Saúde

A “doença dos três nãos” que afeta Cara Delevigne não tem cura — só tratamentos

A NiT falou com o médico Paulo Morais, que explicou tudo o que precisa de saber sobre a psoríase.
Captou todas as atenções.

Anualmente, as atenções voltam-se para os degraus do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, onde inúmeras celebridades desfilam com as criações mais arrojadas a propósito da Met Gala, um dos eventos de maior importância para o mundo da moda.

Na edição de 2022, realizada a 2 de maio, contudo, os looks extravagantes não foram os únicos a causar burburinho entre o público que a acompanhava e a imprensa que reportava. Cara Delevigne surpreendeu ao mostrar, sem pudor, os efeitos da psoríase no seu corpo, a doença dermatológica de que sofre.

A modelo surgiu na passadeira vermelha da Met Gala com um tailleur vermelho da Dior mas, no momento em que posou para os fotógrafos, despiu o blazer e revelou o tronco em topless coberto de tinta dourada. Nas zonas que a tinta não cobria, destacavam-se as manchas avermelhadas e escamosas típicas da enfermidade.

Colocava assim, a nu, uma patologia muitas vezes escondida, embora afete cerca de 125 milhões de pessoas em todo o mundo e de 250 mil portugueses, segundo Paulo Morais, especialista em dermatologia e venereologia que falou com a NiT sobre o assunto. 

A “doença dos três nãos”

Em entrevista à NiT, o profissional explica que “a psoríase é uma doença crónica de caráter inflamatório, imuno-mediada, potencialmente grave e incapacitante, mas não infecciosa”. As suas características levam-na a ser conhecida como a “doença dos três nãos”, uma vez que “não mata, não tem cura e não contagia”.

Ainda assim, como em muitas enfermidades crónicas, a psoríase cruza “fases de agravamento (surtos) e períodos de melhoria ou remissão, os quais podem ser espontâneos ou resultantes de intervenções terapêuticas”.

Evidências atuais, contudo, fazem com que a ciência não encare a psoríase apenas como uma patologia cutânea, mas também sistémica, “associada a comorbilidades cardiometabólicas (diabetes, obesidade, hipertensão arterial, dislipidemia, esteatose hepática não alcoólica e doença cardiovascular), articulares (artrite psoriática) e psicológicas (depressão e ansiedade)”.

Outras consequências, aponta Morais, relacionam-se com o isolamento e discriminação social, maior mortalidade, diminuição da produtividade laboral e aumento da utilização dos sistemas de saúde, com consequente impacto económico e social”.

A patologia afeta ambos os sexos de forma semelhante. “Embora se possa manifestar em qualquer idade, a maioria dos casos ocorre entre os 15 e os 30 anos, sendo também comum entre os 50 e os 60 anos de idade.”

As várias formas da doença

Em 80 por cento dos casos, as manifestações da psoríase são ligeiras mas, dependendo da extensão de pele afetada, podem ser moderadas ou graves. Enquanto, no primeiro caso, a quantidade de tecido comprometido não chega a 3 por cento, nos mais preocupantes ultrapassa os 10 por cento, descreve o especialista.

Acrescenta: a predominante é a psoríase em placas. “Manifesta-se por placas vermelhas e descamativas envolvendo preferencialmente os cotovelos, joelhos, região lombossagrada e couro cabeludo, associando-se, frequentemente, a comichão e escoriações resultantes do ato de coçar.”

Outras formas de psoríase são a “gutata (pequenas manchas vermelhas bem individualizadas), inversa (ocorre sobretudo nas pregas da pele), pustulosa (formação de bolhas com pus rodeadas por pele avermelhada), eritrodérmica (inflamação atingindo mais de 90 por cento da superfície corporal e acompanhando-se de prurido intenso, dor e aceleração do ritmo cardíaco) e artropática (inflamação das articulações)”.

Sobre esta última, conhecida como artrite ou artropatia psoriática, diz ainda tratar-se de “um tipo de artrite inflamatória crónica que ocorre em cerca de um quinto dos doentes com psoríase e em média uma década depois dos primeiros sinais cutâneos”.

As causas

Apesar de não existir uma resposta concreta a doença parece ter “uma origem multifatorial, envolvendo a interação de fatores genéticos, imunológicos e ambientais”, avança o médico.

“Estão descritos vários genes que conferem risco ou suscetibilidade para a doença e existe história familiar em cerca de um terço dos casos”, explica.

Completa: “em doentes geneticamente predispostos”, o aparecimento da psoríase é promovido por certos estímulos externos ou fatores ambientais, de acontecimentos stressantes a traumatismos na pele, queimaduras solares, tempo frio e seco, amigdalites estreptocócicas e obesidade.

Não tem cura, mas existem tratamentos

No sentido estrito da palavra, não existe cura para a psoríase. Contudo, existem tratamentos disponíveis que possibilitam uma resolução de grande parte (ou até de todas) as lesões psoriáticas. São, igualmente, responsáveis pelo “controlo dos sintomas cutâneos e articulares, permitindo, assim, a melhoria da qualidade de vida” dos pacientes.

O sucesso do tratamento relaciona-se com a sua “individualização”. Deve ter em conta “idade, sexo, comorbilidades associadas, forma da doença, resposta a tratamentos prévios, capacidade de adesão, opinião do doente e recursos disponíveis”, lista o profissional.

Entre as possibilidades estão as terapêuticas tópicas — que incluem cremes, pomadas e champôs —, “que geralmente são suficientes para o controlo das formas ligeiras de psoríase”. Para os casos de maior gravidade ou em situação de resistência aos tratamentos locais, existem soluções na forma de medicamentos orais ou injetáveis; e fototerapia, que recorre à radiação ultravioleta A ou B.

Casos graves e selecionados podem recorrer a medicamentes biológicos. Apesar de “sujeitos a protocolos de prescrição específicos, garantem grande probabilidade de controlo da doença. São opções extremamente eficazes e seguras, desprovidas de toxicidade cumulativa e específica de órgão, que bloqueiam de forma seletiva as células e mediadores inflamatórios envolvidos na patogénese da psoríase. Constituem, à data, o maior avanço no tratamento da psoríase”, aclara Paulo Morais.

Um estilo de vida saudável como atenuante

Um estilo de vida saudável, com um regime alimentar adequado, exercício físico regular e que o tabaco e as bebidas alcoólicas, pode ajudar no combate à psoríase, se considerarmos o seu caráter sistémico e as comorbilidades cardiometabólicas que lhe estão associadas, clarifica o médico.

Salienta também que, “apesar de parecer não existir relação entre a alimentação e a psoríase, e não existirem medidas dietéticas que curem a doença psoriática, várias dietas, alimentos e ingredientes mostraram-se promissores na capacidade de reduzir ou prevenir a inflamação no corpo”.

Recomenda-se, portanto, “um regime alimentar pobre em gorduras, doces e alimentos processados e a redução da ingestão de carnes vermelhas, laticínios e solanáceas”, como batata branca, tomate ou beringela. Aconselha-se “o consumo de frutas e vegetais, carnes magras ou outras proteínas como feijão e legumes”.

Maquilhagem. Sim ou não?

O clínico compreende que alguns pacientes sentem necessidade de camuflar as lesões cutâneas, recorrendo a maquilhagem, mas salienta que aplicá-la “pode ser um desafio”, uma vez que “as lesões ativas são habitualmente descamativas, facilmente irritáveis e provocam sensibilidade cutânea”.

Importa, portanto, optar por produtos “que sejam mais hidratantes e evitar-se aqueles que possam secar a pele. Devem ser evitados cosméticos que contenham fragrâncias fortes, corantes ou álcoois, óleos essenciais, ingredientes botânicos, orgânicos ou totalmente naturais e longas listas de ingredientes”.

Suavizar a pele antes de aplicar o que quer que seja deve ser uma preocupação. “Após o uso dos produtos de prescrição tópica recomenda-se o uso de hidratante, seguido do protetor solar e da maquilhagem”. Quando a hora chegar, a remoção cuidadosa dos produtos utilizados é fundamental, podendo recorrer-se “ao método de dupla limpeza”.

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