Saúde

Mirabilis: a associação que quer alertar para os perigos dos ecrãs nos miúdos

Foi criada por duas amigas que dão palestras com conselhos que podem ajudar os pais e os jovens a lidar com a problemática.
A associação foi criada em 2022.

Cada vez mais ecrãs nas mãos de miúdos cada vez mais pequenos. Esse é um cenário que avança a toda a velocidade, mas que cada vez mais vozes contestam. Entre elas estão das duas amigas que fundaram a Associação Mirabilis, que tem como missão alertar as famílias para o impacto dos ecrãs nos mais novos. “O nosso objetivo é ajudar os pais e os filhos a tomar decisões conscientes sobre a utilização de todos os dispositivos”, começa por contar à NiT Mariana Norton Dos Reis, a fundadora do projeto, juntamente com Matilde Sobral, ambas com 42 anos.

Atualmente, dão sessões de informação e workshops que até agora têm funcionado maioritariamente nas escolas, por acreditarem que é neste contexto que é o local primordial de ensino. Ainda assim, também têm atuado em empresas e em grupos de famílias desde 2022, ano da criação da associação. Defendem que para mudar as mentalidades dos mais novos é preciso que os três pilares (os pais, os alunos e os professores) estejam alinhados.

“Estes vícios de que nós falamos existiam nas nossas próprias casas. A Matilde tem sobrinhos mais velhos e já há cerca de dez anos que está muito interessada e por dentro deste tema. Eu só me comecei a aproximar quando os meus filhos começaram a ficar mais velhos, principalmente quando notei que um deles teve uma alteração de comportamento em relação ao telemóvel. Dei-lhe o primeiro aos 10 anos e por volta dos 12 percebi que ele já não respeitava as regras que lhe impunha.

Foi o momento em que sentiu que precisava de mais informação. E no meio deste processo teve a sorte de se voltar a cruzar com Matilde, que apesar de serem amigas de longa data tinham seguido caminhos diferentes. Acabaram por embarcar neste projeto juntas e depressa perceberam que em Portugal “estava tudo muito apático em relação a este problema”.

Recorreram aos EUA, sempre na vanguarda, onde já existiam diversos estudos sobre o tema e onde também já tinham estudado. Acabaram numa associação chamada Screen Strong, inspiração para o projeto, que começou a apresentar-se pela primeira vez em 2022, mas só no início de 2024 começou a divulgar o site e o nome.

“O que nós pensamos é que se tínhamos estas ferramentas todas que aprendemos para lidar com esta problemática, tínhamos de partilhá-las. Tem de chegar a mais gente, a todos os estratos sociais, para que todos possam ter acesso. Tudo aquilo que ensinamos são evidências científicas, está comprovado por estudos, não são apenas preocupações nossas.”

Neste momento a equipa conta com sete pessoas: as duas fundadoras, o responsável pela comunicação e o conselho científico, que conta com alguns profissionais de diferentes áreas, como a pedopsiquiatria, por exemplo. O propósito de todos é transmitir a mensagem numa linguagem clara, para que todos a possam perceber.

“Ao início as pessoas diziam que nós estávamos a ser alarmistas e exageradas, as coisas só começaram a mudar quando em 2023 apareceu um estudo da Dove, que acabou por fazer com que este tema fosse falado no nosso País. Saiu em várias capas de jornais e aí começou a ser dada mais importância. Foi também a partir desta altura que começamos a ter mais pessoas a aparecer nas nossas conferências.”

“Quando os nossos filhos são pequenos o cérebro ainda está em desenvolvimento e tem uma capacidade muito maior de criar dependência nos ecrãs.”

Atualmente, nas sessões de informação conseguem passar várias ideias sobre alguns dos temas. Na primeira parte abordam o funcionamento de cérebro e de seguida partem para uma fase mais prática, onde falam do uso dos smartphones, dos videojogos e dos conteúdos pornográficos, por exemplo.

“O que acontece é que depois os pais saíam dali desassossegados, a achar que fazem muita coisa errada. Por isso criámos os workshops, para que possamos ter mais tempo com eles e criar quase um tempo de partilha. São feitos em quatro dias diferentes, com grupos de cerca de vinte pessoas, e aqui voltamos a abordar alguns temas com maior profundidade, temos mais tempo para ouvir casos concretos, partilhar e encontrar soluções em conjunto.”

De qualquer forma, o conteúdo e a forma é sempre prensado e adequado ao público, uma vez que este é um assunto sensível. Por exemplo, no caso dos miúdos, as duas amigas abordam sempre a temática de uma perspetiva mais positiva, começando por falar no cérebro e nas atividades que lhe fazem bem, aconselhando a irem brincar com a natureza e a música. Desta forma, são eles próprios que chegam à conclusão que os telemóveis são prejudiciais.

Uma coisa importante de realçar é que nós adoramos tecnologia, não queremos voltar ao século passado. Queremos apenas alertar para os perigos evidentes, os ecrãs nas mãos dos miúdos não podem ser brinquedos nem babysitters, e é isso que muitas vezes acaba por acontecer. Os pais nem se apercebem que os perigos são muito maiores que os benefícios.”

Quando fala em perigos Mariana refere-se à exposição precoce, ao tempo prolongado de exposição e em grande parte ao conteúdo que é visto, uma vez que mesmo os jogos são cada vez elaborados e viciantes. “Quando os nossos filhos são pequenos o cérebro ainda está em desenvolvimento e tem uma capacidade muito maior de se viciar nas coisas e de criar dependência. Isto porque ainda não tem certas faculdades que os adultos já desenvolveram, o que faz com que não sejam capazes de desligar e com que se torne tudo mais aditivo.”

Desta forma, as fundadoras defendem algumas regras básicas que todas as famílias deveriam de adotar, apesar de referirem que não existe uma solução única. Deve adiar-se o uso dos ecrãs nos miúdos o máximo de tempo possível, bem como acabar com os dispositivos no quarto, durante a noite, uma vez que isso prejudica o sono e afeta os níveis de ansiedade.

Relembram também que existem telefones com teclas, que possibilitam que os pais estejam na mesma em contacto com os filhos. Além disso, referem que é essencial não dar nenhum tipo de ecrã antes dos três anos.

“Os pais não têm totalmente culpa, a verdade é que não existia informação como há agora. O que temos de fazer é utilizá-la para acabar, ou pelo menos diminuir as consequências deste vício sem substância. Achamos que não é um problema cá, mas está mais presente em Portugal do que as pessoas acham. Existem casos de internamentos graves, relacionados com a adição à pornografia, aos videojogos e às redes sociais. Alguns deles precisariam de ficar internados para fazerem um processo de desintoxicação, coisa que nem sempre é possível por haver pouca disponibilidade de camas para o efeito nos serviços de pedopediatria, nomeadamente no do Hospital da Estefânia estão completamente cheias.”

Para falar de um assunto tão pesado como este, Mariana e Matilde acabaram por escolher um nome com muito simbolismo, que trouxesse leveza e representasse tudo aquilo que defendem. Mirabilis, em latim, significa maravilha e é exatamente isso que as fundadoras pretendem: que os jovens vão para a rua e se maravilhem com o mundo que os rodeia ao largar os vícios. Acreditam que é a dar-lhes mais natureza, mais desporto, mais música e mais atividades no geral que vão conseguir diminuir esta problemática.

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