Saúde

A incrível história do mais antigo Dr. Palhaço da Operação Nariz Vermelho

Mark Mekelburg desempenha este papel há 19 anos. Desde então, colocou sorrisos a muitas crianças — e foi ao funeral de algumas delas.
Tem 66 anos.

“Sou americano, dos bons”, foi assim que Mark Mekelburg se apresentou à NiT. É o mais novo de nove irmãos, filho de pais que cresceram no campo e que sempre fizeram de tudo para que a família não passasse dificuldades. Tem 29 sobrinhos, 66 sobrinhos-netos e mais de 30 de sobrinhos bisnetos. Nasceu em Denver, no Colorado, mas é com a mulher e os dois filhos que vive atualmente, em Sintra.

Como é que veio parar a Portugal? É uma longa (e bonita) história. Estava na segunda classe quando decidiu que queria ser professor. A partir do quinto ano, começou a praticar desporto por influência dos irmãos. Futebol americano, basquetebol, atletismo, luta livre, fez um pouco de tudo e a certa altura pensou em seguir essa área. No fundo, era juntar duas paixões: o ensino e o desporto, sendo professor de educação física.

Foi parar à Concordia University, no Nebraska, uma universidade que forma professores. Pelo caminho, foi também tendo algumas experiências no teatro, mas nunca papéis muito grandes. 

“No segundo ano da faculdade, tinha uma aula de drama, fiz um papel e comecei a apaixonar-me pelo teatro. Aí, decidi mudar de curso e seguir inglês e drama — nessa altura não havia apenas drama ou teatro”, conta à NiT Mark, que agora tem 66 anos. Apesar de estar a fazer a licenciatura, não havia aulas de representação ou encenação, dois mundos que queria explorar. Mas isso não o impedia, já que era autodidata, uma característica que, garante, o acompanha quase desde sempre.

Formou-se e foi para Detroit, a maior cidade do estado do Michigan, à procura de emprego como professor. No entanto, a sua primeira profissão acabou por ser lixar moldes de metal numa fundição que tinha meia dúzia de empregados. Tinha 23 anos.

“Nos seis meses em que estive naquela empresa aprendi uma lição. O trabalho era muito aborrecido e repetitivo, fazia a mesma coisa vez após vez. O meu chefe veio ter comigo e disse-me que sabia que o trabalho era chato, mas que o truque era criar desafios. Por exemplo, fazer uma determinada coisa em cinco minutos. E eu fiz isso. Foi uma lição que apliquei depois em várias situações da minha vida.”

Passou cinco anos a representar Ronald McDonald 

Ainda em Detroit, Mark recebeu uma chamada do assistente do diretor da escola secundária que tinha frequentado em Denver, que agora era diretor numa outra escola. Estava a convidá-lo para dar aulas em Nova Orleães, no Louisiana, um convite que aceitou imediatamente. Ficou lá entre os seus 23 e 24 anos, mas, afinal, não era algo de que gostava assim tanto.

“Já tinha experimentado um pouco na faculdade mas, quando cheguei ao outro lado da secretária, senti-me capaz para ensinar, mas não tinha prazer.”

Depois desse ano a dar aulas, decidiu tentar uma carreira no teatro. Se não conseguisse, recorda à NiT, “sempre tinha o plano B como professor”. Era artista amador, por isso, não ganhava dinheiro. Para pagar as contas, foi trabalhar para a Radio Shack, uma loja de eletrónica e computadores.

Aquele, sim, era o mundo que o deixava em êxtase. Confessa que na faculdade já tinha experimentado alguns truques de magia e até de ventriloquismo, além do teatro. Brincando um pouco com isso, começou a visitar bibliotecas públicas para fazer pequenos espetáculos de magia. Nos anos seguintes, tornou-se membro de dois clubes de magia. 

“No primeiro ano, uma amiga do teatro disse que uma amiga dela tinha uma filha que ia fazer cinco anos e ela tinha falado de mim por causa das brincadeiras de magia. Perguntou-se se podia ir animar a festa de aniversário da filha. Eu fui lá. Dois anos depois, esta mesma amiga ligou e disse-me que aquela mulher, que me tinha contratado, trabalhava para uma agência de publicidade e que um dos clientes dela era o McDonald’s. A pessoa que estava a fazer o papel de Ronald McDonald estava a sair e ela procurava outra pessoa para fazer o trabalho, lembrou-se de mim e queria saber se estava interessado. Eu fiquei surpreendido: ‘Palhaço? O que é isso?’, pensei eu. Não era um palhaço qualquer, era Ronald McDonald”, recorda, acrescentando que nessa altura tinha apenas 26 anos.

Inicialmente, as coisas não correram como esperava, já que a agência perdeu a conta da McDonald’s e aquela possibilidade de trabalho desapareceu. Ainda assim, a amiga deu-lhe o contacto da nova agência. Seis meses depois, com uma audição pelo meio, chegava a confirmação: Mark tinha sido o escolhido para ser Ronald McDonald. Sentiu-se surpreendido e entusiasmado, mas igualmente assustado.

Foi para Chicago, onde está sediada a McDonald’s, e fez uma semana de formação na Ronald McDonald University. “Tenho o diploma aqui ao meu lado”, conta-nos. “Todos os anúncios de TV, seja o que for, como Ronald McDonald, eram feitos por um único artista. Mas, em vários estados, há artistas locais. Eu tinha um espetáculo público, de cerca de uma hora, que foi pensado e produzido oficialmente por um conjunto de artistas mágicos e palhaços de Chicago, e esse espetáculo era vendido para o corporativo dos restaurantes em várias partes dos Estados Unidos, incluindo Nova Orleães”, continua.

Fosse num espetáculo público, num restaurante McDonald’s, num museu, jardim zoológico ou em eventos especiais, era “tudo muito profissional”. Da maquilhagem à roupa, passando pela encenação e organização, tudo acontecia como se de uma peça de teatro se tratasse. “Tinha música, diálogos, tudo.”

“A partir do segundo ano, fiz um espetáculo com truques de magia e canções, que tinha a participação de público. O objetivo era ensinar coisas relacionadas com a segurança, como não falarmos com pessoas desconhecidas ou como sair de casa em caso de incêndio. Ensinava estas coisas com brincadeiras, de forma leve, um princípio que comecei a aprender nessa altura: a brincadeira a sério. Falar sobre coisas importantes mas usando brincadeiras, usando o palhaço. Nunca me passou pela cabeça o que isto me iria trazer no futuro.”

Foi também nessa altura que começou a fazer algumas visitas à pediatria de um hospital e a um lar de terceira idade. “As experiências que tive lá tornaram-se essenciais quando comecei a trabalhar na Operação Nariz Vermelho.”

É Dr. Palhaço há 19 anos.

Como as experiências nos hospitais mudaram a sua vida

Foi como Ronald McDonald que aprendeu uma das coisas mais importantes da sua vida: construir pontes. “Cada criança é um caso, tem o seu espaço e é fundamental respeitar esse espaço e o tempo dessa criança. Foi com os school safety shows que aprendi a importância de brincar a sério e que era possível falar de coisas importantes e sérias ao usar a arte do palhaço. Aprendi o que é ser um artista e palhaço profissional em palco e fora dele.”

Uma das experiências que recorda com mais carinho foi a sua participação nos jogos paralímpicos no verão de 1983, no Louisiana, para os quais foi escolhido para representar Ronald McDonald. “Participei na entrada oficial e todos os dias realizei espetáculos no recinto para os atletas. Aprendi o significado de humildade e humanidade como artista e pessoa”, conta à NiT.

Recorda também um momento marcante no hospital que, acredita, o preparou para o seu futuro trabalho. Estava a visitar a ala da pediatria e o pai de um menino ia repetidamente ter com Mark a pedir que visitasse o seu filho de oito anos.

“Quando finalmente cheguei à porta do quarto, o menino estava deitado na cama e a mãe no lado oposto. Quando a mãe viu o Ronald McDonald, agarrou a cabeça do filho e virou-a para que o pudesse ver. O menino sorriu. De repente, a mãe ficou estática. Tinha sido a primeira reação dele desde o atropelamento que tinha sofrido. Depois, percebi que o menino estava em coma há mais de 48 horas, embora os seus olhos estivessem sempre abertos.”

Tudo previa que a criança não voltasse a acordar. Aliás, tinha sido dado um prazo de 72 horas. Na semana seguinte, para surpresa de toda a equipa hospitalar, ele tinha acordado. Algum tempo depois, Mark, como Ronald McDonald, teve oportunidade de passar na casa da criança e descobriu que ela tinha recuperado toda a sua capacidade, algo que se pensava não ser possível. “Isso mostrou-me a importância do trabalho que desenvolvia”, diz.

Fez o trabalho de Ronald McDonald durante cinco anos. No final, fez um acordo para ser pago todos os meses com um montante fixo, em vez de ser apenas quando tinha trabalho. Desta forma, não precisava de ter um trabalho extra a tempo inteiro e teria tempo livre para fazer teatro — e assim foi. Com 28 anos, começou a desenvolver uma personagem pessoal para trabalhar como palhaço. Além da magia, desenvolveu escultura com balões, uma especialidade sua durante muitos anos.

No entanto, em 1983, chegou à conclusão de que, apesar de estar muito contente com o teatro e ser palhaço, sentia um enorme vazio. “Tomei uma decisão e entreguei a minha vida a Jesus Cristo. Pedi-lhe para ser o condutor, para pegar no volante e fazer o que quiser. Pensei que ele me ia pedir para largar a vida de palhaço, o teatro e que ia começar a fazer algo muito religioso”, recorda à NiT. Mas não foi isso que aconteceu.

A mudança de vida e a possível vinda para Portugal (que não aconteceu logo)

Desde aquele dia, Mark passou por muito, tentando descobrir o seu propósito. Um ano e meio depois, estava a fazer encenação numa escola secundária só para raparigas. Entretanto, foi convidado para ser psicólogo nessa mesma escola, uma proposta que não esperava de todo por não ter formação. Tinha 30 anos quando acabou por decidir fazer o mestrado nessa área e conseguiu entrar — mesmo já tendo passado o prazo para as inscrições, algo que diz ter sido obra de Deus. 

“Além de fazer duas disciplinas, participei na companhia de teatro todo o verão e ganhei três créditos ao fazer teatro.”

Nunca se sentiu tão mal preparado para um trabalho, mas foi em frente. “Enquanto trabalhei naquele ano como psicólogo, um amigo, Ron, esteve em Portugal como missionário, e eu fazia parte dos seus sustentadores, ou seja, contribuía mensalmente como outras pessoas e entidades para apoiá-lo com o salário, despesas para o ministério que ele estava a fazer lá”, conta.

Quando o amigo voltou no início do verão, Mark contou-lhe que o seu emprego estava a chegar ao fim e ele falou-lhe de uma escola primária cristã, em Cascais, que procurava um professor de terceira e quarta classes. “A verdade é que não tinha interesse nem pensava em lecionar em escolas primárias porque toda a minha experiência era em escolas secundárias, apesar de como palhaço gostar muito de trabalhar com crianças”, confessa.

Deixou essa possibilidade e foi para um ministério de drama dentro da organização cristã que já frequentava, no Colorado. O diretor convidou-o para ir para o sul da Califórnia, onde teria formação e, mais tarde, poderia vir a trabalhar com ele. Estava tudo alinhado para ir, mas o líder sentiu que aquele não era o caminho dele. “Sentiu que não era aquilo que Deus queria para ele, nem conseguiu dormir, por isso, cancelou o convite e dormiu que nem um bebé, disse-me. Já eu não dormi como um bebé naquela noite, pois todos os planos tinham desaparecido.”

Já viveu momentos muito marcantes.

Quando foi finalmente para Portugal e tudo mudou

Estávamos em 1986 quando Ron ligou novamente para dizer que continuava à procura de um professor para  a International Christian School of Cascais. Por isso, sem outra alternativa à vista, Mark inscreveu-se para a missão na escola cristã portuguesa. “Estudei alemão três anos e meio, e Deus leva-me até Portugal. Tem um grande sentido de humor”, brinca.

O missionário precisa de garantir o próprio sustento, através de apoios e doações, e foi isso que Mark fez. As aulas iam começar na segunda ou terceira semana de setembro e já era início desse mês. “Eles disseram que, normalmente, para tempo inteiro, se demorava um ano ou um ano e meio a desenvolver sustento”, conta. Mas Mark chegou a Cascais na primeira semana de novembro com todo o apoio financeiro de que precisava. “O que se fazia em 18 meses, eu fiz em três.”

Em Portugal, aos 31 anos, conheceu uma organização cristã que existe em mais de cem países. Trabalhou cinco anos com aquela organização. Durante a sua estadia no País, conheceu uma pessoa que trabalhava com a Sonae. Sabendo ela que Mark trabalhava como palhaço, fez o contacto com os responsáveis pelo Continente da Amadora e conseguiu-lhe um trabalho para fazer de Pai Natal. A agência responsável contratou-o depois para outros trabalhos, até porque Mark era das poucas pessoas que fazia as tais esculturas com balões, algo que o tornou muito popular na altura.

Como nasceu a Operação Nariz Vermelho

Em 1995, numa festa de Natal de uma empresa, na qual Mark estava a fazer de animador, conheceu uma palhaça brasileira chamada Beatriz Quintella, que se tornou uma grande amiga. Aliás, até combinaram que iam animar as festas de aniversário dos filhos um do outro — em 1993, Mark casou-se com Eunice, que conheceu em Sintra, em 1997 nasceu a sua filha Ola, e em 2002 o filho Lucas.

“Fizemos um espetáculo juntos e em 2001, em agosto, recebi um telefonema dela e de uma atriz portuguesa, a Bárbara Ramos Dias, que também era contadora de histórias e fazia teatro infantil. Elas estavam a preparar um projeto para trabalhar em três hospitais aqui em Lisboa — o Santa Maria, o Dona Estefânia e IPO — como doutores palhaços. Seria um projeto de  quatro meses, um dia por semana, e queriam saber se estava interessado. Nem pensei duas vezes, disse logo que sim”, relembra à NiT.

Em 1993, Beatriz Quintella tinha lido um artigo que contava o trabalho dos doutores palhaços que visitavam crianças hospitalizadas nos Estados Unidos. Não havia nada parecido em Portugal e Beatriz ofereceu-se ao Hospital D. Estefânia para levar a sua personagem de palhaço às crianças hospitalizadas, com o objetivo de proporcionar momentos de alegria. Trabalhou oito anos sozinha e como voluntária, até que convidou Mark e Bárbara.

Depois desses quatro meses, de setembro a dezembro de 2001, tiveram o apoio de uma farmacêutica. Decidiram avaliar o trabalho feito até ali, pediram feedback aos hospitais e todos queriam que continuassem. Os três amigos queriam o mesmo, por isso, assim foi.

“Comunicámos isso ao patrocinador e ele disse para fazermos o orçamento para todo o ano de 2002. Achámos complicado trabalhar apenas um dia por semana e calculámos o orçamento para ir dois dias a esses hospitais. Foi aprovado e em janeiro começámos a trabalhar.”

Foi a 4 de junho de 2002 que estabeleceram, oficialmente, a associação sem fins lucrativos Operação Nariz Vermelho. “O nosso escritório era a mesa de jantar da Bia. Reuníamos lá, ensaiávamos e trocávamos ideias. Procurávamos rotinas, canções, brincadeiras quase automáticas, mas a improvisação e criatividade começava a surgir”, explica. E continua: “Nenhum de nós teve grande formação como palhaço, Dr. Palhaço”. 

Quando foi o momento de escolher o seu nome de palhaço, foi Beatriz que acabou por encontrar o “nome perfeito”: Dr. P. P. P. Pipoca, de “Pedro, Pirata, Pateta, Pipoca”. “Não se de onde surgiu a ideia, mas as crianças adoraram.”

Em 2003, consideraram que seria uma mais-valia começar a trabalhar em duplas. Por isso, como Beatriz e Bárbara conheciam alguns artistas em Portugal, chamaram alguns para uma entrevista e entraram mais três pessoas para a equipa. Entretanto, também se juntaram pessoas para trabalhar na comunicação e imagem, assim como no departamento de angariação de fundos, entre outros. Aos poucos, tudo se formava naturalmente.

Em 2004, começaram o trabalho de doutores palhaços no norte do País, nomeadamente no Hospital de Coimbra e no Instituto Português de Oncologia do Porto. Desta vez, sim, fizeram audições e tiveram 45 candidatos. “Não basta ser bom artista para ser Dr. Palhaço, é precisos ser boa pessoa, ter bom coração. Não há lugar para o ego”, diz à NiT. De repente, já eram nove artistas em Lisboa e três no norte. Em 2004, Mark começou a dar as primeiras formações e, em 2005, tiveram o primeiro spot televisivo. 

A Operação Nariz Vermelho foi crescendo e atualmente (antes da pandemia) são 25 doutores a trabalhar em 17 hospitais. Além dos doutores palhaços, há 16 colaboradores que trabalham nos bastidores. “Contamos com doadores, parceiros, instituições e voluntários para fazer crescer uma das mais reconhecidas associações sem fins lucrativos, sem vínculos políticos ativas em Portugal.”

Tem 66 anos.

Os momentos mais marcantes em 19 anos como Dr. Palhaço

Mark Mekelburg é o único fundador da Operação Nariz Vermelho que continua a fazer parte dos quadros da associação. Além do cargo que desempenha na direção, Mark continua a ser Doutor Palhaço. Antes do início da pandemia, já não visitava com tanta frequência os serviços de pediatria dos hospitais como antigamente, uma vez que está mais dedicado às formações externas, para empresas e particulares, e também às internas, aos atuais e futuros Doutores Palhaços da Operação Nariz Vermelho. Contudo, nos últimos 19 anos colecionou muitas memórias marcantes.

“Uma das primeiras coisas que ensinamos a um Dr. Palhaço é que cada pessoa tem o seu espaço e que é preciso respeitá-lo. Há crianças de dois anos que fogem a chorar e viramos a esquina e encontramos outra criança de dois anos que vem a correr dar-nos um abraço sem nos conhecer de lado nenhum. Nunca sabemos como vai ser, daí a importância de lidar individualmente com cada criança”, começa por dizer.

Mark vagueia pelas memórias até 2005. Era uma segunda-feira e estava no Hospital Garcia de Orta, em Almada. O Dr. P. P. P. Pipoca e um colega viam pela primeira vez um rapaz. “Quando o encontrámos ele estava sentado na sala mesmo antes de entrar na pediatria. Magrinho, com óculos, cinco anos talvez. Quando viu os doutores palhaços, começou a gritar, a levantar a mão. Uma semana depois, encontrámos a mesma criança, na mesma situação, e com a mesma reação. Então, procurámos saber qual era a situação daquela criança.”

Descobriram que a criança não estava internada mas, sim, que vinha todas as semanas fazer tratamentos. “Ao fim de um mês, dois, três meses, este menino gritava sempre que nos via. ‘Nunca vai baixar a guarda’”, pensámos. No quarto e quinto mês, os gritos eram cada vez menos intensos. Nunca conseguimos ficar nem na porta da sala. Ao fim de seis meses, chegámos à porta e o menino não levantou a mão. Olhou para nós e disse: ‘Hammm?’ Ficámos surpreendidos, olhámos um para o outro, e a nossa resposta foi a mesma: ‘Hammm?’ E durante um minuto e meio só dizíamos ‘ham’. Saímos da porta e saltámos de alegria porque tínhamos conseguido ficar ali à porta em contacto com a criança. Seis meses só para conseguir ficar à porta.”

Só um ano depois é que souberam o nome do menino: Pedro (nome fictício). Ao fim de um ano, o Pedro estava apaixonado pelos doutores palhaços. “Ao longo de todos estes anos, quando faço workshops ou palestras, esta é quase sempre a história que conto.”

“Esta história tornou-se não só marcante por isto, mas porque o Pedro estava especialmente apaixonado pelo Dr. P. P. P. Pipoca e pelo Dr. Chocapic. No ano seguinte, faleceu e a sua mãe, sabendo o impacto que os doutores palhaços tiveram no filho, convidou o Dr. Pipoca e o Dr. Chocapic para irem como doutores palhaços ao velório porque foi assim que ele nos conheceu. É uma memória que nunca vou esquecer.”

Mark recorda também com especial carinho a história de uma menina que, em 2006, no IPO de Lisboa, foi diagnosticada com leucemia. Tinha três anos e meio. Inicialmente, teve medo dos doutores. Com seis anos, numa altura em que já não se sabia quanto tempo de vida ainda teria, pediu à educadora do IPO para trazer o Dr. P. P. P. Pipoca. 

“Ligou-me e explicou a situação. Queria saber se podia fazer uma visita particular na sexta-feira à noite — recebi a chamada quinta à noite. O resultado disso, sem entrar em pormenores, é que eu fiz a visita e ela faleceu no sábado. O funeral foi no domingo e o Dr. Pipoca foi convidado pelos pais para estar presente”, recorda.

Como a Operação Nariz Vermelho se reinventou na pandemia

Em 2019, num dos hospitais havia um menino chamado João (nome fictício). Inicialmente, nos seus primeiros encontros com os doutores palhaços, tinha muito medo. Eles nem conseguiam chegar perto dele. Por isso, não tinham grande esperança de conseguir conquistá-lo. Mas já lá vamos.

“A Operação Nariz Vermelho (ONV) entrou nesta pandemia com os dois pés firmemente no chão, sólidos e não foi necessário despedir ninguém, nem colocar em lay-off. Daí surgiu a TV ONV para continuarmos esta missão. Cada artista gravava vídeos de três minutos com o telemóvel em casa sozinho. Tem sido um processo de aprendizagem artística e de tecnologia também. São 25 artistas a criar dois vídeos por semana, desde março. Um vídeo às 11 horas e outro às 18, nos dias úteis.”

É que, com a pandemia em Portugal, os doutores palhaços deixaram de poder estar presentes no hospital. Houve um processo de transformar artistas presenciais, que têm como experiência o contacto olhos nos olhos com as crianças, em encenadores, editores de vídeo, atores atrás das câmaras, entre outras coisas. “Entrámos todos em teletrabalho, mas era necessário continuar a chegar às crianças. Porque todos os serviços não essenciais tiveram de deixar os hospitais para assegurar a segurança, higiene para quem, obrigatoriamente, tem de lá estar.”

Foi aí que surgiu a ideia de gravar vídeos e publicá-los no YouTube. Para grande surpresa de todos, quando começaram a mostrar os vídeos dos doutores palhaços ao tal menino, o João, ele adorou. “Começou a gostar tanto que queria ver vídeos vezes e vezes sem conta. Mostrou-nos o sucesso de pensar fora da caixa, de nos adaptarmos, de fazermos pontes”, diz Mark.

“Com a TV ONV, que inicialmente foi um pontapé no escuro, descobrimos um progresso, já que tivemos um alcance do público muito maior, que nunca antes tínhamos conseguido alcançar. Os conteúdos estavam disponíveis no YouTube para crianças dos hospitais mas também para as que estão em casa. É outra forma de falar sobre o nosso trabalho. Levar a nossa missão, a nossa alegria a muitas crianças, dentro e fora do hospital, mesmo os hospitais em que não trabalhamos, durante a pandemia.”

Neste momento, a TV Operação Nariz Vermelho tem três temporadas. “Tem sido uma aprendizagem não só para os Dr. Palhaços mas para a restante equipa.”

Não há previsão para os doutores palhaços regressarem fisicamente a todos os hospitais para segurança deles, das crianças e equipas hospitalares. “Vamos continuar com os vídeos. Enquanto não podemos voltar fisicamente aos hospitais, temos a TV. Parar e baixar os braços é que não.”

Mesmo em tempos de pandemia, a missão é a mesma. Cada donativo que recebem, cada gesto, cada sorriso, tem uma única motivação: levar alegria e felicidade à criança hospitalizada. 

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