Ginásios e outdoor

Simone Biles: a preparação para os Olímpicos adiados e a superação dos abusos sexuais

Os últimos anos da melhor ginasta de sempre dos EUA têm sido de superação. A prova adiada para 2021 será a sua última olímpica.
A terceira mais medalhada da História.

Simone Biles tem 23 anos e, se somarmos sete a esse número chegamos ao total das suas medalhas olímpicas e mundiais. É a ginasta norte-americana mais bem sucedida de sempre, e a terceira mais medalhada da História. Porém, o seu percurso não se tem feito só de pontos positivos.

O pai desapareceu quando era bebé, a mãe lutava com problemas de toxicodependência até lhe retirarem os filhos. Biles e os irmãos foram adotados pelos avós depois de estarem num orfanato, e, em 2018, a atleta revelou ter sido uma das mais de cem vítimas de abusos sexuais por parte de Larry Nassar, ex-médico da seleção olímpica de ginástica dos EUA, e que foi condenado, em 2019, a 175 anos de prisão.

Biles tem 1,42 metros e tem como objetivo acabar com os estigmas de beleza associados a este desporto. “Não importa o quanto és boa no teu desporto, na tua vida, ou no emprego, a primeira coisa em que as pessoas vão falar é no teu aspeto. Mas tu vais prosperar, tornar-te alguém espetacular. Vocês são lindas por dentro e por fora”, referia a atleta numa palestra mesmo antes da pandemia, no auditório nova-iorquino Girls Club, no Lower Eastside, citada pela “Vogue”.

“[Quando comecei] focavam-se no meu cabelo, em como as minhas pernas eram longas. Mas Deus fez-me desta forma, e sinto que se eu não tivesse estas pernas e estes gémeos, não seria capaz de saltar tão alto e ter todos os movimentos que já têm o meu nome”, continuava, antes de admitir ter sido influenciada por Gabby Douglas, outra atleta afro-americana, numa altura em que as raparigas caucasianas dominavam o desporto.

Simone Biles é considerada a melhor ginasta de sempre do país, incluindo a categoria masculina. Nas competições individuais, não perdeu uma única prova desde 2013.

Aliás, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, a atleta tinha 19 anos e algumas colegas admitiam estar todas a competir para o segundo lugar. Ganhou quatro medalhas de ouro nesse verão, e uma de bronze. Foi também após as provas que ficou conhecida pela frase: “Não sou a próxima Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles.”

Porém, em 2018, o seu nome inundou a imprensa mundial, mas não devido às suas conquistas atléticas. Após a revelação de que Larry Nassar, médico da seleção olímpica de ginástica dos EUA, teria abusado centenas de atletas, incluindo os cinco membros da equipa de ginástica dos Jogos Olímpicos de 2012 e quatro dos cinco membros da equipa de 2016, levantaram-se ainda suspeitas sobre o que a USA Gymnastics (USAG) e o comité norte-americano Olympic e Paralympic saberiam e teriam escondido.

Biles acabou por confessar, em dezembro de 2018, ser uma das vítimas de abuso sexual por parte do ex-médico e é, atualmente, a única atleta de alta competição que confessou e que ainda está a competir, representando essas mesmas duas instituições. Além disso, e também totalmente inesperada, foi a pandemia do novo coronavírus, que obrigou ao adiamento dos Jogos Olímpicos 2020, em Tóquio (Japão).

Apesar dos seus 23 anos, essa é já uma idade bastante avançada para uma ginasta de alta competição. E, por isso, um ano pode ser uma eternidade. Biles já avisou, aliás, que serão os seus últimos Jogos Olímpicos.

Atualmente, e com a situação pandémica bastante complicada nos EUA — são o país mais afetado pela pandemia, em termos absolutos — a sua rotina foi alterada, e tem sido difícil continuar com a exigência de treinos a que o seu nível obriga. O seu plano teve de ser revisto, e a deceção de lidar mais 12 meses com a USAG instalou-se. Ainda hoje a atleta sofre de ansiedade e depressão, e toma medicação.

Para não perder a forma física, Biles chegou a fazer aulas de twerk online e desafios virais em casa, fez sessões com os treinadores via Zoom, e passeou (muito) o cão. “É difícil para nós, atletas, estarmos tanto tempo fora do nosso local de treino.” Em meados de maio, após sete semanas em casa, retomou os treinos numa versão “semi-normal” e o foco nos próximos Olímpicos.

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