Com mochila às costas, muitos quilómetros pela frente e paisagens que se estendem até perder de vista, o Caminho de Santiago continua a atrair milhares de pessoas, todos os anos. Sozinhas ou acompanhadas, fazem-se à estrada por diferentes motivos, mas com o mesmo objetivo: viver a experiência, com a certeza de que, na meta, não serão as mesmas pessoas de quando partiram. Para Márcia Soares e Marta Sobral, ambas de 28 anos, o desafio, que se prolongou por 135 quilómetros, aconteceu pela primeira vez neste mês de abril.
Apesar de viverem em cidades diferentes — Márcia em Lisboa e Marta no Porto — tornaram-se grandes amigas há mais de uma década, quando se conheceram na Internet. A ligação nunca se perdeu ao longo dos anos.
A ideia de fazer o Caminho de Santiago partiu de Marta, que já há algum tempo queria estrear-se nesta experiência. “Ela mandou-me mensagem a perguntar se eu queria e eu disse logo que sim porque sabia que seriam umas férias diferentes”, conta Márcia, que trabalha como fotógrafa, à NiT.
As duas começaram o percurso a 5 de abril, partindo de Rubiães, já perto da fronteira com Espanha, e terminaram seis dias depois, a 11. A escolha do ponto de partida não foi ao acaso: iniciar no Porto implicaria um percurso mais longo e exigente, algo que preferiram evitar nesta primeira vez. Em média, faziam cerca de 25 quilómetros por dia — embora tenha havido um em que fizeram apenas 19 e outro em que chegaram aos 31.
Cada etapa demorava cerca de seis horas, com início por volta das 9 da manhã e chegada ao destino pelas 16 horas. A preparação para esta aventura não foi diferente do que já têm na rotina. Afinal, treinam no ginásio regularmente e estão habituadas a caminhadas. “Ambas gostamos muito de caminhar pela cidade, mas não com uma mochila às costas”, brinca Márcia. “Mas costumamos andar e correr na passadeira no ginásio. A Marta também faz muitas caminhadas nas montanhas.”
Mais do que a preparação física, as amigas destacam a importância do lado mental — e de fazer o Caminho acompanhadas. “Se fosse sozinha também teria conseguido acabar, mas seria muito mais difícil. Puxávamos muito uma pela outra”, confessa.
O que levar na mochila?
No que diz respeito ao equipamento, há um consenso: menos é mais, mas escolher bem fazer toda a diferença. A roupa deve ser leve, respirável e adaptável às mudanças de temperatura ao longo do dia. “As calças que se podem transformar em calções são muito importantes, porque há momentos de frio e, pouco depois, já está calor. Um casaco impermeável e um corta-vento também são essenciais.”
Um poncho para se proteger da chuva, uma capa para a mochila, meias específicas para caminhada (com um material mais forte para não haver fricção e prevenir as bolhas) têm de fazer parte do kit.
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Nos pés, a escolha do calçado pode ditar o sucesso da experiência. As sapatilhas de caminhada impermeáveis são recomendadas, mas houve uma surpresa para Marta e Márcia: as sandálias. “Nos últimos três dias só as usávamos e os pés iam mais confortáveis. Acabou por ser uma das melhores decisões”, revela.
A mochila deve levar apenas o indispensável. Entre os itens essenciais estão a vaselina e o creme hidratante para os pés, pensos, protetor solar e uma garrafa de água de um litro. O peso deve ser reduzido ao mínimo possível, até porque há várias oportunidades ao longo do caminho para reabastecer.
Na alimentação, a estratégia também passou por simplificar. Optaram por levar apenas barrinhas de frutos secos, que são “leves e dão muita energia, especialmente a meio do dia”. “Parávamos sempre para comer em cafés porque há muitos pelo percurso. Tentávamos não andar com muita comida para levarmos menos peso.”
Ao longo do dia, faziam cerca de três paragens: uma a meio da manhã, outra para almoço — com cerca de 45 minutos — e uma última antes da chegada. Pequenas pausas de 20 minutos eram suficientes para recuperar energias. “Gostávamos de apanhar sempre uma sombra”, recorda.
Entre os erros mais comuns, destaca o excesso de bagagem. “Devem evitar levar coisas de que não precisam. Eu levei tops a mais, mas percebi que há sempre lavandarias perto dos alojamentos. Como as roupas são de material respirável, secam rápido.”
Se a bateria do telemóvel aguentar, também não precisa de levar powerbank. “Não é preciso estar sempre a ver o GPS porque pelo caminho há setas de 100 em 100 metros, além de haver outras pessoas. Cada grama de peso conta”, destaca.
No que diz respeito às estadias, optaram por reservar alojamentos locais com antecedência — ao contrário do modelo mais tradicional de pernoitar em albergues sem marcação. “Como era a primeira vez e queríamos descansar bem, e ter alguma privacidade, marcámos alojamentos locais nas aldeias onde sabíamos que íamos ficar.”
No final, a experiência superou todas as expectativas e já querem repetir. Desta vez, ponderam fazer o caminho pela costa, que acompanha o mar ao longo de Portugal e Espanha. “Nós fizemos o central, que passa mais pelas aldeias e vilas”, explica.
O Caminho de Santiago é, agora, uma aventura que Márcia recomendaria “a 100 por cento”. “Perguntam-me se vale a pena e eu digo sempre que sim. É uma semana em que nos esquecemos de mexer no telemóvel porque estamos só a ver as paisagens bonitas. É bom desligar do trabalho e das redes sociais e respirar o ar puro. Quando chegamos, é um alívio e um enorme sentido de missão concluída. Todos deveriam fazer isto pelo menos uma vez na vida.”
Carregue na galeria para ver algumas das fotografias tiradas ao longo do percurso.








