Ginásios e outdoor

YOGAtv: já nasceu a Netflix do ioga em português

A história curiosa de como a plataforma streaming portuguesa nasceu do lado de lá do Oceano Atlântico e está pronta para crescer.
É de 7 a 13 de outubro.

Há projetos que nascem de grandes investimentos. Outros são apostas que tiverem tempo para ir crescendo, primeiro como sonho, depois como objetivo. E que arrancam a sério quando deixam de ser algo individual para se tornarem uma ideia coletiva.

Foi um pouco assim que surgiu a plataforma de streaming YOGAtv, com uma oferta em português, feita por quem sabe da matéria. E se num primeiro momento podemos pensar que é só para um nicho, há algo que convém esclarecer desde início: o ioga pode ser para toda a gente.

Catarina Henriques, mentora do projeto e instrutora de ioga há mais de uma década, descobriu isso mesmo, primeiro na sua vida e depois ao mudar de país. Ao chegar aos EUA, Catarina percebeu, pelo contraste, que ainda havia alguma resistência ao ioga em Portugal. É uma questão cultural, uma que de certa maneira até a ela induzia em erro.

Há a ideia de que o ioga é para um grupo específico de pessoas mas chego aos EUA e havia mais de 30 milhões de pessoas que praticavam ioga”, com maior ou menor regularidade. “Como com a comida, não é preciso ser-se vegan para provar um prato vegan”.

O ioga pode ainda estar a crescer por cá mas é assunto para mais conversas do que imaginamos. Desde 2016 a viver nos EUA, primeiro em Filadélfia e, mais recentemente em Baltimore, Catarina Henriques explica à NiT que o marido é investigador na área do cancro na Universidade de Maryland. Um dos tratamentos complementares que por lá se tem estudado para doentes oncológicos é precisamente o ioga.

No ioga cabe, por isso, um mundo maior do que se possa pensar. E em alguns casos encontramos pontos de contacto curiosos. Uma das razões que a levou a pensar num projeto em português de Portugal, foi o facto de a maior parte das coisas que se encontravam online na nossa língua serem do Brasil.

O canal quer também ser um ponto de união entre toda a comunidade do ioga que se expressa em português. Não será por isso acaso que entre os primeiros subscritores tenham surgido portugueses a viver na Bélgica ou no Norte da Europa. Ao ligarem-se a este mundo ioga, mantém também o seu contacto com a nossa língua. Catarina é a fundadora do canal mas “este é um projeto coletivo”, realça à NiT. “A génese da YOGAtv tem mesmo a ver com isso. A própria palavra ioga, do sânscrito, significa ligar, unir”.

“Há quem pense que o ioga é uma coisa muito séria. É, se o quisermos. Pode ser algo muito divertido.”, realça. No canal é possível, por exemplo, ter aulas de ioga em família, com miúdos e graúdos. “E é uma coisa divertida para fazer em família, precisamente em tempos de pandemia. É um momento de conexão, diversão e relaxamento”. Há também um programa de ioga para ansiedade. “É o que está a ter mais sucesso nesta altura. Porque será?”, pergunta de forma retórica. Afinal de contas, são tempos estranhos estes de pandemia os que vivemos.

Ali encontram-se também conteúdos para pré e pós-parto ou para utilizadores mais seniores. Há abordagens mais tradicionais, mais próximas dos ensinamentos de uma técnica milenar com origem na Índia, que serão a escolha certa para quem já se aventurou há mais tempo no mundo do ioga, mas também propostas para iniciantes e simples curiosos, ainda à procura de descobrir, afinal, o que é este mundo do ioga”.

O lado de relaxamento e meditação também merece atenção especial na plataforma. A ideia passa por ter um serviço premium nesta área, em que a qualidade dos profissionais se combina com este lado funcional, de se poder ter uma aula ou um workshop onde se quiser. Com aquela vantagem extra de não ter que levar com anúncios a meio de um exercício — o tipo de coisa que facilmente estragava um momento de relaxamento.

A plataforma também tem planos para adaptar o site no futuro para tornar os conteúdos mais acessíveis a populações que por vezes são esquecidas neste tipo de ofertas, como pessoas cegas ou surdas. “Às vezes é tão fácil incluir as pessoas, é só uma questão de ir à procura de soluções”. “O objetivo”, resume, “é desmistificar o ioga e ter algo para qualquer pessoa”.

Antes da plataforma

Catarina é formada em psicologia. Muito antes de chegar aos EUA, ainda aqui por Portugal, estagiou no Tribunal de Menores do Baixo Vouga, “precisamente na área de alienação parental. Foi um bocado duro. São problemas muito reais”. Na altura, já era professora de ioga mas ainda estava a decidir o que queria fazer da vida.

Aquele era o tipo de emprego em que não era fácil desligar quando se chegava a casa. Eram crianças e famílias em situações difíceis. “Não conseguia sair do tribunal e desligar, fazer de conta que os problemas já não eram nada comigo”. Percebeu que queria fazer algo diferente, que em certos casos pudesse ser uma ajuda antes dos problemas. De certa maneira foi assim que ela própria chegou ao ioga.

Quando perguntamos a Catarina quando se aventurou no ioga, a resposta é surpreendentemente precisa: “no dia 3 de novembro de 2008”. “Foi uma época conturbada na minha vida”, conta-nos. “Muita gente chega ao ioga quando há algo na sua vida que não está bem. E no meu caso o ioga foi a melhor coisa que poderia ter feito nessa altura, em termos de ansiedade, de stress, mesmo de saúde. Foi um tempo em que não me preocupava tanto com a minha saúde e o ioga também me trouxe essa consciência”. Foi lição que levou consigo.

A mentora do projeto.

“Conheci o meu marido no contexto do ioga. Ele foi meu aluno. Eu sei que isto não é ‘boa prática’”, ri-se Catarina ao recordar a história. E antes que algum sobrolho se levante explica: o marido foi bolseiro na Universidade de Duke, quando a bolsa terminou voltou a Portugal para terminar a tese de doutoramento. Foram tempos exigentes e o ioga foi um escape. O então aluno foi para casa dos pais em Ansião, para acabar a tese e, curiosamente, todas as semanas Catarina ia a Ansião dar uma aula. “Claro que não foi logo. Foi só passados uns meses” é que professora e aluno se começaram a tornar algo mais.

Uma pequena ressalva: este périplo amoroso não é um simples desvio à história. Está, na verdade, ligada à génese da YOGAtv. O casal juntou-se e a dada altura chegou a namorar à distância. O futuro marido tinha nova oportunidade nos EUA enquanto Catarina ainda tinha aquela vida meio saltimbanco de instrutor sem estúdio fixo.

“Começámos a namorar em 2013. Ele foi para os EUA em 2014 e eu só me juntei a ele em janeiro de 2016. Custa estar longe mas foi uma abertura de horizontes. Aqui este trabalho [instrutor de ioga] também é mais valorizado. Não há nada como vir para cá e imergir nesta cultura, muito diversa, para mudar de panorama”, recorda.

Quando partiu para os EUA para se juntar ao marido, Catarina sabia algo: o ioga era algo que poderia fazer a partir de qualquer lado. E mais: não queria construir algo que ficasse ligado a um só local. “Nunca se sabe o que é a vida”. Um dia voltará a Portugal e os planos de construir algo que fizesse a viagem de volta consigo foram desaguar à YOGAtv.

A pandemia foi um desafio mas também uma motivação para abrir a plataforma. “Senti esta insegurança [das pessoas] e comecei a pensar também no que podia fazer. Foi nessa altura que percebi que este ia ser um projeto coletivo”. Começou a estabelecer contactos e a juntar conteúdos.

Ao passear pelo canal, percebe-se a diversidade de modalidades mas também de instrutores, todos eles certificados e apostados em diferentes áreas, que ali se encontra. É o tipo de projeto que é também um reflexo destes tempos, em que a tecnologia, quando bem usada, consegue juntar gente dos mais diversos lugares, com algo em comum.

A pandemia atrasou os planos mas o objetivo era abrir “ainda em 2020”. Foi alcançado in extremis. O canal foi inaugurado a 27 de dezembro. “Mas cumprimos”. Há já planos para os próximos tempos e a plataforma continua a crescer. Uma das vantagens existentes é que instrutores de ioga também se podem inscrever na plataforma e chegar assim a mais alunos.

A plataforma não é um simples website. Foi criada especificamente para vídeo. É possível haver sessões em livestream. Ao bom jeito de uma Netflix, a mesma conta serve diferentes pessoas na mesma casa. E é mesmo possível ter mais do que um dispositivo a passar, no mesmo momento, diferentes conteúdos.  A subscrição mensal custa 30€. Quem subscrever por um ano terá dois meses de acesso grátis. Para os interessados, vale a pena também acompanhar a plataforma nas redes sociais, onde há sempre promoções que podem surgir.

Neste lado de comunidade que pretende ser o espírito do projeto, a YOGAtv quer também dar apoio a associações. Uma das que já conta com essa colaboração é a Associação Quinta das Águias, em Paredes de Coura, um abrigo para animais. Fica a dica: ao subscrever usando o código QA30 tem não só acesso a 30 por cento de desconto como garante, todos meses, que 30 por cento da sua subscrição é para apoiar a associação.

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