Durante mais de uma década, José Gonçalves — mais conhecido por Zé das Fotos — reuniu o equipamento que lhe permitia trabalhar à vontade nas provas desportivas. No entanto, bastaram cerca de 45 minutos para perder quase tudo. “Roubaram-me o equipamento comprado ao longo dos últimos 12 anos”, conta à NiT. O assalto aconteceu na tarde de domingo, 26 de julho, depois de uma prova em Santiago do Cacém.
Antes de regressar a casa, José e a família decidiram parar na Lagoa de Santo André para darem um mergulho. “O carro estava fechado e não havia nada à vista. Quando voltámos, tinham arrombado o canhão da porta, deitado os bancos para a frente e levado tudo o que era tecnológico”, recorda.
Aos 54 anos, o fotógrafo freelancer, natural da Lousã e residente em Miranda do Corvo, é um rosto conhecido entre quem participa em provas de trail e outras competições. Trabalha também em casamentos, batizados, eventos sociais e para várias câmaras municipais, mas foi nas corridas que conquistou uma comunidade fiel de atletas que já o reconhece em praticamente todos os fins de semana.
“É algo que me deixa muito orgulhoso”, admite. “O importante é conseguir fotografar todos, seja o primeiro ou o último.” Essa preocupação tornou-se uma das marcas do seu trabalho e explica porque é habitual os participantes procurarem pelas imagens assinadas por Zé depois de cada prova.
O percurso até chegar a este ponto começou muito antes das máquinas digitais dominarem o mercado. José estudou Comunicação Social, com foco na produção e realização de audiovisuais. Iniciou a carreira na fotografia em 1994. Na altura, dedicava-se sobretudo à publicidade, então conhecida como fotografia industrial, produzinho imagens para catálogos, folhetos e campanhas comerciais. “Passei por muitas lojas e ainda apanhei o preto e branco”, recorda.
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A mudança para o digital alterou por completo o setor. Em 2012, muitas lojas acabaram por encerrar e José ficou desempregado. O ponto de viragem aconteceu no ano seguinte, quando foi convidado pela organização do Lousã Trail para fotografar a prova. O resultado abriu-lhe novas portas e acabou por definir o rumo que a sua carreira tomaria.
Desde então, passou a colaborar com organizações e autarquias e foi se especializando na fotografia de trail e de desporto. Hoje, percorre sobretudo a zona entre o sul do Mondego e o Baixo Alentejo e, fora dos meses mais calmos do verão, tem agenda preenchida quase todos os fins de semana. Em alguns chega mesmo a marcar presença em três provas diferentes.
Apesar da experiência acumulada, cada evento exige preparação. Antes de começar a fotografar, José estuda o percurso, identifica os pontos de passagem dos atletas e escolhe os locais onde poderá captar as melhores imagens. O objetivo passa por conseguir registar praticamente todos os participantes, algo que diz alcançar em mais de 95 por cento dos casos.
“Temos de pensar rápido e agir rápido. Se um sítio não resulta, é preciso encontrar outro na hora”, explica. “Às vezes o spot é espetacular, mas a luz não ajuda. É preferível abdicar desse local e garantir uma boa fotografia noutro.”
Enquanto os anos iam passando, Zé ia juntando cada vez mais material fotográfico — e foi este que desapareceu em Santiago do Cacém. Do interior da bagageira levaram três máquinas fotográficas, oito objetivas, várias lentes, cartões de memória e baterias. A perda só não foi ainda maior porque uma das mochilas ficou escondida atrás de uma geleira e passou despercebida aos ladrões.
Depois de dar conta do assalto, o fotógrafo chamou a GNR. Horas mais tarde, surgiu uma pequena esperança: um computador portátil antigo, que utilizava apenas para tratar de algumas fotografias durante as provas, apareceu abandonado junto à estrada, assim como os documentos. Uma mulher encontrou o material e entregou-o num café da zona.
“O computador era de 2015 e já não tinha grande valor comercial”, explica. “Foi por isso que apareceu. O resto nunca mais foi visto.” Até ao momento, também não há qualquer pista sobre os responsáveis. “Não sabem de nada, ninguém viu nada”, lamenta.
Apesar do prejuízo elevado, José garante que não pretende recorrer a campanhas de angariação de fundos, embora os amigos já tenham lançado alguns apelos. Chegou a ponderar criar uma página para esse efeito, mas acabou por desistir da ideia. “Pensei nisso, mas sei que consigo dar a volta”, diz.
“Neste trabalho é preciso amealhar para conseguir sobreviver e está complicado. Perdeu-se o respeito por quem vive da fotografia. Há quem ache que é fotógrafo porque tem um bom iPhone ou comprou uma máquina com uma lente. Não tenho nada contra isso, mas há pessoas que vivem disto”, lamenta.
Carregue na galeria para ver algumas imagens captadas pelo Zé das Fotos.







