Saúde

Adeus Papanicolau: há uma forma menos dolorosa de diagnosticar o cancro do colo do útero

O fim do desconfortável (e embaraçoso) exame ginecológico utilizado para detetar o HPV pode estar mais perto.
Alternativa vista como mais-valia.

Nenhuma mulher gosta de ter de passar por aqueles dias do mês. No entanto, a logística chata que ninguém aprecia, de ter de utilizar absorventes menstruais, pode, afinal, revelar-se uma mais valia na prevenção de uma consequência grave da infeção sexualmente transmitida mais comum do mundo.

A análise aos pensos higiénicos utilizados durante a menstruação pode vir a substituir o desconfortável exame de rastreio de um vírus contraído por 80 cento das mulheres sexualmente ativas em algum momento das suas vidas, o HPV.

O papilomavírus humano (HPV) é responsável por um elevado número de infeções que, na maioria das vezes, não apresentam sintomas e são de regressão espontânea. Estas infeções podem causar lesões nos órgãos reprodutores femininos que podem evoluir, em casos mais graves, para cancro do colo do útero. O exame padrão de diagnóstico desta infeção chama-se citologia, mais conhecida por Papanicolau. Durante o procedimento, realizado por via vaginal e com recurso a instrumentos, o médico recolhe tecido do colo do útero que é depois analisado em laboratório para despistar a eventual presença do vírus e/ou células pré-cancerígenas.

Esta não é, de todo, uma situação encarada de ânimo leve pela maioria das mulheres que devem submeter-se a este exame anualmente, entre os 25 e os 60 anos. Porém, a investigação científica tem boas notícias: o fim deste desconfortável (e para muitas, embaraçoso) exame de rotina para detetar o HPV pode estar mais perto.

Análises ao sangue recolhido em pensos higiénicos permitiram identificar células infetadas pelos vários subtipos do vírus do papiloma humano. A experiência foi testada e confirmada no âmbito de um estudo realizado na China e publicado em dezembro de 2021 na revista “JAMA Network Open”.

Utilizando os pensos higiénicos comuns de 120 pacientes infetadas com HPV, entre setembro de 2020 e abril de 2021, o professor Jingjing Zhang e a sua equipa conseguiram identificar com uma precisão 94,2 por cento a presença de células infetadas no sangue analisados.

Os investigadores envolvidos na descoberta explicaram que fizeram a recolha dos absorventes menstruais para análise no segundo dia da menstruação. Isto porque, normalmente, quando se observa uma maior intensidade do fluxo menstrual, permitindo que sejam recolhidas mais amostras de sangue, que permitem a realização de um maior número de testes.

Além de ser mais fácil, prático e completamente indolor detetar a presença do HPV, a investigação concluiu ainda que a análise realizada ao sangue recolhido nos pensos permitia detetar mais subtipos do vírus com precisão. Um trunfo no rastreio de infeções e do cancro do colo, refere o ginecologista Fernando Cirurgião. “A citologia apenas permite perceber a presença do vírus e não determinar qual o seu subtipo”, explica.

O clínico refere que esta descoberta representa um grande passo não só para a ginecologia, mas sobretudo para as mulheres. “Grande parte das pacientes ainda se sente envergonhada quando tem de fazer uma citologia, por isso, este método seria uma inovação importante nesse sentido.” E tem outras vantagens, detalha o especialista: “Em algumas culturas, pode ser visto como mais positivo do que um Papanicolaou, que implica que a paciente seja observada por um profissional de saúde”.

O ginecologista adianta ainda que este método tornaria possível fazer um rastreio universal, algo que atualmente não acontece. Se este tipo de despistagem generalizada existisse iria permitir uma deteção mais precoce das infeções por HPV, prevenir de forma mais sustentada o desenvolvimento do cancro do colo do útero e também ajudaria a aprofundar a investigação sobre a doença.

No entanto, deixa um alerta: “Muitas mulheres,  por crença em mitos infundados relacionados com o aparelho reprodutor e o papel dos exames de rotina na saúde ginecológica, evitam realizar estes procedimentos”. Os resultados positivos que este tipo de análises não invasivas podem obter só irão ter um impacto real se “existir a preocupação de lançar uma campanha forte de informação e comunicação” sobre a necessidade das mesmas.

O que causa o cancro do colo do útero?

Esta doença oncológica é causada pelo vírus do papilomavírus humano, o HPV. Porém, a contração de uma infeção causa por este agente viral, por si só, não significa que a mulher vá desenvolver um cancro. Existem outros fatores que podem contribuir para que as lesões provocadas pelo vírus evoluam nesse sentido, como o tabaco e o funcionamento do sistema imunitário.

Existem mais de 120 tipos diferentes de HPV, uns são considerados de alto risco e outros de baixo. Cerca de 40 afetam sobretudo os órgãos genitais (vulva, vagina, colo do útero, pénis e ânus). As variantes de alto risco mais comuns são a 16 e a 18, que são responsáveis por 75 por cento das lesões que se tornam cancerosas.

Os restantes subtipos são considerados de baixo risco, porque embora também provoquem lesões nas mucosas estas tendem a não desenvolver células cancerígenas.  Ou seja, a probabilidade de desenvolver cancro está fortemente relacionada com subtipo do vírus responsável pela infeção. O rastreio permite assim a deteção mais eficaz da mesma e o tratamento de lesões pré-cancerosas já existentes.

Em Portugal, existe um programa de rastreio destinado a todas as mulheres dos 25 aos 60 anos e é feito com base numa citologia e realização de uma pesquisa de HPV em laboratório aos tecidos recolhidos. Se o teste for negativo, só precisa de ser repetido ao fim de cinco anos. Além disso, existe uma vacina que faz parte do plano nacional de vacinação desde 2008. Ainda assim, Fernando Cirurgião reforça: “Mesmo as mulheres inoculadas devem participar nos rastreios, porque a vacina, apesar de cada vez mais eficaz, apenas previne que se contraia a infeção”.

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