pensei que ia morrer, mas sabia que estava descer rapidamente em direção ao chão e que aquilo ia mesmo doer.” Ainda assim, achou que ia apenas partir uma perna, o que a deixou chateada porque tinha planos para escalar até ao acampamento base do Monte Everest três dias depois.

 
 
 
 
 
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Jordan sempre adorou aventura e tudo o que representasse um desafio, mas nunca lhe tinha acontecido algo tão arriscado. “Nunca me preocupei com segurança, achava sempre que tudo ia correr bem.” Com o positivismo que a carateriza, em 2015, decidiu experimentar o paraquedismo. “O meu sonho desde miúda que era voar. Se alguém me perguntasse que animal eu gostava de ser, eu respondia que era um pássaro.”

Com o passar dos anos os amigos encorajaram-na a obter a licença para saltar de paraquedas, para passar a saltar sozinha — jamais imaginaram que poderia ser vítima de uma queda tão aparatosa. Depois do acidente, Jordan lembra-se de estar deitada no chão a gritar por ajuda.

“Tentei levantar-me e não consegui mover nada abaixo da cintura. Pensei que estava paralisada.” Passaram uns quantos minutos até ter que as primeiras pessoas se aproximaram. Meia hora depois apareceu a ambulância, e mais tarde o helicóptero, que a levou para o Hospital Geral Sentara Norfolk.

“Parecia uma eternidade. Os paramédicos cortaram-me o equipamento e tentaram colocar-me numa maca, mas foi a dor mais insuportável que senti em toda a minha vida. Disse-lhes que se estivesse paralisada preferia que me matassem, não queria continuar a viver dessa forma.”

Quando deu entrada no hospital foi sedada e após cinco dias nos cuidados intensivos foi transferida para o piso de Traumas Intermediário. Logo após o acidente foi submetida a uma extensa cirurgia na coluna, seguida de duas operações à perna. “Precisei de oxigénio durante muito tempo e usei aparelho ortopédico por meses e meses. A certa altura havia hastes de metal atravessadas da cintura até ao pé.”

Na escala de deficiência da American Spinal Injury Association, que vai de A a E, onde A significa paralisia completa, recebeu a classificação B. “Os médicos não sabiam qual ia ser a extensão da minha lesão. Não gostavam de me dar muitas esperanças, mas eu estive sempre otimista. Manter uma perspetiva e atitude positivas ajudaram-me a recuperar.”

As pessoas que a visitavam (e também os médicos) tinham dificuldade em acreditar que estava tão bem física e mentalmente. Afinal, Jordan era uma das raras sobreviventes a um acidente de paraquedismo. Pensavam que seria difícil manter a alegria que lhe era característica, mas Jordan nunca quis acreditar que os ferimentos lhe poderiam mudar a vida.

“Foi uma batalha constante na minha mente: uma parte de mim estava preocupada a pensar que seria incapaz de fazer tudo aquilo que gostava, mas a outra sabia que isso seria era impossível. Disse a mim mesma e a todos os outros que ia voltar à ação em alguns meses.”

Esteve um mês inteiro internada e depois desse período teve alta e ficou na casa do namorado. Nessa altura ainda não tinha muito controlo sobre as pernas, mas poucas semanas depois conseguiu usar uma cadeira de rodas e mais tarde começou a andar com um andarilho.

Apenas três meses após o acidente, começou a andar sem qualquer tipo de ajuda. Hoje, volvidos mais de dois anos e muitas sessões de fisioterapia depois, já não toma qualquer tipo de medicação e não é acompanhada clinicamente de forma regular.

Embora permaneça com o lado esquerdo dormente, voltou a trabalhar, e resolveu partilhar a sua história através das redes sociais. Decorrido um ano do acidente, no dia 3 de dezembro de 2023, chegou ao acampamento base do Everest, como havia planeado antes do acidente.

Escalou a maior montanha do mundo sozinha, acompanhada apenas pelo guia, apesar da família a ter tentado demover. “Foi difícil, mas estava mais determinada do que nunca. Deu-me uma enorme sensação de realização.” Em breve espera percorrer a cadeia montanhosa das Dolomitas, nos Alpes italianos, e também tem interesse em escalar algumas montanhas no Chile e no Equador.

Quanto ao paraquedismo, voltou a saltar mais uma vez, em outubro passado, sobre o deserto de Moab, no estado do Utah, mas acompanhada. “Se estivesse sozinha, teria ficado apreensiva, mas como estava presa a um profissional, estava bem. Fiquei super feliz por estar lá em cima novamente.”

 
 
 
 
 
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