Saúde

Acompanhámos o turno de uma médica no “covidário” do Hospital de São João

Ao longo de 24 horas há muitas decisões para tomar. A NiT esteve com uma intensivista dos Cuidados Intensivos da unidade do Porto.
Fotografias e vídeo: Tânia Teixeira

O dia começa como quase todos no Hospital de S. João, no Porto, uma das referências no norte do País. Desde cedo as ambulâncias e os carros vão passando lentamente pela porta de entrada para deixar passageiros e há dezenas de pessoas a percorrer os metros que separam a portaria da entrada do edifício por onde agora passam quase todos.

Uns vão para consultas, outros para visitar familiares e a maioria, com passo decidido e lancheira na mão, vai trabalhar. É o caso de Ana Afonso, médica intensivista do Serviço de Medicina Intensiva, Unidade de Neurocríticos, atualmente transformada numa unidade Covid-19.

Foi assim que esta segunda-feira, 15 de fevereiro, entrou para mais um turno de 24 horas. Às 8h30 entra no hospital e percorre o longo corredor que dá acesso ao elevador que a leva ao oitavo piso. É aí que está o seu posto de trabalho e os colegas já à espera para fazer a mudança de turno.

Numa reunião de pouco mais de uma hora, os colegas que saem nesta altura atualizam quem os vai render sobre o estado de cada doente. São conhecidos os procedimentos feitos nas horas anteriores, a evolução de cada doente e define-se a estratégia para aquele dia, ao mesmo tempo que se dividem os doentes por cada médico de serviço.

No final da reunião — embora também possa ser feito antes —, Ana Afonso dirige-se novamente à cave, desta vez para recolher a farda verde que a acompanhará nas próximas horas. De regresso ao piso oito, passam dois minutos das dez da manhã quando deixa o gabinete dos médicos, já com a roupa de serviço e o cabelo apanhado.

Aqui, há sempre monitores a que é necessário estar atento

Antes de ir ver os doentes, há ainda uma paragem obrigatória na copa para tomar um café. “É essencial para começar bem o dia”, afirma a médica, que está desde 2019 neste hospital. Efetivamente, poucos minutos depois é com redobrada energia que deixa a copa e vai até à zona onde estão os Equipamentos de Proteção individual (EPI), necessários para poder entrar na zona onde estão os doentes.

“Vamos lá vestir-nos”, diz, e começa a colocar a touca na cabeça, seguida da máscara cirúrgica que sobrepõe à ffp2 com que entrou no hospital. A seguir vem a bata descartável, que cobre toda a roupa, depois os dois pares de luvas e finalmente os óculos de proteção.

“Esta é a parte que no início custava imenso e agora já, como tudo o resto, faz parte do novo normal.”

A partir daqui começa realmente a visita aos doentes. Percorre o curto corredor ladeado por salas que leva até ao open space onde estão os doentes mais complicados e que estão a seu cargo e dos colegas para hoje. Nessa sala quadrangular estão ao todo sete doentes: três de cada lado e um no topo. O centro é destinado aos computadores onde são feitos os relatórios de cada doente e passadas as prescrições de que necessitam.

Inicia a ronda pelos doentes e aí é necessário colocar uma nova bata por cima do equipamento a cada doente visto. Segue-se um conjunto de perguntas cujo guião é semelhante: bom dia, como é que se sente? Está bem disposto? Tem falta de ar? Passou bem a noite?

Os doentes que aqui estão neste momento situam-se aproximadamente entre os 60 e os 82 anos, entre homens e mulheres, todos com outras comorbilidades anteriores. A doente há mais tempo aqui está há 13 dias nesta unidade de Cuidados Intensivos, mas há quem esteja internado, no total, há mais de um mês. E quem tenha até sido transferido de Lisboa.

A equipa divide-se pelas diferentes tarefas, cada um tem a sua e todos se ajudam

Não há um número padrão de dias para permanecer no serviço, é até que o doente esteja capaz de ir em segurança para a enfermaria. Esse é mesmo o requisito principal, a segurança. Desde o início da pandemia, o doente que esteve mais tempo em Cuidados intensivos no Hospital de S. João ultrapassou os três meses.

Voltando à ronda de Ana Afonso, todos os doentes merecem atenção, embora aqueles que lhe foram destinados na reunião tenham algum cuidado redobrado. A rotina passa por ver o que é necessário, medicação, limpar ou colocar cateteres, colheita de sangue para análises, exames, virar os doentes para que possam respirar melhor, cada um tem as suas especificidades.

Nesta sala, quase todos os doentes estão ventilados e, por isso, sedados. Os momentos de consciência são poucos e nem todos são capazes de responder às pequenas conversas com os médicos. As respirações mais aflitas confundem-se com os bips das máquinas, as trocas de palavras entre médicos, enfermeiros e auxiliares, a televisão a dar o programa da manhã e um rádio que baixinho vai alternando ecleticamente temas como “Can You Feel the Love Tonight” ou “Señorita”. Tudo numa abafada harmonia, que não incomoda e a que rapidamente nos habituamos. Apesar de tudo, há aqui alguma calma e boa energia, mesmo que a situação não seja a melhor.

Entre as visitas a doentes é necessário ir até ao computador relatar o que se observou. Tudo fica registado, numa tarefa que pode levar mais de uma dezena de minutos por cada doente.

Há ainda a necessidade de monitorizar todos os aparelhos que acompanham os sinais vitais e, sobretudo, a respiração de cada doente. É preciso ajustar valores e registá-los para que nada falhe.

Nisto tudo passaram-se mais de duas horas e perto das 13 horas é hora de deixar a sala para ir almoçar. À saída deste open space há uma secção separada onde se deixam no lixo as batas descartáveis, as luvas, a máscara cirúrgica e a touca e onde se colocam para desinfeção os óculos.

Depois do almoço há uma nova reunião da equipa onde é feito o ponto da situação, reavaliam-se as decisões para cada doente e define-se o plano para o resto do turno. Tudo é visto ao detalhe antes de nova ronda pelos doentes.

A tarde tem outras coisas a acontecer. Há um doente que sai para fazer uma TAC, um doente que era para ter alta mas acaba por não sair da unidade e uma doente que é necessário colocar de barriga para baixo para respirar melhor.

Enquanto isto, há uma família que, previamente avisada, visita a doente que estava em pior estado. Teme-se o pior, que é precisamente o que acontece poucas horas depois, de forma tranquila, confortável e sem dor. “São as chamadas mais difíceis de fazer”, garante a intensivista, acrescentando: “Nunca se está preparado para dar uma notícia dessas. Por mais notícias dessas que, infelizmente, tenhamos de dar, nunca estamos preparados”.

Por volta das 20 horas sai a maior parte da equipa médica e é Ana Afonso, com um interno, que fica responsável pela unidade. É a particularidade dos turnos de 24 horas. A noite parece tudo menos calma, com duas admissões de doentes, uma delas por volta das 3 horas.

O ciclo volta a fechar-se pelas 8h30, com a reunião onde a médica intensivista passa aos colegas todas as informações sobre o que aconteceu nas últimas 24 horas. Todos os detalhes de cada doente são analisados ao pormenor, discutida a evolução de cada um e delineado o plano para o novo dia.

“Foi uma noite muito complicada”, desabafa Ana Afonso, o cansaço notório na voz. A chuva que cai lá fora é o cenário perfeito para não haver qualquer remorso em ir para casa descansar: “Se estivesse sol, dava vontade de ir aproveitar”.

Quando não está com a bata vestida e tem um tempo livre, o mais provável é encontrar a médica na praia, a fazer surf. O desporto e a atividade que a cada um mais agrada são essenciais nesta altura, garante.

“Qualquer que seja a maneira, há sempre uma forma de tentar encontrar este equilíbrio, mas é totalmente essencial.”

Depois de no início da pandemia ter lidado com o desconhecido e tudo aquilo que de novo este vírus trouxe, a médica explica que a ansiedade foi muito grande e que foi necessário encontrar formas de contornar a ausência de contacto com família e amigos.

“É muito importante termos uma sanidade mental para aguentar tudo isto, e no início o que fomos conseguindo em termos de sanidade mental e o apoio e o suporte que tínhamos era aqui. A nossa família acaba por ser as pessoas com quem estamos todos os dias.”

Agora, o que mais deseja é voltar à normalidade. Quer acreditar que o pior já tenha passado. Embora a gravidade dos doentes não tenha diminuído, especialmente no caso dos cuidados intensivos, “tem-se notado um abrandamento dos internamentos”.

Ao final de quase um ano a lutar contra a pandemia, o sentimento geral é de cansaço e isso nota-se ainda mais depois de um turno de 24 horas, que começam a ser cada vez mais pesados com essa acumulação dos meses.

“Estamos com muita vontade de ir de férias”, suspira Ana Afonso. Para já, é tempo de ir descansar e recuperar energias. Quarta-feira de manhã começa tudo de novo.

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