Saúde

Portugal está a praticar medicina de catástrofe: “Vivemos os piores dias do SNS”

As palavras da médica Ana Isabel Pedroso refletem aquilo que muitos profissionais estão a viver.
Os profissionais estão exaustos.

Quando os recursos materiais e humanos não são suficientes para dar resposta a tantas doentes, aplica-se a medicina de catástrofe. Na prática, é o momento em que os profissionais de saúde têm de equacionar quais são os pacientes com mais probabilidade de sobreviver. Por outras palavras, quem se deixar morrer e quem se tenta salvar.

De médico a enfermeiros, muitos garantem que é esse o cenário que se vive por estes dias nos hospitais portugueses. Fala-se de exaustão e frustração, mas nunca em baixar os braços. Mas até quando vão aguentar aqueles que estão na linha da frente?

Ana Isabel Pedroso, médica de medicina interna e intensiva, que já partilhou fotografias das marcas que a Covid-19 lhe deixa no rosto, utilizou agora a sua conta de Instagram para falar precisamente deste tipo de medicina, que se vê obrigada a praticar face ao descontrolo da Covid-19 em Portugal.

“Vivemos por estes dias, os piores dias do SNS [Serviço Nacional de Saúde]. Vivemos por estes dias a prática da Medicina de Catástrofe, quando nenhum de nós o queria fazer. Invocando em nós sentimentos de angústia por não conseguirmos fazer a Medicina que estamos habituados, por não conseguirmos dar a todos os cuidados que desejaríamos, por nunca sermos suficientes em número (sejamos nós quantos formos), por estarmos a praticar Medicina de Catástrofe, sem termos tido formação nesse sentido”, começa por desabafar.

A médica do Hospital de Cascais explica que a medicina de catástrofe é aplica-se quando existem mais doentes do que recursos. Quando se vêem obrigados a escolher os que têm maior probabilidade de sobrevivência. “Se há uma escolha, significa que alguém fica para trás! E a isso nunca ninguém se vai habituar”, revela numa publicação feita esta segunda-feira, 18 de janeiro.

Quanto maior for a probabilidade de sobreviver, mais vou investir naquele doente”

E continua: “As equipas médicas têm de ter uma capacidade de triagem muito eficaz. Triagem é palavra-chave: perante várias pessoas que não estão bem é preciso distinguir as que têm maior probabilidade de sobrevivência e começar por aí. Quanto maior for a probabilidade de sobreviver, mais vou investir naquele doente. Na medicina normal vamos a todos. Aqui é preciso tomar decisões.”

No final, em forma de apelo, Ana Isabel Pedroso pede que a população não obrigue os profissionais de saúde a tomarem mais decisões difíceis. Em vez de pensarem que estão a confinar, a profissional diz que o pensamento dos portugueses deve ser o de estarem  a resguardar-se, a cuidar dos que mais amam. “Estão a cuidar de vocês e assim cuidam do nosso País.”

Também esta segunda-feira, tal como a NiT noticiou, a Ordem dos Médicos (OM) falou desta situação e publicou aquele que é um “grito de alerta pelos doentes”.

“Os profissionais de saúde neste momento têm de tomar decisões complexas e muito difíceis em contexto de medicina de catástrofe e de estabelecimento de critérios de prioridade e não conseguem salvar todas as vidas. São eles que desesperam perante os limites do sofrimento e da compaixão, mercê da incapacidade de tratar o outro, e assim são vítimas de burnout e sofrimento ético. São eles que, além dos doentes, sofrem no terreno, e que aguentam a pressão brutal sobre o SNS”, alertou a OM.

“Ninguém pode continuar, por más decisões políticas, a tolerar a morte silenciosa de quem não consegue gritar”, continuou, acrescentando que há muito que ultrapassámos a linha vermelha.

O  bastonário da Ordem dos Médicos, José Miguel Guimarães, pede também para se adotar com a maior brevidade um confinamento geral, no mínimo semelhante àquele que aconteceu em março e abril de 2020 quando, destacam, estávamos a viver “uma situação muito menos severa”.

Uma das imagens que acompanham o desabafo da médica.

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