Saúde

A síndrome tabu que afastou Maro, Shawn Mendes e outros artistas dos palcos

O burnout é uma condição reconhecida há várias décadas, da qual se fala cada vez mais. Conheça os sinais a que deve estar atento.
A artista esteve na Eurovisão.

Nos últimos tempos, diversos artistas anunciaram que iam fazer uma pausa nas carreiras. Todos evocaram motivos de saúde e um diagnóstico comum: sofrem de burnout.

Mariana Secca, mais conhecida por Maro, disse no passado dia 11 de outubro, que iria afastar-se dos palcos. Numa mensagem dirigida aos fãs partilhada nas redes sociais revelou que sofre deste síndrome. Acrescentou que ainda não conseguiu processar a morte do avô, e decidiu cancelar a digressão que iria fazer até ao final do ano.

Pouco depois, Carolina Deslandes explicou aos seus seguidores que se ia afastar durante uma temporada. Sofre de exaustão extrema. “É a segunda vez que vou parar ao hospital por exaustão. Era de esperar que tivesse aprendido da primeira, mas não. (…) Os próximos 15 dias são de descanso”, escreveu nas Stories do Instagram.

Em julho passado, Shawn Mendes também cancelou a digressão “Wonder” pelos mesmos motivos. O músico diz que atingiu “um ponto de rutura” e iria cancelar os compromissos profissionais para cuidar da sua “saúde mental”. “Faço digressões desde os meus 15 anos e, honestamente, sempre foi difícil estar na estrada, longe dos meus amigos e da minha família”, confessou.

Afinal o que é o burnout?

A designação existe há várias décadas — foi criada nos anos 70 —, mas apenas nos últimos anos se tornou conhecida. O impacto da pandemia na população mundial deu visibilidade a esta condição, no âmbito do esforço de normalização dos problemas relacionados com a saúde mental e de uma maior sensibilização para os mesmos.

“Este fenómeno pode surgir como resposta a um stress crónico, perante o qual a pessoa sente que não tem estratégias para lidar com a situação”, explica à NiT a psicóloga Marta Leite, das Clínicas Leite. A pessoa começa a sentir-se ansiosa, cansada e com pouca vontade de trabalhar.

“Até aqui tinha sido muito tabu falar sobre este síndrome e sobre a saúde mental no geral. Agora já começa a existir mais abertura”. O número de pacientes afetados por esta síndrome tem vindo a aumentar. Segundo os dados da Associação de Psicologia da Saúde Ocupacional, em 2017, 17,3 por cento dos trabalhadores portugueses estavam em burnout.

No caso dos artistas, segundo a psicóloga Marta Leite, o fenómeno pode ter ganho outra dimensão no contexto do rescaldo da pandemia da Covid-19: “Durante os meses de confinamento muitas pessoas tiveram de se adaptar, nomeadamente os músicos. E é normal que todo o stress e pressão da altura se esteja a refletir agora”.

Uma reação posterior ao momento crítico, que é bastante habitual, explica a profissional: “É comum que só nos deixemos ir abaixo na altura em que estamos mais tranquilos, quando o pior já passou e não precisamos de ser fortes o tempo todo”. As emoções poderão estar agora a vir ao de cima, aliadas ao cansaço que sentem de tantos concertos e digressões que têm tido, para compensar os meses que estiveram parados, ou mais limitados.

Os sinais a que deve estar atento

Existem várias pistas que indicam que podemos estar a entrar num quadro de esgotamento crónico e podem aparecer em diferentes etapas. “A nível físico podemos experienciar taquicardias, sensação de falta de ar, tonturas, alteração de sono e de apetite, cansaço extremo, tristeza, apatia, entre outros”, adianta a especialista.

Sentir que andamos exaustos, sobrecarregados e desgastados, também são sintomas relevantes. Por outro lado, quem está em burnout também pode assumir uma atitude mais distanciada, acabando mesmo por se tentar isolar. Esta reação pode desencadear conflitos internos em relação aos valores e crenças pessoais; levar à necessidade de redefinir prioridades, ou mesmo dar origem a sentimentos de à raiva e revolta.

Outra das etapas de evolução do processo de burnout diz respeito à baixa realização profissional. Cresce uma sensação de descontentamento e desmotivação com o trabalho, que conduzem à perceção de perda de sentido e interesse nas tarefas profissionais. Como resultado, o investimento é cada vez menor, a sensação de realização também e a eficácia fica, muitas vezes, comprometida. O cansaço pode ainda gerar uma maior tendência para cometer erros e para ter um fraco desempenho.

Aos primeiros sinais, deve pedir logo ajuda. Marta Leite frisa que é importante procurar um psicólogo, ou consultar o médico de família para que seja encaminhado para as especialidades mais indicadas.

“Os profissionais oferecem ferramentas para conseguir ultrapassar estes momentos, para o ajudar a perceber o que está a sentir, a regular as emoções e desenvolver novamente a calma e tranquilidade interior”. A prática de exercício físico e a a criação de hábitos saudáveis dos quais retira prazer, são dois dos maiores aliados de quem sofre de burnout.

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