Saúde

Acne Positivity: o movimento que promove a aceitação e o amor pela acne

Esta onda virtual não dispensa, no entanto, alguns cuidados especiais de saúde, alerta uma médica.
São a mesma pessoa.

Durante os últimos meses, muito provavelmente pelo tempo passado em casa, devido à pandemia do novo coronavírus, surgiram novos movimentos e outros mais antigos que ganharam força. Vimos influencers a mostrarem a celulite ou estrias sem medo, pessoas a denunciarem os truques das fotografias do Instagram e houve até quem mostrasse que ter cabelos brancos é perfeitamente normal. À lista juntou-se mais um: o acne positivity.

O movimento começou a ganhar força em 2019, quando a modelo Kendall Jenner assumiu as marcas no rosto durante uma cerimónia dos Globos de Ouro. Na altura, a também influencer, agora com 24 anos, foi elogiada pela sua transparência e aplaudida pela forma como lidou com as críticas.

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At the time this picture was taken… I was the girl with an expensive skincare routine, who found out she had 3 rare health conditions, and nobody to turn to. The girl who felt trapped and too afraid to leave an abusive relationship, so cried herself to sleep every night, covered it up, and pretended everything was okay. The girl who tried her best to keep up appearances and smile through Instagram posts and YouTube videos whilst she dropped to 99lbs, a size 00, and her body began shutting down. The girl who struggled to use her arms, who’s body sometimes didn’t work, who couldn’t remember words or do basic things on a daily basis, yet the doctors didn’t know why. The girl who’s friends barely recognised her. The girl who began to think that maybe she was as crazy as she was led to believe. The girl who didn’t know who she was anymore. The girl who shut herself off from the world. The girl who’s skin began to show the real truth of what she was going through. Or quite simply, the girl who has been through hell and back, to feel as confident and beautiful as she does today. Now if we’re really going to get into specifics, I can assure you that my skincare collection is worth a hell of a lot more than $1,437… but who am I to get in the way of a ‘good meme’ right? I’m just a girl… but I have a story, and my name is Em Ford. This is my story, and I’d love to read yours #imjustagirl. #redefinepretty #skinpositivity #acnepositivity #mypaleskinblog

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Desde daí, as publicações nas redes sociais com a hashtag #AcnePositivity multiplicaram-se — até à data, são mais de 92 mil menções e algumas delas apenas com poucas horas.

Este movimento virtual é semelhante ao #BodyPositive ou, por outras palavras, positivismo corporal. Mas, neste caso, promove a auto-aceitação de um rosto com acne e o amor por ele. Esta corrente quer também mostrar que cada marca fala de uma vivência e que isso não tem mal nenhum.

A instagramer britânica Em Ford, de 30 anos, é uma das pessoas que se têm despido de preconceitos para se mostrarem sem maquilhagem e sem esconderem as suas marcas e borbulhas. Em julho 2015, Ford publicou um vídeo no seu canal de YouTube (“My Pale Skin”) que foi visto um pouco por todo o mundo. Três meses antes, tinha começado a publicar fotografias em maquilhagem e surgiram milhares de comentários a criticar não só a sua atitude como o seu aspeto. O tal vídeo, que tem mais de 33 milhões de visualizações, mostra muitos deles. Nessa altura, porém, ainda o movimento não existia — pelo menos com este nome. 

Sofia Grahn, uma sueca de 25 anos, também partilha diariamente imagens com a hashtag de aceitação da acne. “Antes de começar esta página, eu estava infeliz, miserável. Ainda não tenho tudo esclarecido, mas através desta página criei um novo “mindset” bem mais saudável em relação à minha pele. Apesar das suas imperfeições, fazer uso do tratamento de isotretinoína, lidar com as consequências de cicatrizes e hiperpigmentação e, eventualmente ter recaídas, estou bem. Aqui, aprendi a aceitar minha pele — e, às vezes, amo ver as minhas bochechas vermelhas”, conta a influenciadora e ativista do movimento.

Ao jornal brasileiro “Metrópoles”, num artigo publicado a 11 de agosto, Fernanda Nichelle, médica dermatologista, disse que “o movimento é muito importante para que seja um instrumento de auto-aceitação, ainda mais nesta época de redes sociais, na qual vivemos uma perfeição virtual ilusória”.

Porém, a especialista deixa um alerta: a acne é uma doença inflamatória e pode ser um sinal de alterações metabólicas, endocrinológicas e hormonais, pelo que requer acompanhamento com um profissional. 

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Posting a picture with visible acne should not be a big deal. Showing up in the real world without covering up your skin condition should not be a big deal.⁣ ⁣ I remember the times when I would notice people staring at my skin. One time it was at the gym, I was walking on the treadmill. By this time my skin was at the hight of severity, there was no way to cover it up so I was forced to go without makeup.⁣ ⁣ I saw this teenager on the treadmill looking right at me. When you notice someone observing your skin condition a whirlwind of emotions fills your body. But for me shame has always been the most prominent one. You feel exposed, ashamed and most of the times I just want to remove myself from the situation. It takes a lot of mental energy to try to navigate what approach you should have to someone staring.⁣ ⁣ This one particular time I had it in me to look up and meet their eyes. As we looked at each other I think I saw some level of embarrassment in the person next to me and I decided to just smile gently and then returned to my browsing my playlist as I walked on.⁣ ⁣ I used to hold onto a lot of resentment towards people staring at my acne flares. As I’ve tapped into this further I’ve started to let go of that resentment. More so I try to remember that we live in an airbrushed reality. The ways that we’ve come to edit our lives and appearance has crept its way into our everyday lives in the most sly way. In the matter of a few seconds you can blur your skin texture and your acne flares can become less visible via a filter on Snapchat.⁣ ⁣ Even if it makes me uncomfortable, I can’t blame anyone for being caught off guard actually seeing a version of real skin in reality when so much of our reality online has been warped into a airbrushed version. I don’t blame individuals, I blame structures. ⁣ ⁣ So maybe it is a big statement to post a picture of your acne, it shouldn’t have to be, but it is. . #normalizeacne #acnepositivity #effyourbeautystandards

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“As pessoas não devem sentir vergonha de publicar nas redes sociais a sua pele ao natural mas, quando se trata de doenças inflamatórias, temos que procurar um tratamento apropriado”, acrescenta. Se há inflamação, dificilmente haverá um quadro 100 por cento saudável, segundo a médica.

A especialista relembra ainda que, mais do que afetar a auto-estima, este problema de pele pode gerar consequências psicológicas em quem não consegue lidar tão bem com ele. É por isso que este movimento tem tantos adeptos. Como se pode ler em várias descrições de fotografias com a hashtag #AcnePositivity, homens e mulheres dizem que já não se sentem sozinhos e que agora é mais fácil lidar com a acne.

Segundo um estudo publicado pelo “British Journal of Dermatology”, em 2018, as pessoas com acne correm um risco 63 por cento maior de ter depressão. Por isso, a dermatologista relembra também a importância de cuidar da saúde mental: “No caso de um diagnóstico de depressão, devemos, além de tratar a acne, encaminhar o paciente ao psiquiatra para um tratamento multidisciplinar.”

O exemplo português

Em Portugal, Mafalda Melo e Sampaio, mentora da revista “A Maria Vaidosa”, é uma das criadoras de conteúdos que têm sido transparentes em relação a este tema nas suas plataformas, sobretudo no Instagram, onde é seguida por quase meio milhão de pessoas — ainda que as publicações não estejam relacionadas com esta hashtag.

“Dia sem maquilhagem”, escreveu na legenda de uma fotografia, em dezembro de 2019, onde surge ao natural e assume as marcas no rosto. Os comentários, esses, foram positivos e não tardaram em aparecer: “Linda de qualquer maneira! Inspiras-me por seres tão genuína”, “juntas na luta contra as marcas”, “exemplos a seguir! Não há nada melhor do que nos sentirmos bem connosco próprias”.

A criadora de conteúdo tem vindo a falar sobre o tema em algumas publicações e já várias vezes explicou que fez muitos tratamentos para combater a acne e que agora aceita e respeita a sua pele tal como é. No entanto, como fã de maquilhagem, muitas vezes é possível ver Mafalda Sampaio a dar dicas e sugestões de produtos que escondem qualquer marca, como num vídeo que publicou no seu IGTV com o título “Como Escondo Acne e Marcas”, publicado em janeiro deste ano.

Sei que há muitas pessoas com acne e não sabem como disfarçar algumas borbulhas ou marcas. Quando tem relevo, vai notar-se sempre. Quando são só marcas, tudo fica mais simples”, escreveu na descrição.

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